Um herdeiro da mídia tradicional americana está dando um passo em direção à construção de um modelo “anti-algoritmo” e “anti-commodity” para o jornalismo na era da inteligência artificial. James Murdoch, filho de Rubert, está investindo aproximadamente US$ 300 milhões na aquisição de cerca de 50% da Vox Media.
A operação coloca sob o guarda-chuva da Lupa Systems - holding de investimentos criada por James em 2019, pouco depois da venda da 21st Century Fox para a The Walt Disney Company por US$ 71 bilhões - ativos como New York Magazine, Vox.com e a rede de podcasts da Vox Media.
Ao mesmo tempo, deixa de fora propriedades mais dependentes de tráfego e publicidade digital tradicional, como The Verge e Eater. É essa decisão de James que carrega uma série de simbolismos para a indústria global de mídia.
Com o deal, o filho mais novo de Rupert Murdoch busca encontrar ativos escassos na nova economia da informação, como marcas editoriais com identidade forte, audiência qualificada (e fiel) e propriedade intelectual capaz de circular entre plataformas.
Sua carteira de investimentos na Lupa Systems possui participações na empresa controladora do Tribeca Film Festival, na Art Basel, em negócios de streaming na Índia e em startups de mídia como The Bulwark e The 19th.
A Vox Media faz parte de um grupo seleto de digital media que ascenderam nos anos 2010. Junto com BuzzFeed e Vice Media, eles levantaram centenas de milhões de dólares apostando em escala, viralização e crescimento infinito de audiência digital.
O problema é que essa tese dependia de pilares como o crescimento contínuo do tráfego vindo de Google e Facebook, publicidade programática em expansão e custos relativamente baixos de distribuição.
Como esses três pilares ruíram, as plataformas passaram a priorizar seus próprios produtos. Jim Bankoff, CEO da Vox Media, usa o termo “dizimação do tráfego de busca” para falar sobre a transformação do segmento.
Agora, Murdoch está apostando em comunidades, assinaturas, experiências e formatos nos quais a relação entre criador e audiência é mais direta.
Os podcasts, por exemplo, parecem o ativo mais valioso da operação. No ano passado, esse segmento gerou mais de US$ 80 milhões em receitas para a Vox.
No cardápio da companhia estão quase 50 podcasts, como os de Kara Swisher e Scott Galloway. É essa autenticidade que faz o herdeiro de Murdoch acreditar que, enquanto boa parte dos publishers digitais sofre para monetizar páginas vistas, a Vox Media conseguiu construir uma operação de áudio altamente rentável.
Sobrenome e influência
Filho mais novo do empresário australiano-americano Rupert Murdoch, James esteve ao lado do pai na construção de grandes marcas do jornalismo da NewsCorp.
O patriarca ergueu um dos maiores impérios de comunicação ao longo de mais de cinco décadas. Ele construiu influência e transformou veículos locais que passaram a influenciar política, cultura e opinião pública em diversos países.
Sob seu comando nasceram ou ganharam musculatura global ativos como Fox News, The Wall Street Journal, The Times de Londres, New York Post, HarperCollins e os estúdios da 21st Century Fox.
Seu modelo sempre esteve associado a escala, distribuição em massa e enorme capacidade de capturar atenção.
O filho mais novo, porém, decidiu apostar em um modelo quase oposto ao construído pelo pai.
Em vez de canais de notícias 24 horas, audiência de massa e jornalismo diário baseado em breaking news, James Murdoch quer construir um conglomerado apoiado em “long-form journalism”, podcasts e marcas culturais premium.
James Murdoch deixou o conselho da News Corp em 2020 após divergências sobre os rumos editoriais do grupo e críticas à cobertura relacionada às mudanças climáticas.