O conflito no Irã está causando um choque sério – mas não sistêmico – nos mercados, longe de gerar os efeitos impactantes no preço do petróleo como na Primeira Guerra do Golfo (1990-91) e na invasão da Ucrânia (2022).

A tendência é de uma desescalada no curto prazo. Mesmo num cenário de piora, com o barril do petróleo a US$ 115 por seis meses, por exemplo, a tendência seria de pequena alta de inflação e um efeito moderado nas ações.

O diagnóstico acima faz parte de um estudo do Lombard Odier, private bank suíço, ao qual o NeoFeed teve acesso em primeira mão. O tom otimista do paper parece confirmar a percepção do mercado de ações americano, que tem tido poucas oscilações relevantes desde o início da guerra, apesar da crescente tensão geopolítica.

Na quarta-feira, 15 de abril, por exemplo, o índice S&P 500 subiu 0,8% e fechou acima de 7 mil pontos, superando sua máxima de 27 de janeiro. O índice Nasdaq, com forte presença de empresas de tecnologia, subiu 1,59% e ultrapassou os 24 mil pontos — seu maior nível desde outubro passado e o 11.º dia consecutivo de ganhos.

Assinado por Luca Bindelli, head de estratégia de investimentos da instituição, o estudo do Lombard Odier observa que, no primeiro dia dos bombardeios no Irã, no início de março, a economia global já vinha registrando crescimento resiliente e inflação em desaceleração.

Por essa razão, o impacto causado pelo aumento do preço do barril de petróleo nos mercados e nos indicadores macroeconômicos dos países foi inferior aos últimos dois grandes choques energéticos, na primeira Guerra do Golfo (90-91) e na invasão da Ucrânia (2022)

“O conflito no Irã está causando um choque sério – mas não sistêmico – nos mercados”, escreve Bindelli no estudo, acrescentando que o cenário base pressupõe uma desescalada que evite consequências mais disruptivas. Segundo ele, a expectativa é que os preços do petróleo bruto Brent fiquem em torno de US$ 90 por barril nos próximos seis meses, mas com efeitos ainda limitados na economia global.

“Mesmo considerando um atraso na normalização dos preços após o fim das hostilidades, isso implicaria uma leve queda na inflação e um crescimento mais lento, em vez de novas pressões inflacionárias ou uma recessão”, diz o estudo.

Bindelli alinha outros argumentos que explicam a discrepância entre a tensão geopolítica causada pelo conflito e o impacto menos evidente na economia global.

Um deles é o fato de os mercados financeiros já terem absorvido parte do choque energético, com as ações globais caindo até 5%, impulsionadas pela deterioração dos índices preço/lucro e refletindo os preços mais altos da energia e as incertezas.

“Isso é visível na volatilidade das taxas de juros em títulos com diferentes vencimentos, ou taxas de desconto”, observa o executivo do Lobard Odier, acrescentando que as notícias recentes de cessar-fogo contribuíram para a recuperação dos mercados.

“As revisões do crescimento dos lucros continuaram a aumentar desde o início do conflito e os spreads dos títulos corporativos – ou a diferença nos rendimentos em relação aos títulos soberanos – permanecem estáveis, sugerindo poucas preocupações com o crescimento até o momento”, assinala.

Isso pode mudar se o conflito for retomado após o cessar-fogo, mas até agora, na visão do banco suíço, o crescimento resiliente parece consistente com os recentes desenvolvimentos do mercado.

“Apesar de alguma volatilidade adicional, não esperamos uma retração materialmente mais profunda do mercado de ações”, diz o estudo. “Nesta fase, é improvável que os títulos do governo dos EUA proporcionem uma forte diversificação de portfólio.”

Nesse cenário base, portanto, o banco suíço prevê que as pressões de alta sobre a inflação global permanecerão controladas. O crescimento dos EUA deve arrefecer em vez de contrair, e a inflação subirá modestamente.

“Nossas expectativas para a taxa terminal do Federal Reserve permanecem praticamente inalteradas, apesar dos cortes de juros adiados”, diz o estudo.

Cenários negativos

Apesar da perspectiva positiva, o estudo do Lombard Odier contempla a possibilidade de dois cenários pessimistas no curto prazo, caso o cessar-fogo fracasse e o conflito volte a ter uma escalada de ataques, além da manutenção do bloqueio do Estreito de Ormuz.

“Embora não seja nosso cenário principal, uma interrupção prolongada no fornecimento de petróleo poderia elevar os preços para cerca de US$ 115 por barril ao longo de seis meses”, adverte o estudo. A inflação aumentaria mais significativamente, enquanto os custos mais altos de energia afetariam o consumo e as margens corporativas.

Nesse caso, o desempenho das ações seria moderado. Os títulos do governo dos EUA teriam dificuldades para compensar a fraqueza do mercado de ações, já que as preocupações com a inflação limitariam a possibilidade de queda dos rendimentos e os bancos centrais poderiam considerar aumentar ainda mais as taxas de juros.

“Tal cenário seria semelhante ao de 2022, quando a inflação estava acima das metas dos bancos centrais, levando os formuladores de políticas a um rápido aperto monetário para conter a alta dos preços e as expectativas de inflação”, aponta o estudo.

Num caso mais extremo de escalada do conflito, envolvendo danos duradouros à infraestrutura ou repercussões regionais mais amplas, o banco suíço projeta que os preços do petróleo poderiam se aproximar de US$ 150 por barril, em média, ao longo de nove meses. Isso provavelmente desencadearia outra alta da inflação, gerando ampla destruição da demanda e riscos de recessão.

De acordo com o estudo, tal resultado “estagflacionário” seria uma reminiscência de choques do petróleo do passado, como o da Primeira Guerra do Golfo. Neste caso, os mercados de ações sofreriam uma pressão significativa. “No entanto, a busca por segurança favoreceria amplamente rendimentos fixos de alta qualidade, já que os riscos ao crescimento econômico reduziriam os rendimentos e também sustentariam os preços do ouro.”

Otimismo alinhado

A perspectiva otimista do estudo, alinhada com o recente comportamento altista do mercado financeiro americano, chama a atenção num momento em que não há expectativa de desfecho do conflito no curtíssimo prazo.

Nesta semana, por exemplo, ações estão em alta devido à esperança de que a guerra com o Irã diminua e aos sinais de que os americanos continuam gastando, apesar do aumento dos preços da gasolina e da deterioração do sentimento do mercado. Levantamento do governo americano divulgado na quarta, 15, mostrou que os preços no atacado subiram menos do que o esperado em março.

O grande fator que sustenta o otimismo do mercado americano, porém, atende pelo nome de Donald Trump.

Os investidores continuam apostando que o mercado de ações é o eleitorado mais importante para o presidente americano – e o segmento acredita que Trump tende sempre a reverter decisões polêmicas quando elas parecem derrubar as ações, comportamento que rendeu ao presidente americano o apelido de TACO (iniciais da expressão em inglês “Trump sempre amarela”, em tradução livre).

"Havia muito dinheiro a ser ganho se você estivesse disposto a apostar que Trump não toleraria dor no mercado", afirma Hardika Singh, estrategista econômica da Fundstrat.

“Os investidores não deveriam enfrentar a Casa Branca, porque não vão ganhar”, observa ela, depois que o presidente americano disse à Fox Business que, quando a guerra acabar, o “mercado de ações vai disparar; aliás, ele já está disparando.”