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Negócios

Por que a Trisul lidera a recuperação do setor de construção no Brasil

Construtora acumula uma valorização de 150% de suas ações em 2019 e lidera a retomada das companhias do setor na B3

 

O início de setembro trouxe uma agenda extremamente atribulada para Jorge Cury, presidente da Trisul. Para apresentar a oferta de follow on da construtora e incorporadora, o empresário participou de cerca de 100 reuniões com investidores, num intervalo de dez dias.

Em todos esses encontros, uma pergunta era recorrente: qual era o diferencial da empresa para se destacar em relação à concorrência, especialmente em um dos períodos mais hostis da economia brasileira. A resposta?

“Eu sempre digo que a palavra que define a Trisul é fundamento”, diz Cury, em uma referência ao foco da companhia em empreendimentos de médio e alto padrão nas zonas Sul e Oeste de São Paulo, com valor inicial de R$ 8 mil por metro quadrado. “Muitos dizem que é um nicho. Mas é o nicho de maior concentração de renda do Brasil.”

Os investidores compraram, literalmente, essas palavras. A Trisul captou R$ 405 milhões no follow on, cuja demanda superou em mais de quatro vezes a oferta. Esse discurso, no entanto, vem convencendo o mercado há mais tempo.

Nos últimos 12 meses, as ações da Trisul tiveram uma valorização de 301,12%. No acumulado deste ano, a alta está próxima de 150%. Desde o fim de 2018, o valor de mercado da empresa saltou de R$ 599 milhões para R$ 2 bilhões, segundo a consultoria Economatica.

Vale ressaltar que a empresa é uma Small Cap e ocupa a sétima posição entre as nove maiores incorporadoras do País em termos de valor de mercado, à frente apenas da Direcional e da Tecnisa. O que não diminui o feito de ser aquela cujas ações mais se valorizaram no ano.

A relação traz ainda as seguintes empresas: Helbor, 105,63%; Eztec, 95,59%; Even, 78,23%; Cyrela, 65,97%; Direcional, 49,76%; Tenda, 44,45%; e MRV, 39%. No período, a Tecnisa foi a única a registrar desvalorização, de 18,54%.

Na semana passada, um estudo da consultoria Alvarez&Marsal sobre a maturidade das companhias brasileiras listadas em Bolsa reforçou o bom momento da empresa.

A Trisul ficou na quarta posição entre as mais bem avaliadas. E foi a única do setor a figurar entre as dez primeiras colocadas do ranking, liderado pela varejista Magazine Luiza.

Retomada

O desempenho da Trisul, bem como de boa parte de seus pares, reflete a perspectiva de uma retomada no segmento da construção civil, um dos mais afetados com a crise econômica dos últimos anos.

No segundo trimestre, por exemplo, o PIB do setor registrou um crescimento de 2%. A alta interrompeu um ciclo de 20 trimestres consecutivos de queda. Na esteira desse cenário mais favorável, outras empresas, como Eztec, Tecnisa e Helbor lançaram suas ofertas de follow on recentemente.

Jorge Cury, presidente da Trisul.

“O setor está no início de um novo ciclo, com fatores como a inflação controlada e os juros baixos”, afirma Cury. “Para os próximos anos, nós enxergamos um potencial para alcançar o mesmo crescimento do passado.” Em 2018, a receita operacional líquida da Trisul cresceu 23%, para R$ 545,2 milhões.

O montante levantado no follow on será aplicado justamente para capturar as oportunidades diante da expectativa de recuperação do setor. Segundo Cury, a oferta de 40,5 milhões de ações a R$ 10 foi limitada pelo desejo expresso das três famílias controladoras – Cury, Saad e Sayeg – em manter um controle significativo da empresa.

“Uma nova geração das famílias já está vindo para o negócio e não queríamos ficar muito abaixo de 60% da operação.” No processo, o grupo em questão reduziu sua participação de 74% para 58%. “Temos recursos suficientes para garantir o crescimento nos próximos dois a três anos.”

Cury ressalta que a nova cifra será aplicada na compra de terrenos e na ampliação dos lançamentos, uma estratégia que começou a ganhar mais força a partir do fim de 2018.

Os números mostram esse reaquecimento. No primeiro semestre, a Trisul registrou um Valor Geral de Vendas (VGV) de R$ 527 milhões, um crescimento de 62% na comparação com igual período, um ano antes. A projeção é fechar o ano com dez lançamentos e um VGV entre R$ 900 milhões e R$ 1 bilhão, contra R$ 664 milhões em 2018.

A prioridade, a princípio, seguirá sendo os empreendimentos de médio e alto padrão nas zonas Sul e Oeste da capital paulista. A vertente responde por cerca de 70% dos negócios da construtora.

Já no segmento econômico, que responde pelos 30% restantes e é voltado aos imóveis do Minha Casa Minha Vida, o plano é mudar, gradativamente, de patamar. Do teto atual de R$ 240 mil, para entregas na faixa de R$ 250 mil a R$ 400 mil.

“O governo criou dificuldades com os subsídios do Minha Casa Minha Vida”, diz Cury. “Nossa ideia é ser menos dependente e trabalhar com outros recursos de financiamento do mercado.”

Não estão descartadas mais mudanças nesse mix. Especialmente com a perspectiva do reaquecimento da demanda por parte da classe média. O prazo para que esse perfil volte a atrair parte dos esforços da Trisul ainda divide opiniões na companhia. Mas tudo indica que ele estará, em breve, no escopo.

“Até mesmo porque existe um limitador dentro da classe média alta”, observa Cury. “Já estamos com um olho em terrenos que vão servir para a classe média.” No radar, regiões como a zona Leste e a Norte de São Paulo. E cidades da região metropolitana da capital paulista, como Guarulhos e Osasco.

Volta ao DNA

O momento positivo vivido pela Trisul pode ser atribuído, em grande parte, às mudanças que a empresa promoveu a partir de erros cometidos no passado. Fruto da união entre a Tricury e a Incosul, em agosto de 2007, a companhia abriu capital dois meses depois, em meio ao boom de IPOs do setor.

O momento positivo vivido pela Trisul pode ser atribuído, em grande parte, às mudanças que a empresa promoveu a partir de erros cometidos no passado

E passou a seguir a tendência do setor, ao investir em diversificação geográfica e em empreendimentos mais acessíveis. No fim de 2011, a Trisul tinha 70 canteiros de obras, em 24 cidades. E, por trás dessa expansão, uma série de dívidas.

“Foi então que entendemos que era muito risco para pouco lucro. E decidimos voltar para São Paulo e ao nosso DNA, de médio e alto padrão”, explica Cury.

Entre outras medidas, o grupo controlador ampliou sua participação na empresa, a companhia foi amortizando suas dívidas, hoje, na faixa de R$ 192 milhões, e reduziu lançamentos, de R$ 1 bilhão, em 2010, para R$ 300 milhões, em 2013.

“Quando a crise chegou ao mercado, eles também sofreram”, diz Shin Lai, analista da Upside Investor. “Porém, menos que outras empresas, pois já tinham consolidado uma gestão conservadora das finanças e uma estratégia de nicho bem assertiva.”

Ele também ressalta o fato de a Trisul trabalhar com um estoque pequeno de terrenos, na contramão das práticas de boa parte do setor. “Em geral, eles não ficam com o dinheiro parado, pois compram o terreno quando já têm um projeto engatilhado para construir. Isso também fez diferença na crise.”

No estudo da Alvarez & Marsal, a empresa se destacou tanto pelo retorno ao investidor, na comparação com seus concorrentes, como pelo fato de possuir um baixo nível de estoque de imóveis acabados, de R$ 47 milhões.

A consultoria apontou ainda as melhoras de margem operacional e o “saudável nível de endividamento” como pontos positivos da construtora.

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