O setor de data centers vive um período de grandes investimentos no Brasil, com previsão de aportes de R$ 500 bilhões até 2030, impulsionados por um pipeline de projetos que promete mais do que quadruplicar a capacidade instalada.
A expectativa de ampliar a capacidade atual de 730 megawatts (MW) para 3,2 gigawatts (GW) tem como foco data centers de inteligência artificial (IA) — com maior valor agregado e maior atratividade para investimentos externos do que os data centers de nuvem.
A construção de ao menos cinco data centers de IA já saiu do papel, em Eldorado do Sul (RS), Maringá (PR), Uberlândia (MG) e Rio de Janeiro. O único fora do eixo Sudeste-Sul é o projeto da Casa dos Ventos em Caucaia (CE), um investimento previsto acima de R$ 200 bilhões com aportes do CIC, o principal fundo soberano da China, e do Patria Investimentos. Não há confirmação oficial, mas tudo indica que será usado pela ByteDance, dona do TikTok.
Parte desse otimismo com data centers de IA no Brasil se deve a dois fatores. Um deles passa pelas vantagens competitivas do País. Entre elas, nossa matriz energética, 90% renovável; o custo baixo de energia em relação a outros países da América Latina; e a capacidade ociosa da rede elétrica brasileira, que produz mais energia do que consome.
O outro fator decisivo foi a aprovação, em setembro, do Regime Especial de Tributação para a Área de Data Centers (Redata), pela MP 1.318. O programa, que reduz o custo de capital em 50% ao isentar impostos sobre ativos de TI, já estimula projetos de grande porte (500 MW a 1,5 GW), com benefícios válidos até 31 de dezembro de 2026.
Em meio ao entusiasmo do mercado, resta a dúvida: o setor elétrico conseguirá atender a demanda de energia multiplicada por quatro em apenas cinco anos? O problema não está na geração, mas na rede, já que data centers de IA exigem carga contínua, mais subestações e linhas de transmissão — cuja construção leva quatro a cinco anos, o dobro do tempo de instalação de um data center.
A demanda irregular do sistema elétrico, baixa de manhã e alta no fim do dia, agrava os cortes de energia renovável de fontes centralizadas (eólicas e solares), o chamado curtailment. Com data centers operando 24 horas por dia e sete dias por semana, o risco de o sistema ver seus problemas se multiplicarem não é pequeno.
A boa notícia, porém, é que a inesperada explosão de data centers com seus investimentos bilionários deve estimular uma revolução no setor elétrico brasileiro para acompanhar e absorver essa demanda, por meio de ajustes há muito deixados de lado por interesses políticos de grupos que atuam no sistema elétrico.
Donato Filho, diretor-executivo da consultoria Volt Robotics, estima serem necessários investimentos paralelos de R$ 100 bilhões a R$ 120 bilhões até 2030 em melhorias do setor elétrico para adequar a rede. Sem reforma ampla acompanhada de planejamento, tarifas diferenciadas e novos mercados de serviços, adverte, os gargalos do setor tendem a aumentar.
A intermitência da rede e o curtailment são pontos centrais. Como cerca de 50% dos cortes de geração ocorrem pela manhã, o aumento da carga dos data centers nesse horário ajuda a absorver o excesso de energia. “Se conseguirmos tirar o consumo do fim do dia e jogar para o período da manhã, resolvemos os dois problemas, do curtailment e da necessidade de carga dos data centers”, diz o especialista.
Para garantir baixa latência e continuidade, Donato Filho sugere um mix com fornecimento de geração solar pela manhã, eólica à noite, além de térmicas, hidrelétricas e baterias de armazenamento no horário de pico.
Em paralelo, o consultor defende sinais tarifários dinâmicos e uma tarifa específica para data centers. “Data centers demandam contratos por hora, não anuais, como é praxe no mercado”, afirma. “Além disso, modelos tarifários inteligentes, com tarifa de energia mais barata de manhã, por exemplo, podem deslocar o consumo residencial do pico, abrindo espaço para a carga dos data centers e reduzindo a necessidade de despacho de ponta.”
O custo baixo para gerar energia no Brasil, na faixa de R$ 180 a R$ 250 por megawatt-hora, dependendo de onde o data center está sendo instalado, está abaixo da média internacional – o equivalente entre R$ 350 e R$ 400 por megawatt-hora. “Por isso o Brasil é competitivo”, diz Donato Filho.
Ou seja, a localização dos data centers também importa. Hyperscale Data Centers, como os de AWS e do Google – usados em treinamento de redes neurais e modelos de IA –, podem ficar em áreas isoladas, favorecendo regiões como o Nordeste, que reúne energia renovável abundante e cabos submarinos para o tráfego internacional de dados.
Já aplicações de baixa latência, em centros de dados localizados perto dos consumidores para garantir respostas rápidas para dados de uso frequente e inferência de IA, como do ChatGPT, se concentram no Sul e Sudeste, onde a demanda é maior e a rede, mais robusta. Cerca de 60% dos projetos de IA seguem esse modelo, com preferência pelas regiões Sul-Sudeste, pela proximidade dos grandes centros de consumo.
Cadeia de valor
Do ponto de vista dos investidores, há consenso de que o mercado de energia precisará se adaptar a uma demanda mais concentrada e contínua, distinta do consumo tradicional.
Renan Lima Alves, presidente da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC), explica que data centers são medidos em potência de TI, pois contratos e gastos de capital se baseiam na receita por kW. Ele afirma que um data center de IA de 100 MW custa US$ 1 bilhão ao operador, enquanto a big tech inquilina investe até US$ 10 bilhões. Um site de 100 MW de TI consome entre 130 e 150 MW da rede.
O incentivo fiscal do Redata está atraindo as big techs. “Existem 75 projetos de data centers mapeados”, diz Alves. “Filtrando acima de 5 MW, são 56 projetos”, emenda.
A cadeia produtiva, segundo ele, envolve desde usuários e operadores até fabricantes de equipamentos, empresas de energia e da construção civil, movimentando um ecossistema de empregos qualificados associado a mais de 230 empresas.
A barreira de capital faz com que o setor seja dominado por operadores globais de data centers (Ascenty, ODATA, Equinix), apoiados por private equities (Ares, Macquarie), fundos soberanos (GIC, CIC, Mubadala) e fundos de pensão. Big techs (Amazon, Google, ByteDance) são clientes finais e tendem a terceirizar construção e operação.
“A cadeia de investimentos em data centers começa com os fundos soberanos e institucionais, que garantem o capital de longo prazo; em seguida, entram os private equities, que estruturam veículos de investimento e capturam valor na fase de expansão”, afirma Anderson Brito, head de investment bank do UBS BB.
Segundo ele, operadores locais atuam como a ponta operacional da cadeia, mas dependem de uma arquitetura financeira na qual fundos globais aportam capital, private equity organiza a governança e bancos estruturam dívidas de infraestrutura.
“O investimento em data centers é visto como um ecossistema integrado, em que cada elo — fundos soberanos, private equity, operadores e fornecedores de energia — cumpre um papel específico para reduzir risco e ampliar retorno”, diz Brito.
Nesse cenário, gigantes do setor que já operam data centers de nuvem no País admitem que começam a mirar o mercado de IA no País com outros olhos. É o caso da multinacional americana Equinix — a maior empresa de data centers do mundo em número de sites, com presença em 70 países.
A Equinix possui oito data centers em operação no Brasil — cinco em São Paulo e três no Rio de Janeiro. Além disso, há um nono data center em construção em São Paulo, com investimento previsto de US$ 110 milhões.
“A empresa planeja investir nos próximos cinco anos o equivalente ao que investiu nos últimos 27 anos globalmente, o que significa quase dobrar sua capacidade atual”, afirma Eduardo Carvalho, CEO da Equinix para a América Latina, em entrevista ao NeoFeed.
Embora valores específicos não possam ser divulgados pelo fato de a Equinix ser uma empresa de capital aberto, Carvalho assegura que está otimista com o crescimento do mercado de data centers de IA, especialmente no Brasil e na América Latina.
Segundo ele, o México é um concorrente forte pela proximidade com os EUA, mas enfrenta desafios com a infraestrutura de transmissão de energia. O Chile também cresce, beneficiado por temperaturas mais baixas que otimizam o consumo de energia dos data centers. “No entanto, a abundância e a matriz energética limpa do Brasil conferem ao País um protagonismo único”, afirma.

Os cinco projetos de data centers de IA em execução mostram a força emergente desse mercado no Brasil. A demanda energética pode chegar a 9.400 MW, equivalente ao consumo de 16 milhões de residências.
O Scala AI City, em Eldorado do Sul (RS), prevê “bairros de servidores” e 1.800 MW, podendo atingir 5.000 MW até 2033. O projeto, de R$ 3 bilhões, já foi aprovado para conexão ao Sistema Interligado Nacional.
A RT-One tirou do papel dois projetos — em Maringá e e em Uberlândia —, cada um com 400 MW e R$ 6 bilhões, consumo equivalente ao de 1,6 milhão de casas.
A Elea Data Center, que opera nove unidades de nuvem, iniciou quatro novos projetos de IA em Jacarepaguá, no Rio. O complexo Rio AI City, em parceria com a Axia (antiga Eletrobras), terá 1.500 MW, o equivalente ao consumo de 6 milhões de residências.
O italiano Alessandro Lombardi, presidente da Elea, afirma que o Brasil é competitivo: “Nos EUA e na Europa, empresas esperam até oito anos por uma conexão à rede elétrica; no Brasil, esse prazo não passa de três anos”.
Ele destaca o interesse de big techs — incluindo um acordo de entendimento com a Oracle — e o potencial de expansão modular. Mas alerta: “Sem incentivos, o Brasil não compete globalmente”. Segundo ele, o custo de cloud no País é o mais alto do mundo, com 86% de impostos na importação de equipamentos. “O Redata é essencial para atrair investimentos em IA e data centers.”
Serafim Abreu Junior, CEO da NextStream – empresa que opera 10 data centers na América Latina, distribuídos em cinco países - vê risco na demora da aprovação do Redata. A Medida Provisória (MP) foi assinada, mas precisa ser tramitada e aprovada no Congresso. O prazo limite para aprovação é 26 de fevereiro.
“A votação da MP corre risco de atrasos, pois outros grupos querem acoplar temas como Marco Civil da Internet e LGPD, tornando a tramitação mais complexa”, adverte.
A NextStream está se preparando ativamente para o boom. Possui um terreno de 43 mil m² para expansão ao lado do campus atual em Tamboré (local anteriormente ocupado pela Telefónica), com capacidade para até 72 MW.
Abreu Junior projeta três vetores de crescimento para o setor no Brasil: “Repatriar 60% dos dados brasileiros hoje processados no exterior dobraria a capacidade para 1,5 GW”, diz. Outro vetor viria do crescimento doméstico de 15 a 20% ao ano, adicionando 500 MW. Por fim, a exportação de workloads de IA traria até 1,5 GW.
O CEO da NextStream, porém, adverte para os gargalos no fornecimento de energia no Sudeste.
“Embora o Brasil produza muita energia (especialmente no Nordeste e no Sul), há um grande desafio de transmissão para escoá-la ao Sudeste, onde a demanda é maior”, diz. “Isso gera disputas entre operadores para assegurar energia e expansões; o Ministério de Minas e Energia e o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) trabalham em reforços e novos leilões, mas o avanço é lento.”