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Inovação

Como o open banking pode revolucionar o sistema financeiro

Prestes a ser implantado no Brasil, o conceito promete dar mais poder de escolha aos consumidores e intensificar a concorrência para os bancos tradicionais

 

Em diferentes segmentos da economia, a tendência é cada vez mais clara. Sob uma avalanche de aplicativos e modelos de negócios digitais, os consumidores estão ganhando poder de escolha. E, nesse contexto, empresas tradicionais passam a dividir espaço com novos protagonistas. Quanto maior a oferta, menor a fidelidade a uma marca, produto ou serviço.

Há setores, no entanto, que ainda resistem a essa transformação. No Brasil, sob um cenário da pesada regulação, os grandes bancos talvez sejam o maior exemplo dessa corrente. Bradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica foram responsáveis por 81,2% das operações bancárias no País em 2018, segundo o Banco Central.

O panorama de alta concentração, porém, está prestes a passar por uma profunda reformulação. E o vetor dessa mudança se traduz em duas simples palavras: open banking. Esse conceito define o compartilhamento de informações, produtos e serviços entre as instituições financeiras.

O open banking estabelece a abertura dos dados de clientes, antes guardados a sete chaves por uma única instituição, a outras empresas. Esse escopo pode incluir bancos digitais, fintechs e mesmo as companhias de outros segmentos dispostas a oferecer serviços financeiros.

Há, no entanto, um princípio fundamental que permeia toda e qualquer aplicação desse conceito. O usuário é quem permite quais dados está disposto a compartilhar nesse processo.

João André Pereira, chefe do departamento de regulação do sistema financeiro do Banco Central

“O cliente, e não mais o banco, passa a ser o dono da informação. E decide como usar esse recurso da forma que lhe for mais conveniente”, afirma João André Pereira, chefe do departamento de regulação do sistema financeiro do Banco Central. “No limite, ele pode abrir toda a sua vida financeira.”

Um estudo recente divulgado pela consultoria americana Accenture mostra que seis em cada dez consumidores no mundo estariam dispostos a dividir dados pessoais com seus bancos em troca de produtos e serviços mais baratos e personalizados. Entre os participantes, 81% topariam compartilhar essas informações para a aprovação rápida de empréstimos.

O estudo abrangeu 47 mil pessoas, em 28 países, incluindo dois mil brasileiros. No País, 67% dos entrevistados esperam que seus dados sejam usados pelos bancos para antecipar necessidades e recomendar produtos e serviços. A média global foi de 48%.

Esse novo ambiente abre caminho para a criação de uma série de serviços. Uma fintech, por exemplo, pode acessar às transações do cliente de um determinado banco e oferecer uma solução de controle de gastos, de acordo com o seu perfil de consumo.

Outra frente são as análises para a concessão de um empréstimo. O consumidor passa a ter mais condições de buscar taxas menores junto a diferentes fontes. Na prática, outras empresas passam a ter acesso ao seu histórico financeiro para precificar o risco e estabelecer juros mais condizentes com o seu perfil.

Estudo Accenture mostra que seis em cada dez consumidores no mundo estariam dispostos a dividir dados pessoais com seus bancos

Dentro da ótica do open banking, já existem iniciativas em outros países onde uma empresa monitora as movimentações na conta do correntista de um banco específico. E oferece um empréstimo com taxas mais atrativas do que as tarifas que ele irá pagar caso entre no cheque especial.

Esse novo ambiente passa, necessariamente, por plataformas nas quais as APIs – como são chamados os padrões de programação para o desenvolvimento de aplicativos e ofertas digitais – sejam abertas. Traduzindo, é necessário que os sistemas de cada elo dessa cadeia se conversem para que terceiros desenvolvam aplicações em torno dos dados, produtos e serviços de uma instituição.

Agenda digital

Em linha com essas promessas, o open banking está na ordem do dia em mercados como Austrália, Hong Kong, Cingapura e Europa. Com um projeto em andamento desde setembro de 2015, o Reino Unido é a maior referência nessa vertente.

O open banking está na ordem do dia em mercados como Austrália, Hong Kong, Cingapura e Europa

No Brasil, o conceito entrou oficialmente em discussão em abril, quando o Banco Central emitiu um comunicado estabelecendo as diretrizes iniciais para a adoção desse modelo. A instituição prevê a realização de uma consulta pública em novembro. E programa iniciar a implantação no segundo semestre de 2020.

A iniciativa dá sequência à agenda digital que vem ditando as estratégias mais recentes do Banco Central. O documento define como um dos objetivos do open banking promover um “ambiente de negócio mais inclusivo e competitivo”. E estabelece que as instituições financeiras de maior porte, classificadas como S1 e S2, serão obrigadas a aderir desde a primeira etapa de implementação.

Dividido em quatro fases de implantação, o cronograma envolve as seguintes etapas de compartilhamento: informações de produtos e serviços ofertados; cadastros dos clientes; dados transacionais dos correntistas; e serviços de pagamentos.

Uma série de fatores ajuda a explicar o debate sobre o open banking no mercado brasileiro. A evolução tecnológica é um deles. Assim como as mudanças no perfil dos consumidores. “A nova geração tem uma visão diferente dos serviços financeiros”, diz Ana Carla Abrão, chefe da consultoria Oliver Wyman no Brasil.

Ela credita essa mudança à relação dos consumidores com as grandes empresas de tecnologia. “Hoje, o cliente está acostumado a entrar na Amazon e ter uma oferta que faz sentido especificamente para ele. As demandas são melhor atendidas que no passado.”

O avanço dos modelos de negócios compartilhados são mais um componente. “É inevitável que isso se reflita no sistema financeiro”, afirma Pereira, do Banco Central. Para o executivo, outro elemento favorável é a Lei Geral de Proteção de Dados, sancionada em agosto do ano passado. “Ao passar a titularidade dos dados ao usuário, a lei criou o arcabouço legal necessário para o open banking.”

Impactos

Para as fontes consultadas pelo NeoFeed, o open banking tem o potencial de gerar uma revolução no sistema financeiro. “O mercado pode virar de cabeça para baixo”, diz Raul Moreira, diretor-executivo de tecnologia e produtos do Banco Original. Ele entende que um dos reflexos será o reequilíbrio das forças no setor. “Tenho a convicção que em dez anos, dois bancos digitais estarão entre as cinco principais empresas nesse mercado.”

Na visão do executivo, ao reduzir as barreiras de entradas para novos competidores, o modelo vai alimentar o surgimento de diversos ecossistemas financeiros e digitais.

“O mercado pode virar de cabeça para baixo”, diz Raul Moreira, do Banco Original

Na prática, o consumidor passará a ter acesso a marketplaces de serviços financeiros, com um amplo leque de produtos e serviços à disposição. Ao mesmo tempo, ele conseguirá visualizar, gerenciar e efetivar transações em uma única plataforma, sem que precise, necessariamente, acessar o aplicativo do seu banco.

Os especialistas destacam que o aumento da concorrência, expresso no volume maior de ofertas, tende a gerar, naturalmente, maior competitividade nas taxas. E, por consequência, a redução dos custos de aquisição para os consumidores.

A Accenture dá a medida dos impactos que esse novo ambiente pode trazer aos grandes bancos. Em um prazo de três a quatro anos de implantação do open banking, a empresa estima, por exemplo, uma queda de 25% a 30% nas receitas obtidas com algumas linhas de negócio.

As margens mais apertadas e o risco de perder faturamento e clientes, somadas à entrada de mais concorrentes, devem estimular o desenvolvimento de ofertas mais inovadoras.

“Os bancos não vão mais controlar as decisões do cliente”, diz Frederico Succi, diretor da Accenture. “Para emplacar suas ofertas nesse universo mais amplo, todos terão que desenvolver produtos e serviços mais inteligentes e adequados às novas exigências dos consumidores.”

A busca por parcerias vai ser um dos nortes para se adaptar a essa nova realidade. De um lado, fintechs e outros participantes terão uma gama de dados à mão para criar produtos mais assertivos e completos dentro de suas especialidades. Já os grandes bancos terão a possibilidade de acoplar ao seu portfólio soluções que, internamente, demandariam mais tempo para desenvolver.

Para os analistas, o novo contexto exige uma mudança de postura das instituições que hoje detêm a exclusividade de boa parte das informações e das relações com os clientes. Em alguns momentos, valerá abrir mão desse protagonismo para exercer um papel secundário, como provedor da infraestrutura por trás desse ecossistema. “Eles terão que ser mais flexíveis e ágeis para se manterem no jogo”, afirma Ana Carla, da Oliver Wyman.

“Quem souber olhar isso como uma oportunidade e abraçar o conceito, vai largar na frente e ter uma vantagem competitiva”, diz um executivo do setor. “Já quem resistir, corre o risco de perder espaço e ficar pelo caminho.”

Já existem instituições que estão começando a colocar essa estratégia em prática. É o caso do Banco do Brasil, que compartilha dados com fintechs parceiras, como a Conta Azul. O Banco Original segue a mesma linha com startups como a PicPay e o GuiaBolso. E a instituição tem outros seis projetos similares em negociação.

Desafios

À parte dos benefícios e mudanças potenciais, será preciso lidar com alguns aspectos para que esse modelo seja consolidado. “O principal desafio é a adaptação dos sistemas legados dos grandes bancos a esse novo formato. Esse é um processo que vai exigir um investimento pesado por parte dessas instituições”, diz Pereira, do Banco Central.

“O principal desafio é a adaptação dos sistemas legados dos grandes bancos a esse novo formato”, diz Pereira, do Banco Central.

Essa quantia elevada, somada aos aportes já realizados para captar e manter suas bases de dados atuais de clientes, traz um outro questionamento: como chegar a um modelo de negócios que remunere os grandes bancos por esse compartilhamento e que, ao mesmo tempo, não limite o acesso de novos participantes.

Existe ainda um componente técnico a ser pensando nesse pacote. O aumento substancial dos acessos pode sobrecarregar as infraestruturas tecnológicas. “Pode causar um problema na instituição que está acessando”, afirmou Octavio de Lazari Junior, presidente do Bradesco, em entrevista concedida ao NeoFeed. “Se o Bradesco quiser acessar o dado de alguma outra instituição ou de outra fintech, ou se uma fintech quiser acessar os dados do Bradesco, acredito que deveria ter uma tarifa para isso.”

“Se o Bradesco quiser acessar o dado de alguma fintech, ou se uma fintech quiser acessar os dados do Bradesco, acredito que deveria ter uma tarifa para isso”, diz Octavio de Lazari Junior, do Bradesco

Com o aumento da troca de informações entre diferentes atores, o risco de vazamento de dados é também um ponto polêmico. O uso de ferramentas de rastreabilidade e a definição precisa da responsabilidade de cada parte no caso de um incidente são elementos que devem aquecer e prolongar o debate.

“A definição de um padrão tecnológico mínimo que garanta que o sistema vai funcionar e gerar eficiência na ponta também é essencial”, diz Ana Carla, da Oliver Wyman. “Na prática, a experiência do consumidor tem que ser fluída, rápida. Do contrário, ele não irá abraçar esse modelo.”

Diante de tantos interesses conflitantes dos diversos elos envolvidos nessa cadeia, o Banco Central já deixou claro qual será a sua postura na implantação do open banking. “Nosso primeiro papel foi colocar o conceito na praça. O open banking é inevitável, mas sem a nossa intervenção, demoraria muito para se materializar”, afirma Pereira.

O executivo entende que a função da instituição é estabelecer a estrutura, os parâmetros e as responsabilidades de cada parte. A partir dessas diretrizes, ele defende a autorregulação do mercado. “Vamos deixar os players se acertarem”, diz Pereira. “Mas será uma autorregulação dirigida. Iremos atuar como árbitros e teremos papel ativo se identificarmos qualquer dificuldade ou barreira à implantação desse conceito no Brasil.”

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