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Romero Britto: arte ou mercadoria?

Apesar de bastante controverso, ele caiu no gosto do jet set internacional. É como se Romero personificasse a brasilidade, com suas criações exalando felicidade. Mas, afinal, o que ele representa para a arte?

 

O artista plástico Romero Britto apresenta algumas de suas obras na tela de uma tevê (Crédito: Agência Estado)

Ele é um dos brasileiros mais conhecidos no mundo, atualmente. Seja de forma autorizada, seja por meio de réplicas piratas, suas estampas estão em produtos à venda em todos os continentes. É um verdadeiro campeão de licenciamento para grandes marcas internacionais. Mas, para muitos, não passa de alguém que faz coisas cafonas e bregas.

Refiro-me a Romero Britto. Este pernambucano de 57 anos ganhou o mundo com seus traços alegres e cores vivas. Estabeleceu-se em Miami, na Flórida, e de lá reproduz imagens que vão do Mickey Mouse a uma releitura do célebre “O Abaporu”, de Tarsila do Amaral (1886-1973).

Apesar de bastante controverso, ele caiu no gosto do jet set internacional. É como se Romero personificasse a brasilidade, com suas criações exalando felicidade. Já esteve com Barack Obama e Elton John. Madonna se diz apreciadora de seus trabalhos e, na infindável lista de personalidades retratadas pelo brasileiro, estão Shakira, Michael Jackson (1958-2009), Leonardo DiCaprio e Hillary Clinton — além dos nomes citados anteriormente neste parágrafo, é claro.

Sua aproximação com políticos também costuma ganhar o noticiário. Entre outros, Romero já pintou a ex-presidente Dilma Rousseff, o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, o atual governador de São Paulo, João Doria Jr., e, mais recentemente, o atual presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

Entre polêmicas e obras que despertam os mais diferentes sentimentos nas pessoas, minha pergunta é: Romero Britto é um artista?

Para os gregos antigos, a arte está associada à téchne, ou seja, à técnica. Nesse sentido, artista é aquele que domina a técnica e se expressa por meio dela. Usando os renascentistas como exemplo do saber-fazer, podemos supor que eles não estavam muito preocupados com a cultura de massa, menos ainda com o consumo.

Afinal, se Michelangelo (1475-1564) se concentrava em esculpir em mármore ou andava às voltas com os afrescos da Capela Sistina, Romero Britto parece priorizar a assinatura de grandes contratos de licenciamento para faturar milhões de dólares.

Isso é errado? Isso faz dele menos artista? Isso tira o mérito dele? Romero vende canecas, malas, roupas de gosto duvidoso, utensílios de cozinha — e também pinturas e esculturas, além de reproduções das mesmas, por milhares de dólares.

Seu trabalho não entra em nenhuma feira de arte, dificilmente está em museus e não costuma ser aceito por instituições do gênero. Ele não é representado por nenhuma galeria; na verdade, tem sua própria loja, na Lincoln Road, em Miami Beach.

Movido pelo mercado, o artista segue malvisto e com fama de mero fazedor de enfeites em alguns círculos brasileiros. Ele não é respeitado por aqueles que julgam que a cultura deve estar associada a uma certa intelectualidade.

Além disso, há o problema de ele não se posicionar politicamente. Grandes artistas brasileiros fizeram e fazem história com posturas políticas contundentes. Antônio Dias (1944-2018), por exemplo, traduziu o horror da ditadura brasileira em suas obras. No Brasil contemporâneo, Nuno Ramos não perde a oportunidade de se contrapor a este governo ignóbil, que não se preocupa de fato com a cultura do País.

E o que faz Romero Britto? Como artista, é um grande empresário de sucesso, alguém que fatura milhões de dólares com seu branding, com sua marca. Não demonstra nenhum engajamento do ponto de vista intelectual, social e cultural. Enquanto artistas do primeiro escalão têm a capacidade de nos fazer pensar, Romero Britto continua assinando seus trabalhos e vendendo Mickey Mouse.

* Marcos Amaro é artista plástico, colecionador, empresário e presidente do FAMA Museu e Campo.

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