No IPO do Robinhood, a “vingança” dos sardinhas (e dos investidores institucionais)

O que era para ser um dos principais acontecimentos do mercado de capitais dos EUA se tornou uma grande decepção. Saiba por que o Robinhood desagradou a todos

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Em telão, o fundador do Robinhood, Vladimir Tenev

A abertura do capital do Robinhood era para ser um dos principais acontecimentos do mercado de capitais americano em 2021, capaz de atrair investidores institucionais de peso e, ao mesmo tempo, uma grande quantidade de pessoas físicas, fãs da companhia.

Em um documento apresentado para as autoridades reguladoras, no início de julho, os cofundadores da plataforma de negociação de ações, Vladimir Tenev e Baiju Bhatt, disseram que abririam sua oferta pública inicial para clientes em termos de igualdade com os investidores institucionais.

Mas a intenção de “democratizar” o processo de IPOs desempenhou um papel relevante no tropeço das ações, que caíram 8,4% em seu primeiro dia de negociação na Nasdaq, na quinta-feira, 29 de julho. No fim, a abertura de capital foi um processo decepcionante tanto para os investidores sardinhas, como para os institucionais.

De um lado, os investidores institucionais se mostraram céticos em apostar em uma empresa que sofre o escrutínio de autoridades reguladoras e que adota práticas polêmicas para aumentar sua receita, como o chamado fluxo de pagamento por pedido, que a SEC (a CVM dos EUA) está revisando.

Essa prática é o pagamento de até 1 centavo por ação que um corretor recebe para rotear as negociações de seus clientes para um determinado formador de mercado.

Os investidores de menor porte, chamados de sardinhas, também ficaram insatisfeitos e celebraram a queda das ações. A “vingança” é fácil de ser entendida. Em janeiro, o Robinhood impediu os usuários de comprar ações de memes como a GameStop.

No fórum WallStreatBets, que conta com mais de 10 milhões de assinantes no Reddit, um post popular brincou que o Robinhood limitaria a negociação de suas próprias ações, uma referência ao episódio do início do ano, segundo o site da Barron’s.

Outro usuário disse que gostou de assistir à queda das ações. “Estou entrando novamente em minha conta do Robinhood para poder assistir as ações em tempo real”, escreveu um membro do fórum.

Os investidores institucionais também não estavam felizes. E uma das razões é o fato de o Robinhood ter adotado um processo de leilão híbrido, que tenta atribuir ações aos investidores com base no que eles estão dispostos a pagar, independentemente de quem sejam.

Ao mesmo tempo, eles ficaram no escuro sem ter informações sobre a demanda e a precificação, o que deu a eles uma visão de que o negócio ia mal, segundo uma reportagem do The Wall Street Journal.

Nem mesmo a precificação de US$ 38, no piso da faixa indicativa, uma estratégia adotada para que os papéis subissem em seu primeiro dia da negociação, conseguiu elevar o otimismo com o Robinhood – nesta sexta-feira, 30 de julho, os papéis subiram quase 1%.

Apesar do mau desempenho, o IPO de Robinhood está longe de ser a pior abertura de capital de 2021. Segundo a Dealogic, o aplicativo de compra e venda de ações figura na 35ª posição como pior desempenho deste ano entre 659 IPOs que aconteceram até agora.

Mas boa parte das empresas que estão à frente do Robinhood neste quesito levantou pouco capital. Em geral, menos de US$ 100 milhões. O aplicativo captou US$ 2 bilhões.

Quando se analisa IPOs maiores, que captaram mais de US$ 1 bilhão, o Robinhood sobe para a terceira posição entre os piores desempenhos de 2021.

O Applovin, que vende software para desenvolvedores de gamers móveis, caiu 18,5% em sua estreia em abril, quando captou US$ 2 bilhões. Na sequência, vem a Oscar Health, uma insurtech que levantou US$ 1,4 bilhao em março, e viu seus papéis desvalorizarem quase 11% no primeiro dia de negociação.

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