Com a possível mudança de comando na gestão do mercado de petróleo na Venezuela, a partir da deposição de Nicolás Maduro pelo governo do presidente americano Donald Trump, é muito pouco provável que a Petrobras possa se beneficiar de uma parcela maior na exportação.
A tendência é que, caso a China, que recebe 80% da produção do petróleo venezuelano, precise, em um primeiro momento, encontrar outro fornecedor para não interromper o fornecimento, a prioridade seria a Arábia Saudita, e não a estatal brasileira.
A avaliação é de David Zylbersztajn, que foi diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) entre janeiro de 1998 e outubro de 2001. Para ele, a estatal não se preparou, ao longo dos anos, para absorver grandes mercados internacionais.
“A Petrobras não tem estoque nem uma produção excedente tão grande para poder fazer isso”, diz Zylbersztajn, em entrevista ao NeoFeed. “Não vejo onde o Brasil pode se dar bem nesta história.”
A Venezuela hoje tem produção diária de cerca de 1 milhão de barris de petróleo por dia, bem abaixo do que poderia, segundo o especialista. Isso significa que pelo menos 800 mil barris vão para a China, volume que seria difícil de ser garantido pela empresa brasileira.
“Não é muito em termos de mercado mundial, mas seria muito para a Petrobras, que produziu em novembro o equivalente a 4 milhões de barris por dia, em assumir esse volume, da noite para o dia”, afirma o especialista.
De qualquer forma, a petrolífera brasileira vem aumentando o volume de exportação ao longo dos meses. No terceiro trimestre de 2025, a empresa exportou o equivalente a 814 mil barris por dia, um crescimento de 36,1% sobre a mesma base do ano anterior.
A China foi o principal mercado do produto brasileiro, representando 53% do total exportado. Logo depois vem os demais países asiáticos, com 19%, seguidos pela Europa, com 15%, e América Latina, com 10%.
A questão, segundo o ex-diretor da ANP, é que as empresas americanas, como a Chevron, que já atua na Venezuela, por meio de joint venture com a estatal PDVSA, passarão a ter prioridade na produção e venda ao exterior do petróleo produzido no país da América do Sul.
“A China conseguiria rapidamente fechar a torneira da Venezuela e abrir outra. Os países do Oriente Médio produzem essencialmente para exportar, ao contrário do Brasil”, diz o ex-comandante da ANP.
Ainda assim, na visão dele, a tendência é que o País cresça no volume de petróleo exportado. “O Brasil pode se tornar, nos próximos anos, o quarto maior exportador global de petróleo. Mas isso é um processo. Não é rápido”, explica.
“A gente paga um preço pelo erro cometido no passado, há pelo menos 15 anos, quando o Brasil ficou cinco anos sem realizar leilões de produção. Hoje, a trajetória está correta, apesar das limitações naturais”, afirma o ex-diretor-geral.
A maior preocupação, na avaliação de Zylbersztajn, tem relação direta com a queda no preço do barril no mercado global, como ocorreu na manhã desta segunda-feira, 5 de janeiro. Uma mudança grande poderia afetar o ciclo de investimentos da companhia.
“Acredito que o preço do barril deva cair porque há uma grande possibilidade de um aumento na oferta global e, dificilmente, haverá o crescimento da demanda na mesma proporção”, afirma.
Segundo ele, a Venezuela deve crescer entre 2% e 3% no volume de produção diária, a partir da entrada das companhias americanas no mercado petrolífero do país sul-americano. “A Petrobras poderia ser um player importante nesta retomada do país, mas a prioridade certamente será das companhias dos Estados Unidos.”
A questão agora é conseguir dimensionar se, a partir da ação militar dos Estados Unidos, com foco claro no petróleo venezuelano, como o próprio Trump deixou claro em coletiva de imprensa no último sábado, 3 de janeiro, esse movimento geopolítico pode frear os investimentos da Petrobras na exploração na Bacia do Foz do Amazonas, na margem equatorial.
A região, vista como o “novo pré-sal” brasileiro, que está localizada em águas profundas do Amapá, pode conter o equivalente a 5,7 bilhões de barris correspondentes, o que significaria um aumento de 34% nas reservas do Brasil.
A Petrobras planeja um volume de investimentos de US$ 3 bilhões, até 2029, para realizar as perfurações nos blocos na Margem Equatorial. E é esse montante que poderia ser colocado em xeque a partir de uma nova configuração no preço do barril.
“O preço do petróleo mexe com os planos de negócios das empresas. A situação pode ficar mais complexa. Esses investimentos podem ser afetados pela questão econômica, e não necessariamente por uma visão estratégica”, prevê Zylbersztajn.
As ações da Petrobras operaram em queda durante o pregão desta segunda-feira, 5 de janeiro, na B3. Por volta de 16h30, os papéis da companhia registravam desvalorização de 1,8%.
No acumulado de 12 meses, a retração alcança 16,7%. A Petrobras está avaliada em R$ 400 bilhões.