“Bunda de mulata” e “judeu errante”: exposição revela a tirania na ciência botânica

No Museu Judaico, a artista Giselle Beiguelman critica a naturalização de preconceitos escondidos nos nomes científicos e populares das plantas e cria sua própria flora por meio da inteligência artificial

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Fotografias da série “Flora mutandis”

Bunda de mulata, judeu errante, cabeça de negro, maria sem vergonha. Já parou para avaliar o componente racista e sexista que os nomes populares de algumas plantas guardam?

A artista Giselle Beiguelman ficou desconcertada ao pedir uma muda de uma espécie a um amigo e ele responder que ela se chamava judeu errante. A lenda do Judeu Errante foi muito explorada pelos nazistas para desqualificar o povo judaico, criando a falsa narrativa de que eles eram agentes parasitas de uma conspiração nacional para dominar o mundo.

“Ativou um gatilho traumático em mim que despertaria em qualquer judeu”, diz artista de origem judaico-polonesa ao NeoFeed. “É uma história de preconceitos que vem se atualizando desde a Idade Média. A lenda do judeu errante foi um dos pilares da propaganda nazista.”

Beiguelman se debruçou na pesquisa sobre os nomes das plantas durante um ano e meio e apresenta agora o resultado na mostra “Botannica Tirannica”, em cartaz no Museu Judaico (MUJ), em São Paulo. Essa é a primeira grande exposição da instituição em 2022, que desde o planejamento, levou 20 anos até sua inauguração no ano passado.

Ocupando a antiga sede da Congregação Israelita Templo Beth-El, no bairro da Bela Vista – tombada pelo Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (CONPRESP), o museu tem quatro andares expositivos. Além de uma biblioteca com mais de mil livros para consulta e um café que serve comidas judaicas.

Além de promover e preservar a cultura judaica, a instituição se preocupa em apresentar em sua programação temas relevantes atualmente na sociedade. Para isso, conta com uma série de apoios como do Instituto Cultural Vale, Instituto CCR, Família Minev, Sotreq, Fundação Arymax, Dexco e Alfa Seguros.

Segundo Felipe Arruda, diretor executivo do MUJ, os temas abordados na mostra “Botannica Tirannica”, como preconceito, intolerância e resiliência, são tanto atuais na sociedade quanto centrais na história do judaísmo.

“A abordagem dessas temáticas pela produção artística contemporânea é um dos eixos basilares do Museu Judaico de São Paulo, por isso a honra de expor a produção atual de uma artista com quase três décadas de uma inquieta atuação nas artes e na academia”, afirma.

Preconceitos em latim

Engana-se quem pensa que o preconceito está apenas no termo popular. Termos científicos em que se usa o latim também reproduzem a mesma lógica. “Isso foi muito chocante pra mim: quando eu cheguei na nomenclatura científica e vi muitas plantas com o nome kaffir, um termo considerado ofensivo na África Subsaariana, que seria como nigger, em inglês, expressão racista que não se usa mais”, explica Beiguelman.

A artista Giselle Beiguelman: “O meu objetivo foi usar uma tecnologia que trabalha com padrões para desconstruir o processo de padronização, que é a base de qualquer preconceito.”

A artista classificou os nomes encontrados com teor preconceituoso nas categorias: antissemitas, machistas, racistas e discriminatórios em relação a indígenas e ciganos (uma palavra contestada por associar grupos como roma e sinti a trapaça e roubo).

Com essa organização, montou um banco de dados e um sistema de inteligência artificial para criar imagens de plantas novas não a partir de suas semelhanças físicas, mas do preconceito embutido em seus nomes.

“O meu objetivo foi usar uma tecnologia que trabalha com padrões para desconstruir o processo de padronização, que é a base de qualquer preconceito. Uma engenharia reversa filosófica”, reforça a artista. O resultado está na série de fotografias “Flora mutandis”.

De acordo com a curadora da mostra, Ilana Feldman, a exposição desnaturaliza o natural. “A ideia de natureza é uma construção histórica. A desnaturalização permite um recuo crítico. Com essa distância, podemos refletir sobre esses rituais de apagamento, de preconceito, mas também contemplar a beleza”, afirma Feldman. “Os trabalhos têm um lado inventivo. Ela inventa uma natureza, inventa espécies que não existem. Nisso, a mostra é muito bonita.”

O que não pode ser esquecido
Beiguelman é formada em história e doutora em história social pela Universidade de São Paulo – fato que talvez justifique o trabalho de investigação e interesse em questionar parâmetros já estabelecidos histórica e cientificamente. Ela se entende como artista-historiadora, que tenta criar um mundo próprio a partir da organização de fragmentos de acontecimentos e da realidade.

Um tema recorrente em seus trabalhos é a visão crítica de ações que chama de “políticas de esquecimento”. Em “Tirannica Botannica”, a crítica aos nomes científicos com os quais as plantas são batizadas não se refere apenas às suas raízes antissemitas, racistas e sexistas, mas também às violências coloniais. Segundo a artista, ao trocar os nomes que os povos originários de uma região deram às plantas, “apaga-se a memória e todas as marcas culturais de um território”.

As pinturas, compostas a partir da estética naturalista e científica dos desenhos botânicos, retratam jardins imaginários, com iluminação de LED e ares de laboratório

Um exemplo é o Jatobá, uma planta sagrada dos povos originários do Brasil, que em tupi significa “árvore com frutos duros”. Mas foi nomeada cientificamente em latim como Hymenaea courbaril, termo que tem ligação direta com o hímen feminino. Segundo Beiguelman, na mente colonialista a nomenclatura pode ser lida como “algo que você vai romper para tirar o seu fruto”.

“O apagamento está muito presente, mas a resiliência cultural também. No Brasil, paradoxalmente, apesar disso ter sido um processo inequívoco, muitos nomes indígenas foram preservados na cultura popular e continuam circulando”, ressalta. “Essa característica da resiliência atravessa todas as formas de opressão. A opressão nunca consegue dominar 100%.”

Na exposição, a artista dá espaço às plantas que um dia foram chamadas de “ervas daninhas” – hoje classificadas como espontâneas –, na instalação “Jardim da resiliência”. Essas espécies costumam ser altamente resistentes e nascem em plantações, jardins ou qualquer lugar não destinado a elas, “roubando” nutrientes de plantas com fins econômicos ou estéticos. Por isso, acabam sendo arrancadas e mortas.

Segundo a curadora, essa é uma mentalidade eugenista da botânica, em que as espécies consideradas nobres para aquela plantação merecem viver e as outras, as daninhas, devem ser extirpadas. Para o criador do termo “eugenia”, Francis Galton, o cultivo de uma sociedade seria como o de um jardim, em que as plantas improdutivas, as chamadas ervas daninhas, deveriam ser diferenciadas das plantas úteis e eliminadas. O conceito foi explorado pelo nazismo.

A convite de Beiguelman, Gabriel Francisco Lemos fez uma paisagem sonora que, assim como as plantas criadas por artistas, é composta por combinações algorítmicas que mudam com o tempo. O artista Ricardo van Steen pintou sete aquarelas inéditas.

As pinturas, compostas a partir da estética naturalista e científica dos desenhos botânicos, retratam jardins imaginários dos grupos pesquisados por Beiguelman, que dão um tom poético ao jardim formado por tanques de acrílico iluminados por luzes de led com ares de laboratório botânico.

“A riqueza da exposição está nesse híbrido: crítico e criador, gesto político e poético”, diz a curadora. “Não é uma denúncia. É uma exposição de arte contemporânea que parte de um jardim. E talvez isso deixe as pessoas desestabilizadas.”

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