Newsletter

Receba notícias do NeoFeed no seu e-mail

 
Li, compreendi e concordo com os Termos de Uso e Política de Privacidade
do site.
 
 

Negócios

As várias frentes de batalha do presidente do Bradesco

Em entrevista exclusiva ao NeoFeed, Octavio de Lazari Junior fala sobre a competição com as fintechs, guerra das maquininhas, plataformas de investimentos, a separação do banco Next e do baixo crescimento da economia

 

Octavio de Lazari Junior, presidente do Bradesco

Recentemente, o Bradesco, um colosso com 71 milhões de clientes e ativos de R$ 1,4 trilhão, anunciou os resultados financeiros do segundo trimestre.

O lucro de R$ 6,5 bilhões representou um crescimento de 25% em relação ao mesmo período do ano passado. A rentabilidade patrimonial atingiu 20,6%.

São números que deixaram o presidente do grupo Octavio de Lazari Junior feliz. Mas que não o colocam em uma zona de conforto.

O mercado financeiro é o que tem passado por uma das maiores transformações em todo o mundo e a competição com as fintechs e as big tech tem feito os grandes bancos se mexerem.

Lazari diz estar se mexendo. Nesta entrevista exclusiva ao NeoFeed, o executivo não mediu palavras para falar dos novos tempos e da competição no mercado financeiro.

Ele colocou em dúvida o modelo de negócios das fintechs, revelou sua preocupação com a entrada das big tech no mundo bancário, falou da concorrência no segmento de investimentos com empresas como XP Investimentos e detalhou o relançamento da corretora Ágora.

Lazari também anunciou que o banco digital Next vai se separar o Bradesco, fez uma análise sobre o Open Banking e se mostrou preocupado com a demora para a retomada econômica.

“É fundamental que o País volte a entrar no ciclo de crescimento. E não precisa ser um ciclo de crescimento exacerbado”, disse ao NeoFeed, na ampla sala de reuniões, no quinto andar do famoso Prédio Vermelho, a sede do banco, na Cidade de Deus. Acompanhe:

Você assumiu o banco há um ano e meio. Qual é o balanço que você faz desse período? Como era o Bradesco que você encontrou e como é o Bradesco hoje?
A grande preocupação que a gente sempre teve era a de manter a cultura do banco, que tem 76 anos. Era importante manter essa cultura para as novas gerações que estão entrando verem que a possibilidade de você entrar aqui como contínuo e chegar à presidência do banco é um sonho que se mantém e se materializa a cada dia. Até a minha própria chegada como presidente do banco mostra isso. Dito isso e mantido esse alicerce fundamental do Bradesco, obviamente procuramos modernizar o banco para atuar e ser competitivo nas diversas arenas que temos competido atualmente. O que a gente observa é que o mercado financeiro brasileiro vem mudando radicalmente por uma série de fatores, sejam eles por uma questão regulatória ou da própria concorrência. O setor de adquirência, de maquininhas, com Cielo e os concorrentes, é um setor que mudou totalmente do que era há dois, três anos.

É uma guerra…
É uma guerra, uma carnificina o que está acontecendo na adquirência. As margens foram cortadas, as empresas novas, sobretudo as fintechs, não têm compromisso de geração de resultado, de entregar lucro para os acionistas. A preocupação delas é com múltiplos de faturamento sem que, necessariamente, isso se reverta em lucro – e não está revertendo em lucro mesmo – mas é uma competição que a gente tem de estar dentro porque a adquirência faz parte do banking dos nossos clientes. Portanto, temos de estar atuando lá.

“É uma guerra, uma carnificina o que está acontecendo na adquirência”

Essa guerra está acontecendo em outros setores…
Quando a gente fala de investimento é a mesma coisa, com as novas casas de investimento. A XP é um exemplo disso. As corretoras não cobrando mais as taxas de corretagem. Então, você tem competições, competidores e regras diferentes em cada arena de competição que você vai atuar.

O discurso das fintechs é o de que os clientes estão cansados dos serviços dos grandes bancos e elas estão ganhando mercado. Você tem medo das fintechs? Elas estão fazendo frente ao Bradesco?
Elas são competentes naquilo que fazem, mas são basicamente monoproduto. Atuam em um nicho específico como cartão de crédito, crédito consignado, investimentos, e elas não têm como atender a toda a necessidade de produtos e serviços que o cliente tem. O que percebemos é que, cada vez mais, os clientes procuram centralizar seus negócios em lugares que inspirem confiança e atendam suas demandas na necessidade, no momento, na conveniência e no canal que ele precisa ser atendido. Essa é uma vantagem competitiva dos bancos. O cliente pode resolver seus problemas de banking, de investimentos, de crédito, de seguros, em um grande banco. Obviamente, as fintechs vão ter espaço porque, sempre alguém, busca a diversificação de portfólio para fazer investimento ou ter outro produto de serviço. Faz parte do jogo competitivo, mas acho que todos nós temos condição de competir nessas arenas de igual para igual.

Mas muitas fintechs começaram com um único produto e estão virando banco. O Nubank, por exemplo, começou com cartão de crédito e já tem conta, investimento e 12 milhões de clientes. Como enxerga o avanço dessa concorrência?
Essa concorrência é inevitável, não tem como a gente querer proteger esse mercado. Cada um dos competidores, terão de ser hábeis e competentes para atender a demanda dos clientes. A última palavra é de quem é dono da verdade, que é o cliente. A concorrência sempre vai existir, os concorrentes nos tornam melhores.

Quando estávamos falando de adquirência, você afirmou que as fintechs não têm muita preocupação com o lucro. E surgem novas fintechs todos os dias. Há mercado para todas?
Não tem mercado e, em algum momento, esse mercado vai se adensar. Não há mercado, sobretudo em uma economia que não está crescendo. E, mesmo com a economia crescendo, chega uma hora que será a hora da verdade porque o acionista vai exigir que a empresa seja rentável, dê lucro, seja eficiente. Não há maneira de uma empresa se perpetuar num horizonte longevo de tempo se ela não gera lucro. A razão de existir de qualquer empresa, em qualquer lugar do mundo, é que ela dê lucro. Se ela der lucro, ela paga impostos, continua crescendo, gera emprego e continua num ciclo virtuoso de crescimento. A questão é: ‘até quando os investidores estarão propensos a continuar botando recursos em uma empresa que não dá dinheiro, não dá resultado, não dá lucro, acreditando somente na capacidade de gerar múltiplos de valor de ação e de faturamento?’ Chega um momento que é a hora da verdade.

“As fintechs não têm compromisso de geração de resultado, de entregar lucro para os acionistas”

Por que tem tanta gente investindo nessas empresas?
É que a gente vem atravessando um momento da economia mundial, com muitos países com taxas de juros negativas. Então, há um excesso de liquidez no mercado que favorece esse tipo de coisa, isso é muito natural. Mas conhecemos a história, os tempos passam e a realidade sempre volta: o que importa em qualquer balanço de qualquer empresa é que a última linha seja azul, que dê resultado, só assim ela pode se manter perene.

Mas o Next, banco digital do Bradesco, não dá lucro. Até onde vai a paciência de vocês? Afinal, como você disse, no final do dia tem que ter o azul na última linha do balanço.
O Next foi criado de uma maneira separada para que pudéssemos ter uma visão do negócio individualmente, sem ficar sofrendo subsídios cruzados de outras áreas do bando, do banco, como um todo. E ele tem se mostrado um banco competente e atrativo para as novas gerações e para clientes de idades mais avançadas. É algo que vamos continuar, queira ou não, já colocamos no Next 1,5 milhão de clientes que não tinham contas no Bradesco. O nosso negócio no Next é continuar crescendo, trazendo contas, novos clientes, oferecendo uma jornada adequada para eles. Já estamos olhando para a base de clientes e começamos a oferecer empréstimos, que traz resultado, cartão de crédito, que o gasto dele, traz resultado.

Quando o Next trará o azul no balanço financeiro?
O Next, hoje, não dá resultado positivo, mas com esse crescimento, hoje com 1,5 milhão de contas, chegando a 2 milhões de contas até o fim do ano e 4 milhões até o fim de 2020. Certamente, em 2021, esse banco começará a dar resultado. Justamente porque temos toda a amplitude da gama de produtos e serviços que podem ser agregados a esse cliente.

“Certamente, em 2021, o banco Next começará a dar resultado”

Por exemplo?
Antes não fazíamos venda cruzada e esse mês começamos a fazer venda cruzada de produtos de seguro dental, de seguro de vida, de seguro de carro… Então, este relacionamento do cliente com mais produtos dentro da organização, trazendo sua movimentação financeira, e ele ter um banco para centralizar seus negócios, é o que vai fazer o Next ser rentável.

Então a vantagem do Next é ter o Bradesco por trás?
Exatamente. O Bradesco vai ser um prestador de serviço para o Next e será remunerado por isso. Esse é o negócio.

O Next será separado do Bradesco?
O Next, provavelmente, será separado. Até porque a gente entende que não deve haver assimetrias nesse mercado. Se o Next é um banco digital, ele também deve ser enxergado pelas autoridades como uma fintech, como um banco digital, não tendo todas as assimetrias que há hoje quando olhamos um banco incumbente e um banco digital. Hoje, como S1, é to big to fail, somos muito grandes para quebrar e você tem uma série de exigências de capital, de basileia e tal. Uma fintech não tem nenhuma dessas exigências. Então, que o Next seja olhado também como uma fintech que possa competir nessa arena em igualdade de condições.

Você acha injusta essa avaliação feita hoje pelo Banco Central?
Absolutamente. Acho que a concorrência é sadia, mas não pode haver assimetrias. Se o Next precisar, vamos separar para concorrer com essas fintechs em igualdade de condições. Essa assimetria não pode existir.

Mas há uma data para essa separação?
Acredito que entre 2020 e 2021 é um bom momento. Vamos primeiro fazer ele crescer, ajustar, deixar bem redondo o NPS. Hoje, o NPS dele está em pouco mais de 30 e a meta é chegar em 80.

Os grandes bancos americanos como Goldman Sachs, Citi e JP Morgan estão comprando muitas fintechs nos Estados Unidos. O Bradesco está fazendo o mesmo por aqui?
Temos um braço de private equity e através do nosso inovaBra estamos investindo nessas empresas, comprando 10%, 20% do capital. Nunca comprando 100% dessas empresas. O charme dessas empresas está em manter o capital intelectual para que elas continuem se desenvolvendo. Já investimos em 14 fintechs.

“Já investimos em 14 fintechs”

O que te preocupa mais, as fintechs ou as big tech como Apple, Google e Facebook que estão entrando no mercado financeiro?
Eu não tenho preocupação com as fintechs, eu tenho preocupação com as big tech. Elas têm uma massa de dados, uma quantidade de informações do seu negócio de origem, que dá a elas uma vantagem competitiva muito grande para operar nesse mundo de banking com informações que elas possam gerar base de dados, aprovações de crédito de produtos e serviços de uma maneira muito contundente. Por isso a preocupação para que não haja assimetrias quando se aprovar a mudança dessas big tech também em bancos. Que elas tenham que seguir os mesmos padrões de rigor, legislação e capital para que não haja nenhum risco sistêmico no mercado. Elas são muito grandes, têm muita informação e muito cliente. Agora, apesar disso, não é fácil ser banco. Se fosse fácil, você teria mais de três mil bancos no Brasil. É um negócio de capital intensivo, muito regulado, exige muita segurança. Elas também vão ter muita dificuldade para navegar nesse mercado financeiro brasileiro ou mundial.

Você falou bastante sobre crédito e, quanto mais crédito é oferecido, é sinal de que a economia cresce. Como está essa questão hoje?
O crédito, de fato, não está andando. Estamos olhando o mercado como um todo e diria que está até mais baixo do que em anos anteriores, se você desconsiderar a inflação. O crédito não vem andando porque temos 13 milhões de desempregados, 13 milhões de desalentados e, fora isso, as pessoas que estão empregadas têm o receio natural de ficarem desempregadas e, portanto, não querem tomar dívida. Não adianta, se não conseguirmos botar a economia brasileira em ritmo de crescimento, o crédito não vai reagir.

Qual é o cenário atual?
Sem o crescimento da economia, as pessoas físicas vão continuar tomando crédito para suprir as suas necessidades mais emergenciais e diria até entre aspas para sobrevivência. É por isso que o crédito consignado continua crescendo. No caso do crédito imobiliário, a pessoa acaba dando a maior entrada possível que pode para financiar, o crédito pessoal tem sido muito pouco acessado e o financiamento de veículo tem ocorrido em função de preço, mas um crescimento muito marginal também.

E no caso de pessoa jurídica?
O quadro é pior ainda. O crédito de pessoa jurídica não está crescendo, as empresas não estão investindo. Não adianta, para tomar crédito, se endividar, investir, o empresário precisa ter a expectativa de que a demanda por produtos e serviços dele vai aumentar, de que ele vai ter faturamento suficiente com este investimento para pagar as suas obrigações. É fundamental que o País volte a entrar no ciclo de crescimento. E não precisa ser um ciclo de crescimento exacerbado.

“É fundamental que o País volte a entrar no ciclo de crescimento. E não precisa ser um ciclo de crescimento exacerbado”

Como voltaremos a crescer?
Com a Reforma da Previdência, agora com a reforma tributária que deve vir e a MP da liberdade econômica pode ajudar. Mas, principalmente, destravar os obstáculos e as burocracias que o empresariado brasileiro tem e, a partir daí, vindo confiança, entrar em uma rota de crescimento que seja de 2% ou 3% ao ano do PIB. É absolutamente necessário para que venha uma expectativa melhor. O mundo todo está intrincado, complicado, a economia não está crescendo no mundo inteiro. Então acaba refletindo na economia do País.

Mas aqui se esperava, sobretudo depois da eleição do presidente Jair Bolsonaro, que a economia andasse. Analistas econômicos diziam que era só aprovar a Reforma da Previdência que a economia destravaria. A reforma está praticamente aprovada e não se vê o ponteiro mexer. A que se deve isso?
Basicamente por dois fatores. Primeiro porque o mundo não está ajudando. Há o conflito comercial entre Estados Unidos e China, Europa com juros negativos, tem um aspecto mundial que não ajuda. O segundo ponto é que a Reforma da Previdência quase saiu, mas estamos falando em setembro e ela ainda não foi totalmente aprovada. Acho que as expectativas ficam para 2020, esperando que Estados Unidos e China se resolvam, que a Europa possa entrar num crescimento e, do lado brasileiro, que essa expectativa possa animar os empresários para que gente entre em uma rota de crescimento.

A postura do governo não atrapalha? Essa dinâmica de criar uma polêmica por semana não é prejudicial?
É difícil dizer, não entro nessa seara de discussão. Acho que o Brasil precisa de um período de serenidade relativamente longo para que a gente possa focar naquilo que é, de fato, essencial para o nosso País: crescimento econômico, geração de emprego, desobstrução dos entraves que impedem as empresas de andarem mais rapidamente. É muito mais no sentido de focar naquilo que é relevante, essencial, e não ficar se perdendo com assuntos de menor importância.

“O Brasil precisa de um período de serenidade relativamente longo para que a gente possa focar naquilo que é, de fato, essencial para o nosso País”

Você acredita que o presidente Bolsonaro tem condições de manter essa serenidade?
Sim, acredito. É uma curva de aprendizado. Todos nós temos uma curva de aprendizado, seja na vida pessoal, seja na vida profissional. Quando você assume um novo cargo ou numa nova posição em uma nova empresa, existe uma curva de aprendizado do que é bom ou ruim. Esse aprendizado está acontecendo com todos nós da sociedade civil e governo.

E a questão da Amazônia, que pode afetar as exportações do País. Como você olha esse episódio?
Se você analisar os estudos, o Brasil é um dos países que mais preserva a natureza. Temos o segundo maior rebanho de gado do mundo e usamos apenas 7% do território. Problemas existem? É óbvio que existem. Num país de dimensões continentais como o Brasil, se a gente achar que não vai ter problema, é se enganar. Agora, temos que tomar atitudes severas, corretas, para que haja a preservação. Não precisamos derrubar nenhuma árvore para dobrar a capacidade de plantio do país. Tem que coibir o desmatamento ilegal, mas o Brasil sempre fez um bom trabalho nessa área e tem que continuar. Não é nada para que a gente possa dizer que exista o caos instalado.

Você acha que é mais um problema de comunicação?
Sim, eu acho.

Como você avalia o trabalho da equipe econômica?
Tanto o ministro Paulo Guedes quanto o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, estão indo na linha correta. Estão reduzindo as taxas de juros, dado o nível que temos de inflação e o nível de atividade econômica. A preocupação de privatização, de tirar do Estado aquilo que não é o core business do Estado, o Paulo Guedes vem fazendo. As ideias, as intenções, são absolutamente corretas. A gente precisa tentar acelerar ao máximo, convergir a opinião pública, o Congresso, o Senado, para que, de fato, tenhamos um sentimento de proatividade num menor espaço de tempo possível.

Você é a favor da independência do Banco Central?
Sou totalmente a favor. O sistema financeiro brasileiro, se não é o melhor do mundo, está entre os melhores. E isso é fruto do trabalho que o Banco Central vem implementando de regulação e controle. Em 2008, com todo o problema que aconteceu no mercado financeiro mundial, o Brasil não teve um problema. E olha que naquela época, diria para você, que o sistema nacional deve ter jogado entre R$ 400 bilhões e R$ 500 bilhões em perdas por “N” problemas, por questões de inadimplências e essas coisas todas, e nenhum banco quebrou porque todos eles tinham musculatura para poder suportar os efeitos adversos que aconteceram na economia mundial. O mercado brasileiro é muito evoluído e a independência do Banco Central seria a coroação de um trabalho que o próprio BC vem fazendo ao longo dos anos para que o investidor tenha confiança absoluta de que a política monetária adotada no Brasil é isenta de qualquer influência política. E isso é importante no mundo inteiro.

O BC, aliás, vem baixando a taxa básica de juros e devemos chegar ao fim do ano com a menor taxa da história, algo entre 5% e 5,5%. Vai ficar mais difícil para o investidor que estava acostumado a ter rentabilidades maiores. Como o Bradesco tem lidado com isso?
Os investidores brasileiros terão de aprender a mudar o mindset. Não dá mais para ganhar 12%, 13%, 15%, 20% como acontecia no passado. Se ele quiser uma remuneração melhor, ele vai ter que correr mais riscos, investir em ações, em papéis de empresas privadas. É uma nova visão de investimentos e os bancos têm de estar preparados para identificar o perfil do cliente e oferecer investimentos que estejam de acordo com o perfil dele, esclarecendo os riscos que ele está correndo. Agora, se ele quiser continuar na poupança, num fundo de renda fixa atrelado a um papel do governo, ele vai saber que a remuneração dele será menor. De qualquer maneira, hoje, no mundo, temos US$ 14 trilhões, o que representam 30% da poupança mundial, que estão aplicados em títulos públicos que dão remuneração negativa. Os juros negativos são o novo desafio para os economistas e para a economia mundial. Você aplica US$ 100 e no fim do ano tem US$ 99.

“Os investidores brasileiros terão de aprender a mudar o mindset. Não dá mais para ganhar 12%, 13%, 15%, 20% como acontecia no passado”

Mas o Bradesco pensa em trazer novos produtos de investimentos?
Já estamos fazendo isso. Lógico que no grande varejo você tem que tomar cuidado porque as pessoas não têm conhecimento financeiro para poder discernir o que é um CRI, um CRA, uma LCI, um fundo de renda variável. Mas, nos segmentos de alta renda e private banking, oferecemos toda essa gama de produtos do Bradesco e de fundos de investimentos de outras casas.

E transformar a Ágora em uma corretora multiplataforma como a XP, com representantes autônomos, está nos planos?
Já somos uma corretora multiplataforma, mas não trabalharemos com representantes autônomos. A Ágora está sendo relançada e vai distribuir investimentos das casas que você quiser. Vai poder comprar CDB de outros bancos, debêntures de empresas que estiverem no mercado. Mas vamos operar somente com o nosso pessoal. Temos muita preocupação de operar com agentes autônomos, tenho um rigor fiduciário com os nossos clientes.

Quando será relançada?
Dentro de dois meses. Ágora, a sua casa de investimentos. Isso vai fazer parte do discurso das nossas agências, do nosso pessoal do prime, do segmento da alta renda, distribuindo os produtos da Ágora. Ela será a casa de investimentos dos nossos clientes.

Mas será preciso ser cliente Bradesco para investir na Ágora?
Qualquer pessoa poderá investir. Esse ponto que você tocou é importante. O cliente que a gente chama é o que tem a conta corrente. Nós acabamos com isso na organização. O conta corrente é apenas mais um produto. Qualquer pessoa que queira comprar um seguro, um investimento, ou qualquer outro produto, não precisa ter conta com a gente.

Essa é uma mudança grande de mentalidade. Os grandes bancos sempre blindaram para que os clientes não saíssem…
É que você sempre blinda o conta-corrente para ter o cash flow dele. Mas isso não é mais verdade. O cliente pode querer ter o investimento dele no Bradesco, o seguro na Porto Seguro, e não necessariamente não seja um bom cliente. O que eu preciso é trazer essa pessoa para dentro. Não importa se é pela porta da seguradora, do cartão de crédito, da Ágora Investimentos.

E o Open Banking, como você avalia a chegada dele?
É inevitável, já estamos operando através do nosso portal de Microempresário individual, o MEI, onde várias empresas estão plugadas via APIs. Então o chassi é o Bradesco, mas se ele quiser um contador ele tem lá, educação financeira, tem o Sebrae. Vamos esperar a regulação do Banco Central sair. Só insisto de que seja dado simetria nisso.

O que isso quer dizer?
Imagina o seguinte, se várias fintechs se plugarem no Bradesco, Itaú e Banco do Brasil, e todas elas, simultaneamente, jogarem um caminhão de informações pedindo para tirar extrato e informações do cliente, pode criar um caos no mercado financeiro. Tem que tomar muito cuidado porque a gente sabe aqui o que vive com ataques cibernéticos. Tem que ter segurança, login, autenticação de quem está entrando… São regras que devem ser cumpridas. Se isso acontecer, sem problema nenhum.

“Se o Bradesco quiser acessar o dado de alguma outra instituição ou de outra fintech, ou se uma fintech quiser acessar os dados do Bradesco, acredito que deveria ter uma tarifa para isso”

Qual é o impacto disso?
É difícil mensurar. Vamos pegar a Inglaterra, que teve de fazer ajustes ao longo do tempo porque foi “open” demais. Começou a ter problemas de certificação e validação de acessos. Teve de fazer ajustes, ter limitação de acessos, não pode, a cada 30 segundos, pedir saldo dos clientes. Pode causar um problema na instituição que está acessando. Talvez até seja o caso de criar tarifas para esses acessos. Tudo o que é de graça ninguém dá valor. Se o Bradesco quiser acessar o dado de alguma outra instituição ou de outra fintech, ou se uma fintech quiser acessar os dados do Bradesco, acredito que deveria ter uma tarifa para isso.

Siga o NeoFeed nas redes sociais. Estamos no Facebook, no LinkedIn, no Twitter e no Instagram. Assista aos nossos vídeos no canal do YouTube e assine a nossa newsletter para receber notícias diariamente.

Leia também

VÍDEOS

Assista aos programas CAFÉ COM INVESTIDOR e CONEXÃO CEO