O grau de incerteza e a expectativa em todos os países do mundo nesta terça-feira, 1º de abril, em torno das tarifas de importação dos Estados Unidos já representam uma vitória do presidente americano Donald Trump, antes mesmo do anúncio do pacotaço prometido para a quarta-feira, 2 – que ele chama de “Dia da Libertação”.

Horas antes de revelar a substância de sua política comercial, as especulações desencontradas sobre o teor das medidas atendiam aos interesses do presidente americano, que ficaram claros desde a posse.

“Trump gosta de incerteza, porque isso lhe dá alavancagem de negociação ao manter seus interlocutores confusos sobre seus objetivos”, resume Robert Armstrong, colunista do jornal britânico Financial Times, que define o presidente americano como um jogador frio, que consegue impor as regras do jogo ao manter a atenção sobre si, alimentando especulações.

Assim, a percepção de que o presidente americano age de forma errática, com avanços seguidos de recuos, faz parte dessa estratégia. A rigor, Trump tem três objetivos não declarados, mas evidentes ao se analisar o conjunto de suas ações.

Um deles é alterar a divisão atual de encargos tarifários entre os EUA e o resto do mundo. Até janeiro, a taxa média de tarifas de importação dos EUA para outros países era de 3%. A da Europa era de 5% e a da China, 10%. O presidente americano aposta que pode aproximar essas médias em quatro anos.

Outra prioridade é acabar com a dependência da cadeia de suprimentos da China, não apenas por razões comerciais, mas por de segurança. Para isso, alardeia a imposição de tarifas de importação como uma forma de “trazer a indústria de volta” aos EUA.

O terceiro objetivo é usar a arrecadação com as tarifas – que pode chegar a US$ 600 bilhões por ano, contra os US$ 77 bilhões arrecadados em 2024 – como um colchão para bancar essa volta da indústria, seja por eliminação de impostos ou pela isenção de insumos importados para facilitar a reindustrialização.

Até o momento, após várias ameaças e recuos, Trump já implementou tarifa de 20% sobre produtos chineses, de 25% nas importações de aço e alumínio e sobretaxação de 25% sobre mercadorias de Canadá e México que desrespeitem as regras do acordo comercial da América do Norte.

Ele também prometeu na semana passada tarifas de 25% sobre importações de automóveis, que devem entrar em vigor na quinta-feira, 3 de abril. Na véspera do anúncio de sua política comercial, porém, boa parte dos analistas não conseguia cravar onde Trump pretende chegar.

Isso porque, a cada dia, surge uma armadilha nova. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, por exemplo, disse em uma entrevista em 18 de março que as tarifas seriam aplicadas aos chamados “15 Sujos” — um grupo de 18 países que compõem 15% do volume de comércio dos EUA e impõem tarifas pesadas sobre produtos americanos.

Dias depois, Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional de Trump, revelou que o governo está analisando um grupo menor, de 10 a 15 países, responsável por “todo o déficit comercial de US$ 1 trilhão dos Estados Unidos”.

No fim de semana, o presidente americano assegurou que sua tarifa recíproca terá como alvo “todos os países”, rejeitando explicitamente as sugestões de que as sobretaxas seriam apenas aos “15 Sujos” e, por tabela, afastando expectativas criadas na semana anterior de que as taxas de importação poderiam ser mais direcionadas.

Desde então, as especulações giraram em torno do grau de tarifação – entre 10% e 20% de sobretaxa ou um índice intermediário -, sem que ninguém saiba ao certo se para alguns ou se para todos os países.

Sinais preocupantes

A estratégia da desinformação funciona por tornar mais complicado, ao menos por enquanto, o cálculo do impacto das tarifas sobre a economia dos EUA e do mundo – o que só será possível fazer após o anúncio. Mas os sinais são preocupantes.

Na segunda-feira, 31 de março, último dia de negociação do trimestre, o desempenho de ações dos EUA desde janeiro teve uma quebra de sequências de vitórias de cinco trimestres, sofrendo suas maiores perdas em três meses desde 2022. No trimestre, o S&P 500 caiu 4,6%, o Dow Jones perdeu 1,3% e o Nasdaq recuou 10,4%.

A estimativa do PIB para o primeiro trimestre, anunciada pelo Federal Reserve de Atlanta, prevê a economia encolhendo 0,5%. Esse número volátil mudará conforme os dados de março chegarem, mas tanto os consumidores quanto as empresas ficaram mais cautelosos, pois se preocupam com o efeito das tarifas.

O flerte de Trump com a desaceleração da economia e aumento da inflação com suas ameaças aparentemente não preocupa o presidente americano, que vive afirmando que um prejuízo temporário eventual com as tarifas “vale o dano econômico”, que será recuperado adiante.

No governo, por exemplo, existe a certeza de que a guerra tarifária – diferentemente do que vem afirmando a maioria dos analistas – não terá grande impacto inflacionário. Trump costuma citar como exemplo o aumento de tarifas contra a China durante seu primeiro mandato, entre 2018 e 2019.

Na época, as tarifas sobre milhares de produtos somaram aproximadamente US$ 380 bilhões, sem causar efeito na inflação. Mas as tarifas do segundo governo Trump, até agora, afetam mais de US$ 1 trilhão em importações e, quando as isenções temporárias para Canadá e México expirarem este mês, as tarifas vão impactar mais de US$ 1,4 trilhão em importações.

"Em 2018, as tarifas foram relativamente direcionadas a certas regiões geográficas, como a China, e a certos tipos de produtos e, com algumas exceções, isso entrou em jogo", diz Liz Hempel, sócia da McKinsey & Company nos EUA. "As tarifas agora são muito mais amplas em termos de escopo, tanto em termos de produtos quanto de países."

Isso significa que, em 2018, os empregadores tinham mais opções para redirecionar suas cadeias de suprimentos e evitar impostos de importação, como realocar a atividade de produção para o Vietnã ou México.

Desta vez, os americanos devem sentir o impacto desses novos impostos. O aumento de preços de produtos importados ou de nacionais que precisam importar insumos tende a contaminar a economia como um todo no médio prazo.

Foi o que aconteceu depois que Trump aumentou as tarifas sobre máquinas de lavar em seu primeiro mandato. Os preços das máquinas de lavar aumentaram quase 12%, de acordo com um estudo de 2019, e não importava onde a máquina era feita.

Estudo do Yale Budget Lab, divulgado nesta terça, 1º de abril, mostra que se a Casa Branca seguir adiante com uma opção política relatada de tarifas amplas de 20%, isso custará à família média americana entre US$ 3.400 e US$ 4.200 em perda de poder de compra.

A estimativa mais alta leva em conta a probabilidade de que outros países retaliem. Famílias de renda mais baixa sofrerão desproporcionalmente o impacto, com sua renda caindo quase três vezes mais do que aquelas no topo, de acordo com a análise.

Para rebater previsões sombrias, a Casa Branca passou a defender que a previsão de arrecadar cerca de US$ 600 bilhões por ano com as tarifas, ou US$ 6 trilhões em um período de 10 anos, é um grande feito para o país.

No fim de semana, Peter Navarro, um dos principais conselheiros comerciais de Trump, chegou a afirmar em entrevista que “as tarifas significam corte de impostos”, pois serão pagas por outros países.

Economistas rebateram, afirmando que em qualquer lugar do mundo, uma tarifa é um imposto – pois ao arrecadar US$ 600 bilhões a mais por ano em receita, o governo federal estará tirando essa quantia de indivíduos e de empresas na economia privada.

"A guerra comercial agora é uma realidade", assegura Brian Coulton, economista-chefe da agência de classificação de crédito Fitch.

Segundo cálculos da Fitch, desde que Donald Trump retornou à Casa Branca em janeiro, as tarifas que os EUA impõem ao resto do mundo mais que quadruplicaram, se aproximando de uma média de 10% - índice só obtido ao final da Segunda Guerra.

Mesmo que insista com uma política de altas tarifas, que devem ser respondidas com medidas retaliatórias por parte dos países afetados - como o projeto de lei de reciprocidade aprovado nesta terça, dia 1º, pelo Senado brasileiro -, Trump ainda tem um trunfo: a possibilidade de recuar quando quiser, se notar que os efeitos foram menores do que o esperado.

É como costuma agir quem pode jogar de acordo com as regras criadas pelo dono da bola, como é o caso do presidente americano.