Negócios

Renúncia de CEO reacende a desconfiança sobre o futuro da Gafisa

A incorporadora acaba de aumentar seu capital em R$ 205 milhões. Mas a saída repentina de Roberto Luz Portella pode colocar em xeque o plano de reestruturação da companhia

 

No início do ano, a Gafisa chegou a paralisar as obras de dez empreendimentos

Depois de um período extremamente conturbado, a Gafisa parecia ter, enfim, um cenário com perspectivas mais animadoras pela frente. A empresa, no entanto, voltou a despertar incertezas quanto ao seu futuro.

Na sexta-feira 20, após o fechamento do mercado, a incorporadora anunciou a renúncia do CEO Roberto Luz Portella. O executivo, que também acumulava o cargo de diretor de relações com investimentos, estava no posto há apenas seis meses.

No espaço de um ano, seu substituto, que será escolhido pelo Conselho de Administração, será a terceira pessoa a ocupar essa posição.

Em comunicado, a Gafisa ressaltou o fato de a renúncia acontecer após a conclusão da primeira fase de sua reestruturação. E sinalizou, a princípio, que a saída de Portella era um passo previsto no cronograma de reorganização da operação.

Mas não foi exatamente dessa maneira que o processo foi percebido fora dos limites da empresa. “Eles pegaram o mercado de surpresa. Se fosse, de fato, uma transição natural, um substituto já teria sido anunciado”, diz um executivo do setor. “Por que não fazer algo mais suave? O anúncio não pareceu, em nada, com um movimento organizado.”

De sexta-feira até ontem, dia 24, as ações da Gafisa acumularam uma desvalorização de cerca de 8,8%

O mercado, ao que tudo indica, fez a mesma leitura. De sexta-feira até ontem, dia 24, as ações da Gafisa acumularam uma desvalorização de cerca de 8,8%. No período, o valor de mercado recuou mais de 11%, de R$ 461,7 milhões para R$ 409,4 milhões.

Uma das principais empresas do setor, em seu auge, companhia chegou a valer R$ 6,3 bilhões, entre outubro e novembro de 2010, segundo a consultoria Economatica.

Além do pouco tempo à frente da operação, a saída de Portella chama a atenção pelo fato de acontecer justamente em um momento em que a incorporadora estava prestes a concretizar uma necessária injeção de recursos.

“Portella está deixando o cargo em meio ao segundo aumento de capital da empresa, o que coloca um ponto de interrogação no processo de recuperação da companhia”, escreveu o Credit Suisse, em comentário sobre o anúncio. O banco ainda ressaltou que a rotatividade no posto de CEO pode ser visto como um fator negativo.

Aumento de capital

Na segunda-feira 23, a Gafisa informou que, até o momento, o aumento de capital citado pelo Credit Suisse já contou com a subscrição e integralização de ações no valor aproximado de R$ 205 milhões. O montante equivale a 75% da cifra total prevista no processo.

A empresa acrescentou que irá divulgar os prazos e procedimentos para a subscrição das sobras e sobras adicionais até amanhã, dia 26 de setembro.

O aumento de capital foi aprovado pelo Conselho de Administração da empresa em 15 de agosto, com o objetivo de financiar o plano estratégico da empresa e melhorar a relação da dívida sobre o patrimônio líquido.

“A capitalização foi muito boa para a empresa, por isso, é estranha a saída do Portella justamente nesse momento”, afirma uma fonte do setor. “Ele se desgastou no cargo. Era um advogado de formação que foi colocado no posto, não um CEO.”

Roberto Luz Portella estava há apenas seis meses à frente da Gafisa

Na prática, Portella era o homem de confiança do empresário Nelson Tanure. Conhecido por mirar empresas em dificuldades financeiras e operacionais, o investidor começou a ganhar espaço na Gafisa em meados de março.

O processo que abriu caminho para a chegada de Tanure à operação tem origem na passagem anterior de outro investidor famoso no mercado de capitais pela companhia: o sul-coreano Mu Hak You.

Com um histórico controverso como investidor ativista, que inclui embates em empresas como a Saraiva, You assumiu o controle da incorporadora em setembro de 2018, por meio de sua gestora, a GWI. O avanço só foi possível pelo fato de que, historicamente, a Gafisa sempre teve um capital extremamente pulverizado, sem um bloco preponderante.

Depois de destituir o Conselho de Administração e ocupar, na prática, todos os assentos do colegiado, You implementou uma série de medidas que abalaram, literalmente, a estrutura da empresa.

A começar pelos cortes em todo o alto escalão. Na sequência, entre outras medidas, vieram a suspensão de pagamentos de fornecedores, o fechamento da filial no Rio de Janeiro e um questionado programa de recompra de ações, mesmo com o caixa da companhia sob pressão.

Uma das decisões que mais impactaram a operação, no entanto, veio no início deste ano. A empresa paralisou as obras de dez de seus quinze empreendimentos em São Paulo. Antes, a gestão de You, que tinha a CEO Ana Recart como seu braço direito, havia restringido os lançamentos da Gafisa a um único projeto, na contramão de suas concorrentes.

A empresa, que como todo o setor já vinha sendo impactada pela crise econômica dos últimos anos, viu sua situação deteriorar. Na esteira desse processo, You saiu de cena para a entrada de Tanure e de outros acionistas como a Planner, que hoje detém 27,47% da operação.

A Planner e Tanure ganharam corpo no negócio com um primeiro aumento de capital, no qual a Gafisa emitiu 26,7 milhões de ações e captou R$ 132 milhões.

Novos planos

Com um Conselho de Administração renovado e Portella como CEO, a nova gestão passou a traçar os planos de reestruturação. Além da capitalização, as medidas iniciais incluíram a constituição de comitês de reestruturação, governança, investimentos e de auditoria, bem como a contratação das consultorias Falconi e Bain & Company.

A empresa também retomou as obras paralisadas e se concentrou na venda de estoques. Ao mesmo tempo, anunciou a projeção de retomar os lançamentos entre o fim do ano e o começo de 2010. E passou a avaliar a entrada em novos segmentos, como produtos mais populares e empreendimentos com a mescla de perfil residencial e comercial.

Com pouco tempo no comando, os números ainda não refletem grandes mudanças. No primeiro semestre, a Gafisa reportou um prejuízo de R$ 59 milhões, contra R$ 78,4 milhões em igual período, um ano antes. A receita líquida recuou de R$ 515 milhões para R$ 195 milhões. E o Valor Geral de Vendas caiu de R$ 300,9 milhões para R$ 171,3 milhões.

Para um executivo do setor, a forma como o anúncio foi feito sinaliza uma falta de sintonia entre os acionistas

A saída repentina de Portella pode impactar ainda mais essa recuperação. “A princípio, a empresa pode ter decidido buscar alguém mais alinhado com esse momento de execução da estratégia”, diz Shin Lai, analista da Upside Investor. “Mas o fato é que isso gerou mais dúvidas sobre essa recuperação.”

Para um executivo do setor, a forma como o anúncio foi feito sinaliza uma falta de sintonia entre os acionistas. “Ao que tudo indica, havia um consenso sobre o aumento de capital, mas não sobre a destinação desses recursos”, afirma, ressaltando outro ponto crítico para a Gafisa: “A empresa passa por uma séria crise de reputação, fruto das medidas da gestão anterior.”

Outra fonte consultada pelo NeoFeed entende que a saída de Portella pode ter sido motivada pelo entendimento de que o montante captado até o momento não é suficiente para reverter o estrago causado pela passagem de Mu Hak You.

Ele acrescenta que a Gafisa ainda é um nome forte no mercado. Mas faz uma ressalva preocupante para a empresa. “A companhia esteve no centro de tantos imbróglios no último ano e praticamente deixou de ser vista como uma concorrente”, afirma. “São tantos problemas que as notícias vão perdendo efeito. É quase uma tragédia anunciada.”

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