Inspirado em uma caixa de vinho completa, onde se encontram apenas 12 garrafas, um clube exclusivo de vinícolas familiares está batalhando para manter seu círculo “íntimo”, de 12 vinícolas espalhadas pela Europa, intacto.

Com 2.800 anos de experiência em viticultura através de 85 gerações, o petit comité chamado Primum Familiae Vini (PFV) foi fundado em 1991 e tem apenas uma intenção: criar um modelo de negócio perene, capaz de atravessar gerações ao unir exigência, inovação e responsabilidade.

Tudo isso por meio da troca de experiências e informações entre os integrantes. O petit comité é composto pelos donos das vinícolas Egon Müller Scharzhof, da Alemanha; Baron Philippe de Rothschild, Domaine Clarence Dillon, Hugel Family, Famille Perrin, Maison Joseph Drouhin Champagne Pol Roger, da França; Familia Torres e Tempos Vega Sicilia, da Espanha; Marchesi Antinori e Tenuta San Guido, da Itália e Symington, de Portugal.

Os desafios, porém, são muitos. Eles vão desde manter essas propriedades efetivamente nas mãos das famílias, algo que tem se tornado cada vez mais complexo com a globalização e o crescimento dos grandes grupos como LVMH e Pernod Ricard, até os dilemas de mudanças climáticas e avanços tecnológicos.

“Desde a Covid-19, percebemos que o principal ativo que temos é sermos uma empresa familiar, sabe? E não somos, como algumas pessoas imaginam, ‘dinossauros’, parados no tempo”, afirma Christophe Brunet, secretário-geral da Primum Familiae Vini, ao NeoFeed.

“Ao contrário, estamos sempre investindo muito dinheiro em pesquisa e desenvolvimento, porque sabemos exatamente o que é passar por crises, guerras e sair vivos dessa”, complementa.

O empresário, que ocupa a cadeira de administração no grupo há 16 anos, tem uma bagagem pessoal ligada a enogastronomia. Francês, ele viu seus pais trabalhando duro em seu restaurante próprio durante toda a infância e sabia que queria seguir carreira em algo relacionado ao ramo. Aos 18 anos, encontrou seu amor pelo vinho e decidiu que trabalharia com a bebida - virou sommelier.

De lá para cá, passou por locais como o famoso restaurante parisiense La Tour d’Argent, que já completa mais de 440 anos, além de ocupar um posto no restaurante do chef três estrelas Michelin Alain Ducasse. Em seguida, passou seis anos em Londres, antes de sair para um ano sabático, em 1994, para conhecer a fundo o mundo do vinho fora da Europa. Em pouco tempo, se apaixonou pela PFV.

Com toda sua experiência, o empresário conta, na entrevista que você lê a seguir, sobre os próximos passos da associação, os desafios a serem enfrentados e as conquistas atingidas ao longo de 35 anos.

Como foi criado o Primum Familiae Vini?
No verão de 1991, Miguel Torres, da vinícola Família Torres, foi à Borgonha para se encontrar com Robert Drouhin, da Joseph Drouhin. Eles estavam discutindo várias questões familiares importantes e, dessa conversa, surgiu a decisão de construir o que hoje é a PFV, embora o projeto tenha evoluído ao longo do tempo.

O que aconteceu?
Logo após esse encontro, eles entraram em contato com outras famílias. Tudo começou com a Antinori, na Itália, e com a Mouton Rothschild, em Bordeaux. Em 1993, foi oficialmente fundada a associação Primum Familiae Vini. Ela mudou ao longo dos anos, porque é necessário ser uma empresa 100% familiar para fazer parte. Hoje somos em 12 famílias, sendo seis da França, duas na Itália, duas da Espanha, uma de Portugal e uma da Alemanha. São 12 famílias que, juntas, representam cerca de 2.800 anos de história empresarial. Algumas delas já estão na 27ª geração.

Existe alguma outra associação no mundo que tenha a mesma característica?
Não existe nenhuma outra associação de vinhos como essa no mundo. Houve uma que foi criada na Nova Zelândia, mas ela acabou depois de dez anos porque não conseguiram coordená-la corretamente. É muito difícil, primeiro, mantê-la viva e fazer com que a associação realmente funcione e atue de forma conjunta, já que todas são empresas independentes, administradas de maneira muito eficiente. Posso dizer com segurança: eu mesmo administro essa associação há 16 anos e este é, sem dúvida, o nosso momento mais forte nos últimos 30 anos.

"Estamos investindo muito dinheiro em pesquisa e desenvolvimento e temos plena consciência disso porque também carregamos a experiência de guerras e de crises"

O fato do grupo ser formado por empresas familiares é uma vantagem competitiva?
Com certeza. Desde a Covid-19 percebemos que o principal ativo que temos é sermos uma empresa familiar, sabe? E não somos aquilo que às vezes as pessoas imaginam quando pensam em empresa familiar — um dinossauro. Não estamos simplesmente parados sobre o que já aprendemos ou sobre o que já temos. Ao contrário, estamos investindo muito dinheiro em pesquisa e desenvolvimento e temos plena consciência disso porque também carregamos a experiência de guerras e de crises. Imagine a Antinori, a Torres — todos eles passaram pela Primeira Guerra Mundial, pela Segunda Guerra Mundial e por muito mais do que isso. Então, é um verdadeiro privilégio compartilhar essa expertise entre nós, entre as 12 famílias.

E quais são os desafios de manter essas companhias dentro da família?
Hoje em dia, existem muitas coisas no mundo que vão contra as empresas familiares, especialmente quando se trata de transmitir a cultura. O mundo está mudando muito rápido, com todas as ferramentas que temos. Por isso, é fundamental garantir que a próxima geração comece desde muito jovem a desenvolver a capacidade de entender o que é uma empresa familiar, porque esse é um aspecto muito difícil no contexto atual. Há mais conhecimento disponível, sim, mas a questão central é essa transmissão.

Mas qual é a principal dificuldade?
Um dos principais desafios é conseguir transmitir o negócio integralmente para a próxima geração. Isso já era difícil no passado, mas acredito que hoje seja ainda mais complicado. E isso muda de país para país. Em alguns países, como a Espanha, em determinado momento o próprio governo acabou inviabilizando a transmissão dos negócios familiares. Observamos, por exemplo, que Itália e Japão têm muito mais empresas familiares que atravessaram gerações do que a Espanha ou muitos outros países. Então, nossa missão é entender por quê e como fazer essa transmissão de melhor forma.

As famílias que formam o PFV reunidas no encontro anual realizado em 2025 (Foto: Divulgação)

Em 1385, a família Antinori passou a fazer parte do negócio do vinho. Desde 1966, o Marchese Piero Antinori dirige a empresa ao lado de suas filhas, Albiera, Allegra e Alessia, que também desempenham um papel ativo

Fundada em 1935, a empresa familiar Domaine Clarence Dillon é hoje presidida e administrada pelo Príncipe Robert de Luxemburgo, bisneto de seu fundador

Jean-Jacques Koch, tataravô de Egon Müller, adquiriu a propriedade Scharzhof, na Alemanha, em 1797. A família vive em seus próprios vinhedos e supervisiona as operações diárias da propriedade

Sob o olhar de Marc Hugel, a 13ª geração, Marc-André e Jean-Frédéric, segue os passos de seus antepassados na vinícola Hugel, na França

A francesa família Perrin cultiva sua paixão pelo vinho desde 1909 e hoje a 5ª geração da família que cuida dos negócios

Com seus 93 hectares de vinhedos na Borgonha, a família da Maison Joseph Drouhin adotou práticas de cultivo biológicas e biodinâmicas, que os fazem ser reconhecidos

A Pol Roger pertence hoje à 5ª e à 6ª gerações da família. A maison foi fundada em 1849 e está localizada em Épernay, na França

Adquirido pelo Barão Nathaniel de Rothschild em 1853, o Château Mouton Rothschild, de Bordeaux, hoje é dirigido por Camille e Philippe Sereys de Rothschild e Julien de Beaumarchais, os herdeiros

Os Symington produzem vinho do Porto há cinco gerações, desde 1882. Hoje, eles são os maiores proprietários de vinhedos premium no Vale do Douro, além de proprietários de um vinhedo de alta qualidade no Alto Alentejo

Localizada na Toscana, a Tenuta San Guido pertence à família Della Gherardesca há mais de 1.200 anos

Viticultores desde o século XVI, a Família Torres fundou sua vinícola em Vilafranca del Penedès, na Espanha, em 1870. Hoje, a quinta geração se dedica à produção de vinhos a partir de vinhedos únicos e propriedades históricas localizadas em oito diferentes regiões vinícolas da Espanha

A Vega Sicilia foi fundada em 1864. Hoje, ela é conhecida por vinhos "nitidamente espanhóis"

Christophe Brunet, secretário-geral da Primum Familiae Vini há 16 anos, tem experiência de mais de 35 anos na área como sommelier e especialista em vinhos

Você sente que os mais jovens estão interessados nos negócios?
Isso é algo muito interessante. Fazemos uma reunião anual todos os anos, em julho, já há muitos e muitos anos. No começo, há cerca de 16 anos, havia 40 ou 50 pessoas. Hoje, às vezes somos 150, porque eles também trazem os filhos. Assim, as crianças convivem com outras crianças, sabe? E acabam perguntando coisas como: ‘ah, e como vocês fazem? Vejo que seus pais viajam muito, mas como eles trabalham, como tudo funciona?’ Isso ajuda muito a envolver também as crianças, a fazer com que compartilhem experiências entre si.

Quando se pensa em manter o negócio na família, a concorrência se torna um problema?
Com certeza. No nosso caso, no setor de vinhos, os vinhedos nos anos 1970 tinham um valor muito baixo. Ninguém queria investir em vinho naquela época, nem em Bordeaux nem na Borgonha. A terra praticamente não valia nada. Hoje, você vê bilionários como Bernard Arnault ou François Pinault, por exemplo, adquirindo propriedades como o Château Latour e o Château d'Yquem. Eles compram muitos negócios familiares que não conseguiram ser transmitidos. Esses grupos estão aí, à espera dessas oportunidades, e ficam muito satisfeitos, porque construíram seus impérios a partir da fragilidade das empresas familiares. E nós não queremos ser um grupo fechado de pessoas. Mas, dentro da PFV, entendemos isso: juntos, somos mais fortes, especialmente para trocar informações.

"Hoje, bilionários como Bernard Arnault ou François Pinault adquirem propriedades como o Château Latour e o Château d'Yquem. Eles compram muitos negócios familiares que não conseguiram ser transmitidos"

Falando de tradições, quais são mantidas até hoje?
Para nós, a questão é: o que conseguimos preservar daquilo que as pessoas fazem há muitos anos e o que precisa mudar? Como encontrar esse equilíbrio? Nos últimos anos, nós percebemos que a inteligência artificial pode, sim, nos ajudar, por exemplo, a compreender melhor os vinhedos e a entender melhor as mudanças climáticas, que são um fato. Mas também percebemos que a IA não será capaz de gerir a tradição nem o conhecimento acumulado ao longo dos anos.

O que se pode fazer?
Quando você olha para a maioria das famílias, elas têm no mínimo 100 anos de história; algumas chegam a 700 anos. Elas conhecem profundamente a terra, o terroir, e sabem exatamente como reagir a determinadas vinhas. Esse conhecimento é extremamente importante. Nós somos, de certa forma, guardiões dessa tradição. Hoje, de forma pragmática, o desafio é aplicar esse legado em conjunto com a IA e as tecnologias atuais.

Para você, entre crise climática, mudanças geracionais e falta de capital, qual é o maior desafio do momento da PFV?
A mudança climática é um dos maiores desafios do momento. Claro, é um tema que já vem sendo acompanhado por nós há cerca de 30 anos, mas, naquela época, os impactos estavam mais concentrados nos Pireneus, mas hoje a situação é muito mais grave, muito mais relevante. O grande desafio das mudanças climáticas é conseguir continuar produzindo grandes vinhos em regiões que estão ficando mais secas. Países como Portugal e, especialmente, a Espanha estão sendo fortemente afetados — nós vemos isso claramente. E não há nada melhor do que compartilhar experiências entre famílias de diferentes regiões. Agora, precisamos nos adaptar, talvez às castas, talvez à forma como cultivamos. E espero que, um dia, possamos comunicar melhor o que fazemos juntos, como PFV, em relação às mudanças climáticas, porque há discussões muito ricas acontecendo. Sem dúvida, esse é um dos principais temas para o futuro.

E as mudanças geracionais?
As mudanças geracionais também são uma questão. Sabemos que as pessoas estão cada vez mais preocupadas com saúde, com baixo teor alcoólico, e que o vinho não deve ser associado apenas ao álcool ou a grandes problemas. Também sabemos que o consumo de vinho está diminuindo. Mas eu tenho muita esperança de que o consumidor jovem fará escolhas mais conscientes, ao entender melhor o produto e quem está por trás dele.

"Sabemos que as pessoas estão cada vez mais preocupadas com saúde, com baixo teor alcoólico, e que o vinho não deve ser associado apenas ao álcool ou a grandes problemas"

Há uma visão diferente dos vinhos ao ver que eles fazem parte do PFV?
Essa questão é muito relevante, porque hoje algumas das famílias já colocam nosso pequeno logotipo no rótulo traseiro das garrafas. Fazemos isso há muitos, muitos anos, mas PFV ainda não é muito conhecida — ainda não é uma marca —, mas estamos trabalhando nisso.

De que maneira?
Acreditamos que ‘Primum Familiae’ — o termo primum — significa, antes de tudo, família. Não significa necessariamente ser o primeiro; significa, acima de tudo, que somos uma família. E acreditamos que esse pequeno logotipo pode se tornar algo forte no futuro. As pessoas poderiam dizer: ‘ah, este é um vinho da PFV, da Primum Familiae Vini. Eu conheço essa associação, sei o padrão de qualidade do trabalho que eles fazem’. É isso que estamos construindo. Gostaríamos muito que, em 10 ou 15 anos, globalmente, as pessoas dissessem: ‘uau, vinhos da Primum Familiae Vini, eles trabalham juntos, trabalham com qualidade, e isso é um grande ativo’. Eu diria que hoje ainda não chegamos lá, mas estamos construindo isso.

E qual é o futuro da PFV?
Sinceramente, o futuro é muito promissor. Quero dizer, eu mesmo tenho 56 anos. Trabalho no mundo do vinho desde os 18. Foram 15 anos de verões dedicados a isso. Então eu vi muita coisa e sei que provavelmente não estarei aqui quando a PFV for ainda mais forte, mas acredito que estamos vivendo um dos nossos melhores momentos em termos de futuro. Uma organização como a nossa, uma entidade familiar como a PFV, tem um futuro brilhante, mas precisa ser muito cuidadosa. As famílias precisam conversar entre si, compartilhar informações e também ser muito abertas com as pessoas. Lembro que, há 20 anos, talvez as pessoas achassem que a PFV era algo muito fechado, muito voltado para reuniões internas. Hoje, fazemos muitas coisas para fora, para que as pessoas também entendam quem somos.

E como vocês fazem isso?
Temos um ótimo exemplo. Estamos organizando um evento no dia 10 de fevereiro, para o qual convidamos cerca de 350 pessoas, com o objetivo de mostrar o que a PFV é hoje. Porque o DNA da PFV atualmente passa por um prêmio — o Prêmio PFV — que concedemos a cada dois anos a uma empresa no mundo, fora do universo do vinho. O prêmio consiste em € 100 mil destinados a uma empresa artesanal familiar. Trata-se sempre de uma família que compartilha os mesmos valores que acreditamos que uma empresa familiar deva ter. É uma iniciativa que estamos construindo há seis anos e que ainda reserva surpresas.

Quais foram as última surpresas?
Até agora, já tivemos três vencedores: um da Bélgica, outro da França e o mais recente do Japão. Além disso, nos próximos meses, teremos muitos eventos para fortalecer a nossa marca. Em março, estaremos na Ásia — em Singapura, Hong Kong e Tóquio. Em fevereiro, estarei em Estocolmo e Munique. Vamos fazer um evento na Austrália, em Sydney; no México; em Londres… Ou seja, muitas, muitas coisas acontecendo este ano.