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Livros resgatam a alma radical de Lina Bo Bardi, a “arquiteta que escrevia”

Lina Bo Bardi circulou pela elite paulistana ao mesmo tempo que frequentava quilombos, casas de caipiras e comunidades indígenas, de onde tirava inspiração para seus projetos. Dois livros analisam sua influência como arquiteta e seu temperamento sedutor e engajado

 

Lina Bo Bardi e os cavaletes de vidro do Masp

A arquiteta modernista ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992) poderia ter sido apelidada de radical chique, se não tivesse sido ela mesma uma precursora desse tipo urbano da década de 1960. O termo foi criado por Tom Wolf na reportagem “These radical evenings” (algo como “Essas noitadas radicais”), publicada na revista The New Yorker em dezembro de 1970.

O texto retratava a cena cultural de Nova York, e se aplicou ao maestro Leonard Bernstein e outros socialites que frequentavam as melhores festas e eventos da Big Apple, mas também faziam figuração VIP nas reuniões do grupo Panteras Negras, o movimento que surgiu nos anos 1960, nos EUA, contra a segregação e o racismo.

Declaravam-se contra o sistema e comunistas radicais, mas dependiam de subvenções públicas e contratos polpudos com galeristas, promotores e empresários de shows, concertos e peças de teatro. Mantinham um pé firme na área esnobe de Uptown, mas davam seus pulinhos nos conjuntos habitacionais e cortiços dos bairros humildes do Harlem e de Lower East Side.

Lina poderia se enquadrar no estereótipo que virou símbolo das contradições dos anos 1950 e 1960 do meio intelectual e artístico das Américas. Ela se declarava comunista, mas, ao mesmo tempo, desfilava como uma das mulheres mais poderosas da elite cultural paulistana.

Apreciava o “papo cabeça”, como se dizia na época, regado a champanhe francesa e mojito (concessão à Cuba de Fidel, então em moda), mas não negava visitas a quilombos, casas de caipiras e comunidades indígenas, de onde tirava inspiração para projetos que emplacava junto aos governadores do Brasil.

Deu festas e jantares memoráveis na Casa de Vidro, construção atrevida que projetara para si e seu marido, o marchand e jornalista cultural Pietro Maria Bardi (1900-1999), em 1951, no nascente bairro paulistano do Morumbi, moradia que se tornou atração turística e hoje pode ser visitada pelo público.

Não há notícias da passagem de Lina e Pietro pelas festanças nova-iorquinas da época. Mas ela bem poderia ter exposto suas maquetes nos museus e casas de cultura de lá, já que se havia inspirado em muitos deles para traçar suas estruturas e viabilizar projetos de instituições semelhantes no Brasil, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp), o Sesc Pompeia e o Teatro Oficina, em São Paulo; o Solar do Unhão, em Salvador; e outras construções devotadas à cultura espalhadas pelo Brasil.

Desenho da nova sede do Masp, feito por Lina Bo Bardi

Duas biografias de Lina, que saem nesta semana no Brasil, resgatam essa trajetória. Ambas contam com mais de 400 páginas cada, recheadas de desenhos, projetos e fotografias históricas nunca estampadas antes.

Os livros, redigidos e arduamente pesquisados por arquitetos de renome, celebram, cada um a seu jeito, a alma radical e a selva de concreto que surgiram da prancheta de Lina.

São elas Lina Bo Bardi – o que eu queria era ter história, de Zeuler R. M. de A. Lima, edição da Companhia das Letras; e Lina, uma biografia, de Francesco Perrotta-Bosch, da Todavia.

Lina Bo Bardi – o que eu queria era ter história

Lima é professor de arquitetura e arte na Washington University em St. Louis. Perrotta-Bosch trabalha como arquiteto no Rio de Janeiro e cursa doutorado em arquitetura pela Universidade de São Paulo. Em 2013, venceu o prestigioso prêmio de ensaio da revista literária Serrote.

A figura biografada é a mesma pessoa, as trajetórias dos autores são parecidas, assim como as capas dos livros. Mas as abordagens diferem uma da outra e justificam uma frase de Lina que figura como epígrafe do livro de Perrotta-Bosch: “Arquiteto não precisa desenhar. Ele pode escrever.”

De fato, Lina era uma arquiteta que escrevia – tanto literalmente, como através de  suas obras arquitetônicas. Na juventude, atuou como jornalista em revistas e jornais culturais em Roma. E, entre 1950 e 1953, dirigiu a Habitat, uma revista de arquitetura e ensaio. Ela também pintava e desenhava móveis e obras de arte.

“Há 20 anos que estudo a vida e a obra da Lina Bo Bardi e escrevo e produzo exposições sobre ela”, afirma Lima ao NeoFeed. “A pesquisa se concentrou na década inicial, mas sempre novos materiais aparecem para serem incorporados à escrita e às exposições que organizei.”

Lima revela que o desafio foi organizar o grande volume de documentos pesquisados, dezenas de entrevistas e visitas aos lugares percorridos por Lina, além de suas obras. “Fiz isso para poder organizar uma narrativa cronológica complexa com três linhas relacionadas: a vida, a obra e os contextos históricos e sócio-culturais em que viveu a Lina Bo Bardi”, afirma.

Perrotta-Bosch, por sua vez, se expressa de modo mais literário e pessoal. Ele procurou ressaltar o temperamento sedutor, engajado e bem-humorado da arquiteta. “Por isso, minha narrativa é leve e percorre a vida de Lina de uma forma descontínua, sem observar a ordem cronológica”, diz Perrotta-Bosch ao NeoFeed. “Assim me aproximei mais do espírito da artista.”

A Casa de Vidro, construção que Lina projetou para si e seu marido, Pietro Maria Bardi, em 1951

Já Lima a analisa como uma menina dotada de coragem e ambição. “Ela teve de ser intrépida para poder vencer muitos obstáculos, principalmente como mulher operando num ambiente predominantemente patriarcal”, afirma.

De acordo com ele, ao contrário de ter sido uma profissional dispersa, Lina foi uma pessoa de grandes recursos que soube se transformar criativamente conforme as diferentes situações que viveu.

“Uma de suas qualidades foi a de ter sempre mantido uma mente aberta e observar criticamente os mundos ao seu redor e absorver deles elementos que ampliassem e renovassem suas buscas intelectuais e artísticas”, diz Lima.

A rebeldia de Lina, segundo Perrotta-Bosch, se manifestou desde cedo, mas ganhou vulto quando se mudou para o Brasil e renunciou à nacionalidade italiana para virar brasileira, como se o passado europeu não lhe dissesse mais respeito.

Para espanto de quem a conheceu naquela época, ela costumava responder. “Eu disse que o Brasil é meu país de escolha duas vezes. Eu não nasci aqui, escolhi este lugar para viver. Quando a gente nasce não escolhe nada, nasce por acaso. Eu escolhi meu país”.

Declaração exagerada, porque era profundamente italiana. Ela foi batizada Acchilina Bo, mais tarde apelidada de Linuccia, quando sua única irmã, Graziella, veio ao mundo. Nasceu e se criou em uma família de classe média baixa em um prédio de apartamentos no bairro pobre de Prati, em Roma, a três quarteirões do Vaticano.

Era filha da dona de casa Grazia Bo e do tipógrafo e pequeno empresário Enrico Bo. Tal qual a primogênita mais tarde, Enzo mantinha posições políticas contraditórias. Dizia-se monarquista, mas muitas vezes atuou como anarquista anticlerical.

Lina, uma biografia

Lina se formou em artes e arquitetura no Liceu de Roma e na Faculdade Romana de arquitetura. Aos 28 anos, montou o seu primeiro estúdio de arquitetura e começou a projetar e supervisionar. Bela, elegante e atraente, buscou se impor aos homens. “Lá vem a mulher”, diziam os engenheiros quando a viam chegar a um pátio de obras.

Em 1945, quando a Itália perdeu a guerra e as cidades estavam em escombros, Lina se envolveu com o Partido Comunista e trabalhou em revistas de arte. Foi em uma delas que conheceu o jornalista e marchand de obras de artes antigas Pietro Maria Bardi. Ele fazia parte do círculo de intelectuais que cercavam Benito Mussolini e tinha simpatias fascistas.

Mas isso não pesou na decisão de Lina em se casar com ele e migrar para o Brasil, em 1946. No Rio de Janeiro, fundaram a revista Habitat e se integraram à sociedade carioca.

O jornalista, dono dos Diários Associados e colecionador Assis Chateaubriand convidou o casal para operar com obras de arte vindas da Europa destruída e fazer projetos que culminaram na fundação do Museu de Arte de São Paulo (Masp), no prédio dos Diários, na rua Sete de Abril, centro da cidade, em 1947. Lina contribuiu com a ousadia de espaços expositivos amplos e nada tradicionais.

“Sua vinda ao Brasil se deve por seu relacionamento com Pietro Maria Bardi, que buscava novos mercados de arte e potencialmente de trabalho que haviam se fechado na Europa com a devastação deixada pela guerra”, afirma Lima.

E prossegue: “Seu objetivo inicial não era permanecer no Brasil, mas a associação com Assis Chateaubriand e a criação do Masp paulatinamente os manteve aqui. Como outros europeus que imigraram para o Brasil no período do segundo pós-guerra, eles traziam uma sensibilidade por temas humanísticos que encontrou um solo fértil para se desenvolver no Brasil.”

As escadas do Sesc Pompeia, em São Paulo

Quando ela montou os cavaletes de vidro no espaço de exposição do Masp, foi considerada iconoclasta, pois baixava as obras de arte do pedestal, transformando-as supostamente em produtos de vitrine. Mas a inovação foi vista e replicada depois que ela ganhou exibições retrospectivas no Center for Architecture do AIA em Nova Iorque (2015) e no museu da Fundação Joan Miró em Barcelona (2019).

De acordo com Perrotta-Bosch, Lina buscou uma narrativa pessoal em tudo o que fez, nunca deixando de ser um pouco anárquica. “Tudo poderia ser projetado, da arquitetura às páginas das revistas, de instituições culturais aos cardápios, dos acontecimentos às recordações, ela quis até projetar o acaso: determinar a indeterminação.”

Seu legado, pensa Lima, está em uma visão de mundo romântica e revolucionária sobre o cotidiano. “Ela valorizou a capacidade que temos, todos nós, de reinventarmos o mundo físico ao nosso redor, buscando simplicidade e autenticidade”, diz. “Essa perspectiva otimista parece oferecer ao mundo contemporâneo, mergulhado em crises ideológicas, ambientais e artísticas, alguma esperança ao alcance de todos.”

A garota de Roma reinscreveu sua vida como uma artista mundial do Brasil. Hoje é vista menos chique do que radical.

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