Estamos viciados em tecnologia. E daí?

Temos que confessar: ver um post cheio de likes é bem legal. O que isso significa? As pesquisas, tanto as que mostram os lados positivos, quanto os negativos, representam a mesma situação: não sabemos ainda analisar os comportamentos atuais

0
54
Leia em 7 min

No fim de 2017, li o instigante livro “Irresistible: the Rise of Addictive Technology and the Business of Keeping us Hooked”, de Adam Alter. Esse ano, reli alguns dos pontos que marquei como importantes e quero compartilhar com vocês.

A ideia básica do livro é que o mundo hiperconectado, com tecnologias “viciantes”, nos atrai mais e mais, com o “vício” comportamental gerando efeitos viciantes similares a de vícios como cocaína.

Na verdade, as tecnologias “viciantes”, como a combinação de redes sociais e smartphones, pela facilidade de uso, nos mantém o todo tempo fisgados e querendo mais. Algumas estatísticas comprovam que estamos cada vez mais conectados pelos smartphones, que já estão incorporados naturalmente ao nosso cotidiano.

Não saímos de casa sem o smartphone. Alguns pesquisadores já começam a usar o termo “nomophobia”, abreviação de “no-mobile-phobia” para o medo das pessoas ficarem desconectadas, sem acesso ao smartphone.

Claro que o smartphone é usado para nossas atividades profissionais, pessoais e lazer. Usar mais ou menos de 3 ou 4 horas por dia não significa necessariamente estar certo ou errado. Não temos ainda parâmetros adequados para medir qual deveria ser o tempo ideal, se é que existe esse tempo ideal.

Estamos vivendo uma época de transição, com esgotamento dos paradigmas atuais, com descontinuidades radicais e rupturas estruturais, e, portanto, medir o comportamento que adotamos hoje pelas métricas anteriores não é adequado. Nos anos 1960, media-se o tempo das crianças vendo TV. Hoje, pelo uso dos smartphones. E amanhã?

Confesso que o livro me instigou e estudei um pouco mais o assunto. Sim, indiscutivelmente que temos o lado positivo das tecnologias. Mas, por que Steve Jobs (1955-2011) disse em entrevista ao The New York Times que não deixava seus filhos usarem com frequência o iPad? E ele foi claro: “Limitamos quanta tecnologia nossos filhos usam em casa”, declarou ele.

O ex-diretor da revista Wired e autor de diversos livros fantásticos como “A cauda longa”, Chris Anderson, também limita o uso de smartphones e tablets em casa. Evan Williams, fundador do Twitter, Blogger e Medium, se recusava a dar aos seus filhos um tablet. Deve haver alguma razão para isso.

As tecnologias que temos hoje são “viciantes” pelo fato que se oferecem facilmente. O Instagram e o Facebook não tem fim. Sempre tem um feed ou hashtag a mais. O Netflix automaticamente nos leva ao próximo episódio de qualquer série. A Amazon nos oferece livros que queremos ou achamos que queremos, com uma compra de apenas um clique. Ou uma assinatura de leitura quase infinita a custos mensais baixíssimos.

O comportamento “viciante” é ativado pela gratificação quase instantânea do nosso desejo de busca

Sim, são tecnologias irresistíveis! O comportamento “viciante” é ativado pela gratificação quase instantânea do nosso desejo de busca. Quer falar com alguém imediatamente? Então, envia-se uma mensagem pelo WhatsApp e ele é respondido em segundos. Quer procurar alguma informação? Digite o termo no Google. Quer saber o que os seus amigos estão fazendo? Uma olhada rápida no Facebook, Instagram ou Snapchat.

Mas, temos que confessar: ver um post cheio de likes é bem legal. Essa sensação não vem à toa. Quando recebemos uma curtida, nosso cérebro gera uma descarga de dopamina, o mesmo neurotransmissor produzido quando comemos chocolate, fazemos sexo ou ganhamos dinheiro.

Na prática, Facebook, Instagram e Snapchat nos dão prazer. E, ao que parece, estamos ficando “viciados”. Entramos num ciclo induzido de dopamina. A dopamina nos impele a buscar prazer, então somos recompensados pelo resultado, o que nos faz buscar mais e mais. Torna-se cada vez mais difícil parar de verificar o e-mail, olhar o feed do Facebook, as fotos no Instagram e checar nosso WhatsApp para ver se temos uma nova mensagem.

Alguns estudos, como um efetuado na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e publicado em maio de 2016 na revista Psychological Science, “The Power of the Like in Adolescence: Effects of Peer Influence on Neural and Behavioral Responses to Social Media”, mostrou que o cérebro de adolescentes fica exultante com likes.

Trinta e dois voluntários de 13 a 18 anos participaram de um experimento baseado no Instagram. Foram expostos via telas de computador a 148 fotografias, das quais 40 eram deles mesmos. Ao lado de cada imagem, havia o número de curtidas dadas pelos outros jovens. Na verdade, a quantidade foi designada pelos pesquisadores.

Os cientistas notaram que a parte do circuito de recompensa do cérebro era ativado toda vez que os adolescentes visualizavam suas próprias fotos com muitos likes. Feedbacks positivos também os deixavam felizes.

Já em 2013, um estudo da Universidade Livre de Berlim também descobriu que ganhar likes no Facebook ativa esse mesmo sistema. Cada ”like” que recebemos provoca uma liberação de dopamina, como as que temos ao comer e fazer sexo. Por isso, o Facebook é tão irresistível. Mais recentemente, diversos estudos têm analisado o impacto do Snapchat, como “Negative Effects of Snapchat for Teens” ou “Caution: Your Tween May be Stressing Over Snap Streaks”.

Talvez nem tudo seja perfeito. Alguns estudos, por outro lado, estão mostrando que o uso frequente do Facebook pode produzir alterações físicas no cérebro. Segundo esses estudos, quando estamos nele, ficamos mais impulsivos, mais narcisistas, mais desatentos e menos preocupados com os sentimentos dos outros. E, de quebra, mais infelizes.

Em um estudo de 2013, “Facebook Use Predicts Declines in Subjective Well-Being in Young Adults”, pesquisadores das universidades de Michigan e de Leuven (Bélgica) recrutaram 82 usuários do Facebook. Durante duas semanas, eles enviaram perguntas via SMS, cinco vezes por dia, para os voluntários. As perguntas eram ”como você está se sentindo agora?”, ”como você avalia a sua vida?” e ”quanto tempo você ficou no Facebook hoje?”.

O estudo mostrou uma relação direta: quanto mais tempo a pessoa passava na rede social, mais infeliz ficava. Os cientistas não souberam explicar o porquê, mas uma de suas hipóteses é a chamada inveja subliminar, que surge sem que a gente perceba conscientemente.

Pouco se debate sobre os benefícios no uso das redes sociais. Mas isso é normal, quando a mudança pelo qual passamos não é linear, mas exponencial, disruptiva, e, muitas vezes, caótica

O que deduzimos de tudo isso? Pouca coisa. Temos dificuldade em explicar e compreender os novos paradigmas e modelos comportamentais. Na verdade, de maneira geral, destacam-se mais nas mídias os males possíveis das novas tecnologias que os seus benefícios.

Fala-se mais de um eventual déficit de atenção e baixo rendimento escolar de crianças e adolescentes usando tecnologias do que os possíveis ganhos em habilidades motoras, aprendizado, rapidez de raciocínio, capacidade crítica e pensamento estratégico.

Pouco se debate sobre os benefícios no uso das redes sociais, como o estudo “Social media use can be positive for mental health and well-being”. Mas isso é normal, quando a mudança pelo qual passamos não é linear, mas exponencial, disruptiva, e, muitas vezes, caótica.

O que já compreendemos é que o comportamento passado não representa o comportamento futuro. Como nossas previsões são lineares, acreditamos que o futuro será um simples e ampliado desdobramento do passado, que conhecemos e vivemos. Mas não será assim.

O próprio presente já é diferente do passado recente. E a única coisa que sabemos com certeza sobre o futuro é que ele será diferente do presente.

Em 2007, nascia o iPhone. Há 11 anos, surgia o tablet. Em breve, a realidade aumentada fará parte de nosso cotidiano. O futuro próximo, na escala de poucos anos, simplesmente já se torna imprevisível. A pandemia mostrou que o que se imaginava que fosse acontecer em três a cinco anos, aconteceu em semanas.

As pesquisas, tanto as que mostram os lados positivos, quanto os negativos, representam a mesma situação: não sabemos analisar os comportamentos atuais, pois os analisamos e os interpretamos pela ótica do presente e passado recente. E não pela ótica de como serão ou já estão sendo sinalizados os novos padrões comportamentais. Instigante e desafiador, não? Pois é, esse é o futuro que já está batendo à nossa porta.

Cezar Taurion é VP de Inovação da CiaTécnica Consulting, e Partner/Head de Digital Transformation da Kick Corporate Ventures. Membro do conselho de inovação de diversas empresas e mentor e investidor em startups de IA. É autor de nove livros que abordam assuntos como Transformação Digital, Inovação, Big Data e Tecnologias Emergentes. Professor convidado da Fundação Dom Cabral, PUC-RJ e PUC-RS.

Leia também