Riesling: sucesso de crítica, mas um fracasso de público

A uva branca alemã ficou marcada por vinhos de baixa qualidade, como o Liebfraumilch, da famosa “garrafa azul” da década de 1990. Mas é apreciada por especialistas e conta com bons rótulos disponíveis no Brasil

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Rótulos em alemão e notas pouco agradáveis como querosene e fluído de isqueiro são barreiras para o consumidor provar a Riesling

De uns anos para cá surgiram várias datas que celebram uvas. Trata-se de um esforço comercial dos players envolvidos na cadeia como vinícolas, associações regionais dos produtores, importadores, críticos e sommeliers para dar impulso aos seus produtos mais estratégicos.

O dia da Riesling, por exemplo, foi criado em 2019 por iniciativa da associação “Wines of Germany”. A uva branca, agora celebrada em 13 de março, é o maior símbolo do vinho alemão e uma das queridinhas dos críticos e especialistas mais influentes. Mas nem com toda esta torcida, ela se transformou em um sucesso de público.

Conhecida por gerar vinhos longevos, especialmente nas regiões do Mosel, Rheingau e Nahe, na Alemanha, que podem ser secos ou doces, a Riesling tem personalidade marcada pelas notas químicas e minerais (que lembram querosene, fluído de isqueiro e pedra molhada), que embora não soem agradáveis de se encontrar em uma bebida, aficionados cultuam por encontrá-las quase de forma exclusiva nesta variedade.

O doutor em biologia e autor de diversos livros sobre a ciência do vinho, Jamie Goode, publicou uma coluna em seu site Wine Anorak levantando os argumentos porque a Riesling continua a fracassar comercialmente.

Entre fatores como o modelo da garrafa (fina e alta), rótulos complicados devido ao idioma alemão e a confusão com os níveis de doçura possíveis, o colunista britânico aponta um grande fator que tangencia o que ocorreu no mercado brasileiro: o vinho feito com a Riesling é engarrafado e rotulado como qualquer vinho alemão.

Segundo Goode, isto o coloca na mesma categoria do grande universo de vinhos brancos baratos, adocicados e de baixa qualidade feitos na Alemanha. E isto também se deu mercado brasileiro.

Afinal, muitos se recordam (com traumas) do vinho alemão da garrafa azul que inundou as prateleiras dos mercados brasileiros na década de 1990. Otavio Piva de Albuquerque, então fundador e CEO da importadora Expand, foi o grande personagem que introduziu aquele vinho alemão no mercado brasileiro.

“Eu trazia cerca de 70 rótulos de vinho alemão e, por um problema na oferta de garrafas, no início da década de 1990, o produtor enviou para nós dois lotes com a garrafa azul”, relembra Piva. “Mas, nas degustações, pela dificuldade com os nomes alemães, as pessoas apenas se recordavam da garrafa azul.” E quando o importador passou a pedir os vinhos nas garrafas azuis, o produtor estranhou, pois na Alemanha a garrafa daquela cor é destinada aos produtos de limpeza.

O importador ainda recorda que, nos primeiros anos da década de 1990, das cerca de 12 milhões de garrafas de vinho, que eram anualmente importadas pelo mercado brasileiro, metade era do tal vinho branco alemão da garrafa azul. “Daí todos passaram a importar o vinho alemão na garrafa azul, muitos deles de qualidade duvidosa”, conta Piva.

O Liebfraumilch, o tal vinho da garrafa azul, nesta época, era uma marca e podia ser produzido em praticamente todo território alemão. Como se pode imaginar, poucos levavam a Riesling em sua composição e a maioria utilizavam a Sylvaner e a Müller-Thurgau, variedades mais neutras e mais produtivas.

Os MW (Master of Wine) britânicos Jancis Robinson e Tim Atkin em diversas oportunidades também apontaram a confusão dos rótulos, enormidade de estilos e formato das garrafas como os grandes inimigos da Riesling.

Foram vários acenos para os produtores tentarem colocar em outros formatos de garrafas e simplificarem a mensagem nos rótulos ou contra-rótulos, pois o que está dentro merece ser descoberto pelos consumidores.

Durante oito anos, o maior produtor de Riesling no mundo, a vinícola Columbia Crest, de Washington State, foi representada no país pela Winebrands. Hoje seus vinhos chegam pela Grand Cru.

Neste período de experiência com a cepa no mercado brasileiro, Ricardo Carmignani, CEO da Winebrands, reforça que o desafio para a Riesling segue sendo migrar dos especialistas para os consumidores. “Gosto muito da Riesling, mas o consumidor costuma passar primeiro pela Chardonnay e pela Sauvignon Blanc antes de chegar nela”, diz Carmignani.

Para conseguir bons resultados nas vendas, segundo Carmignani, é necessário promover experimentação constante, abrir a garrafa e oferecer ao consumidor. “Se o câmbio ajudasse, seria viável nosso trabalho com a Columbia Crest, mas quando juntamos câmbio e tributos, fica difícil essa ação junto ao consumidor.”

Em um ensaio de ressurgimento comercial da cepa, o sommelier e restaurateur canadense e radicado em Nova Iorque desde 1991, Paul Grieco, criou o wine bar Terroir em 2008. Foi uma inciativa em parceria com seu colega e também badalado chef Marco Canora (se conheceram quando trabalhavam no Gramercy Tavern e começaram como sócios no restaurante Hearth, também em Manhattan).

A postura moderna e informal, um tanto punk e caótica, do wine bar despertou a atenção do mundo do vinho e se tornou a referência para empreendimentos semelhante na época. Grieco já era um fanático pela Riesling e no verão de 2008 decidiu que em seu wine bar seria servido apenas Rieslings por taça, uma ação que batizou como “Summer of Riesling”.

Para um bar de vinhos, servir apenas Riesling soava como loucura para os negócios, entretanto sua obsessão espalhou a notícia pelo mundo, chegando, inclusive, ao Brasil. Daniela Bravin, sommelière e proprietária do wine bar Sede 261 e do restaurante Huevos de Oro, fez sua edição do “Summer of Riesling” em seu antigo restaurante, Bravin. Em 2015 foram nada menos que 80 rótulos de Riesling servidos (todos) em taças.

“Comprei um ofurô, coloquei no meio do salão e dentro dele todas as garrafas numeradas, formando um caracol. Obviamente foi uma ruína financeira”, afirma Bravin. Ainda assim, Bravin antecipa que deve retomar esse ano a ação de servir uma grande quantidade de rótulos de Riesling por taça, no Sede 261.

Em 2014, Paul Grieco desfez a sociedade com Canora, que ficou com o Hearth. Dos outros três empreendimentos de Grieco (Insieme e duas unidades do Terroir) apenas o Terroir original, em Tribeca, sobrevive.

Códigos da Riesling

A primeira menção à Riesling data de 1435, ano em que se encontrou o primeiro registro escrito com menção a casta, em um documento de compra de seis videiras para um produtor da região de Rheingau, o que implica no 587º aniversário da casta neste ano.

Vale observar que a Riesling tem seus parentes a Riesling Renana (ou Johannisberg Riesling), que não se confunde com a Riesling Itálica (ou Welschriesling), muito utilizada nos espumantes brasileiros.

Quase um quarto dos vinhedos da Alemanha hoje estão cultivados com a Riesling, o equivalente a 24 mil hectares aproximadamente, e que corresponde a cerca de 40% da superfície total da casta no mundo.

Entre os estilos, o alemão, principalmente das regiões do Mosel e do Rheingau, são minerais e delicados. Os secos são identificados como “Trocken” no rótulo, enquanto os de sobremesa trarão alguma referência a “Auslese”.

Uma seleção de rieslings: Pegasus Bay Bel Canto Dry Riesling 2019 (Canterbury,Nova Zelândia, R$ 620, Premium Wine); Miolo Single Vineyard Johannisberg Riesling 2019 (Campanha Gaúcha, R$ 76,95); J.J. Prum Wehlener Sonnenuhr Riesling Auslese 2011 (Mosel, Alemanha, R$ 822,94, Mistral); Domaine Trimbach Riesling 2019 (Alsácia, França, R$ 471, Zahil)

A Alsácia, única região francesa onde a Riesling está abarcada na denominação de origem, grande parte são secos (em geral mais alcoólicos e potentes que os alemães) e os de sobremesa trazem a descrição “Vendange Tardive” ou “Sélection des Grains Nobles.

No Novo Mundo a grande referência vem da Austrália, onde Clare Valley virou sinônimo do estilo da Riesling: exuberante e cítrica. Na Nova Zelândia é possível encontrar exemplares que navegam entre o estilo Clare Valley e o alsaciano.

Nos Estados Unidos, Washington Estate concentra grande parte da produção da Riesling, com foco na fruta mas não tão cítrica quanto Clare Valley, e Fingir Lakes (norte do estado de Nova Iorque) desponta com bom potencial.

Zonas mais frias da América do Sul, como na Patagônia chilena, e nas altitudes mais elevadas de Mendoza, também produzem alguns exemplares de Riesling com boa tipicidade. No Brasil, a Miolo produz um Riesling na linha Single Vineyard, resultado das plantações feitas na década de 1970 pela norte-americana Almadén.

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