Para Mansueto, novo auxílio está criando “uma confusão imensa”

O economista-chefe do BTG Pactual disse em evento do banco que o problema é que o Congresso pode querer mais: “Todo dia eu escuto um político insatisfeito com o valor de R$ 400, querendo que seja R$ 500, ou falando que o valor tem de ser permanente”

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Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro Nacional e economista-chefe do BTG Pactual. Foto: Filipe Penko/BTG Pactual

O plano do governo para substituir o Bolsa Família com um auxílio que teria o valor temporário de R$ 400 mensais até o fim do ano que vem, confirmado pelo ministro Paulo Guedes na quarta-feira, dia 20 de outubro, deixou os investidores irritados.

No mercado, aumentou a percepção de que o ajuste fiscal será deixado de lado, com o furo do teto de gastos, e que o foco será em medidas que ajudem o presidente Jair Bolsonaro a se reeleger em 2022. Por volta das 15h, o Ibovespa operava em queda de 3,66%, enquanto o dólar chega a R$ 5,68, de R$ 5,59 no fechamento de ontem.

Um dos maiores especialistas em contas públicas do Brasil, porém, acredita que isso “não é o fim do mundo”. O economista Mansueto Almeida, que foi secretário do Tesouro Nacional (entre o final do governo Temer e o início do de Bolsonaro) e hoje é economista-chefe no BTG Pactual, afirma que o governo pode reverter a situação se conseguir convencer o mercado de que se trata de uma medida excepcional.

“Mas está faltando convicção em Brasília para nos explicar, para dizer que vai ter quebra do teto, sim, que será de R$ 30 bilhões, mas que será um evento único, que não terá mais furo do teto e que será um mecanismo de transição de saída da pandemia”, disse o economista, durante evento do BTG Pactual, nesta quinta-feira, 21 de outubro.

Mansueto, que não ia participar do evento até hoje de manhã, fez uma apresentação de 30 minutos e, no início, procurou ressaltar que o mercado não tem mais reagido ao atraso das reformas, mas, sim, aos sinais que o governo emite de que pode dar uma guinada na política econômica e mudar regras fiscais.

O Brasil, ele lembrou, tem apresentado melhora em indicadores e projeções econômicas, com o avanço da vacinação e a reabertura do varejo, mas a confiança do mercado no governo diminuiu.

Segundo Mansueto, a confiança do mercado no governo diminuiu

“Temos o menor déficit em conta corrente desde 2007, o que poderia levar o dólar para algo abaixo de R$ 5, mas não adianta mais falar isso, quando se coloca na equação a percepção de risco e descontrole fiscal”, ele disse. “Quando se coloca isso, o dólar não tem limite, pode ir a R$ 5,60, R$ 5,70, R$ 5,80, R$ 6 ou mais”.

Hoje, o Bolsa Família paga, em média, R$ 189 por mês a cada família beneficiária, em valores que variam de acordo com o número de filhos. A proposta do governo é substituir o programa por um novo benefício, o Auxílio Brasil, que teria um valor temporário de R$ 400 até o fim de 2022, para ajudar as famílias que ainda sofrem os efeitos da pandemia.

O programa alcançaria 17 milhões de famílias, 3 milhões a mais que no Bolsa Família, e teria custo adicional de R$ 30 bilhões em 2022 aos cofres públicos.

Em evento na quarta-feira, o ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a falar em uma “licença para gastar com essa camada temporária de proteção”, quando explicava como poderia encaixar o aumento no orçamento.

“Se o governo quebrar o teto, pode levar o tamanho das despesas de R$ 1,647 trilhão para R$ 1,680 trilhão. Não é o fim do mundo, se bem justificado tecnicamente”, disse Almeida, que lembrou que o País ainda vive uma situação de excepcionalidade causada pela pandemia.

O problema, afirmou, é que o Congresso pode querer mais. “Todo dia eu escuto um político insatisfeito com o valor de R$ 400, querendo que seja R$ 500, ou falando que o valor tem de ser permanente”.

O resultado é uma “confusão imensa” no mercado, afirmou. “Por mais que a turma da economia (a equipe econômica do governo) seja bem intencionada na hora de sinalizar a quebra do teto, o que fica do lado de cá é que não sabemos se o aumento do gasto será de R$ 30 bilhões, R$ 60 bilhões, R$ 90 bilhões ou mais”.

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