Os britânicos reagiram na segunda-feira, 29 de junho, com misto de otimismo e desconfiança ao primeiro discurso de Andy Burnham, ex-prefeito da região metropolitana de Manchester, como novo primeiro-ministro do Reino Unido, em substituição ao demissionário líder trabalhista sir Keir Starmer.

Em pronunciamento feito no Museu de História Popular de Manchester – seu primeiro grande discurso político desde que retornou à Câmara dos Comuns, após cumprir três mandatos como prefeito -, Burnham apresentou uma série de medidas que, segundo ele, fazem parte de um plano de dez anos para reverter a estagnação econômica do Reino Unido, uma tarefa difícil que acabou levando à queda de seu antecessor.

A decisão de ter escolhido falar em Manchester, e não em Londres, simboliza o que ele pretende fazer: deslocar parte do centro de gravidade político do país. O anúncio mais emblemático foi a criação de um escritório oficial do primeiro-ministro instalado em Manchester que ele batizou de “Número 10 Norte” – numa referência ao endereço da sede do governo britânico, a Downing Street, em Londres.

Embora governos anteriores tenham distribuído departamentos e equipes por outras cidades, Burnham quer algo mais profundo: um polo de decisão com autonomia real. O novo premiê afirma que pretende entregar novos poderes a líderes locais em todo o país, incluindo autoridades da Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. Ele descreve o plano como “o maior reequilíbrio de poder da história política britânica”.

O novo escritório em Manchester, segundo ele, será responsável por coordenar o maior programa de construção de casas populares desde o pós-guerra. A promessa é ambiciosa num país onde o déficit habitacional se tornou um dos principais motores da crise do custo de vida.

Ele prometeu ainda aumentar a capacidade do governo de investir no setor produtivo, reformar o sistema de assistência social para idosos e cumprir a norma do Partido Trabalhista de não elevar impostos.

Suas propostas foram elogiadas, mas há desconfiança se ele terá força política para implementá-las – Burnham sequer era deputado há um mês e, no entanto, está prestes a assumir o cargo mais alto do país sem ter tido o trabalho de vencer uma disputa pela liderança, quanto mais uma eleição geral

Aos 54 anos, ele chega ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido como uma figura conhecida por sua trajetória fora do eixo tradicional do poder britânico.

Embora tenha sido deputado e ministro em governos trabalhistas anteriores, foi durante a década em que comandou a Grande Manchester — uma região metropolitana de quase três milhões de habitantes no noroeste da Inglaterra — que Burnham consolidou a imagem de gestor pragmático, defensor da descentralização e crítico da concentração de decisões em Londres.

Economia em baixa

Burnham assume o governo diante de um cenário econômico delicado. O Produto Interno Bruto (PIB) do Reino Unido cresceu 1,1% em 2024 e 1,4% em 2025. A inflação anual medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (CPI) registrou uma média de 2,5% em 2024 e fechou o ano de 2025 em torno de 3,4%.

Além disso, a produtividade não cresce, a renda real das famílias está estagnada e o custo de vida se tornou uma preocupação permanente. O país gasta cerca de 110 bilhões de libras (US$ 140 bilhões) por ano apenas com juros da dívida pública, que já se aproxima de 3 trilhões de libras (US$ 3,8 trilhões).

Uma das mudanças mais sensíveis envolve a reforma do council tax, o imposto municipal sobre residências, baseado em valores imobiliários de 1991. A atualização poderia aumentar significativamente o valor pago por moradores de Londres e do Sudeste do país, onde os preços dos imóveis dispararam nas últimas décadas.

Em contrapartida, reduziria a carga tributária em regiões mais pobres, especialmente nos distritos da chamada “Red Wall”, antigos redutos trabalhistas que migraram para os conservadores nos últimos anos.

Outro ponto central da agenda de Burnham é a reforma do sistema de assistência social para idosos. No Reino Unido, esse serviço não faz parte do NHS — o sistema público de saúde — e muitas pessoas precisam vender suas casas para pagar por cuidados de longa permanência. Governos anteriores tentaram resolver o problema, sem sucesso.

Burnham já propôs, em 2010, um imposto sobre o valor dos imóveis após a morte do proprietário, medida que foi rotulada pela imprensa conservadora como “imposto sobre a morte”. Ele não descarta retomar uma versão dessa ideia. Resolver o impasse da assistência social, afirma, reduziria a pressão sobre o NHS e daria mais segurança financeira às famílias.

O novo premiê prometeu ainda respeitar as regras fiscais do Partido Trabalhista, que proíbem o aumento de impostos como IVA, imposto de renda e contribuições para a seguridade social. Também se comprometeu a garantir que gastos correntes sejam cobertos por arrecadação em até três anos, deixando o endividamento apenas para investimentos de longo prazo.

Mesmo com essas restrições, o novo premiê britânico acredita que há margem para ampliar investimentos em infraestrutura — especialmente em transporte, habitação e serviços públicos locais.

Burnham chega ao poder num Parlamento que, segundo ele próprio, parece mais tenso e infeliz do que quando foi deputado pela última vez. A pressão das redes sociais, a insatisfação pública e ameaças à segurança mudaram o ambiente político. Ainda assim, o novo premiê tenta transmitir leveza: fez seu discurso vestindo uma camiseta azul-escura, num estilo informal incomum para líderes britânicos.

Para muitos parlamentares trabalhistas, que passaram anos temendo pesquisas desfavoráveis e disputas internas, Burnham representa a chance de reconstruir confiança e estabilidade. Se conseguir “tornar a política divertida novamente”, dizem aliados, já terá conquistado parte do apoio necessário para avançar sua agenda.

O que preocupa é que boa parte de suas propostas já havia sido feita por Starmer, que durou apenas 23 meses no cargo, entre elas, responsabilidade fiscal e reconstrução dos serviços públicos após anos de austeridade.

Seu governo priorizou estabilidade econômica, relações institucionais mais previsíveis e uma tentativa de recuperar a confiança do eleitorado tradicional trabalhista, especialmente no norte da Inglaterra. Apesar de avanços pontuais, Starmer enfrentou crescente frustração interna e externa diante da lentidão na recuperação econômica e da persistente crise do custo de vida.

Burnham assume o governo com uma combinação rara de expectativas: é visto como outsider e insider ao mesmo tempo — alguém que conhece o centro do poder, mas que passou anos longe dele; alguém que fala em unidade nacional, mas que quer deslocar poder para fora da capital.

Se conseguirá cumprir a promessa de “virar do avesso” o Reino Unido, ainda é cedo para dizer. Mas sua agenda — habitação popular, descentralização, reforma tributária e assistência social — coloca em debate temas que há décadas desafiam governos britânicos. E, com três anos até a próxima eleição geral, Burnham terá tempo para tentar provar que o modelo de Manchester pode, de fato, ser ampliado para todo o país.