A Kora Saúde é mais uma empresa que teve de recorrer à recuperação extrajudicial, diante do aperto financeiro que vive, o que fez com que o auditor apontasse “incerteza relevante” a respeito da continuidade operacional.

O grupo de hospitais, controlado pelo fundo de private equity HIG Capital, anunciou na noite de quarta-feira, 29 de abril, que chegou a um acordo com seus principais credores não operacionais para a celebração de um plano de recuperação extrajudicial, com a reestruturação de dívidas.

O comunicado, que não detalha os termos das negociações, informa que a Kora também conversa com credores de obrigações não abrangidas pelo plano, que não contempla credores operacionais. “A combinação dessas iniciativas tem por objetivo viabilizar uma reestruturação abrangente do passivo não operacional”, diz trecho do comunicado.

As conversas não são recentes. Segundo a Bloomberg, a Kora Saúde discutia há meses com os credores a possibilidade de apelar para uma recuperação extrajudicial.

A Kora é mais uma empresa do ramo de saúde que passou da categoria de grande consolidadora para companhia com graves problemas financeiros, situação vivida por Oncoclínicas e Hapvida. Com dez cheques assinados, a Kora foi um dos nomes mais ativos na onda de aquisições de saúde entre 2020 e o início de 2022.

O resultado foi a criação de uma rede de cerca de 2,1 mil leitos, 11 mil funcionários e um corpo clínico de 10 mil médicos no Espírito Santo, Ceará, Tocantins, Mato Grosso, Distrito Federal e Goiás, com faturamento de R$ 2,4 bilhões em 2025, alta de 5,1% ante 2024.

A fatura da dezena de M&As, no entanto, chegou na forma de dívida líquida, que fechou 2025 em R$ 2,5 bilhões. Cálculos da agência de classificação de riscos Fitch Ratings apontam que a relação entre a dívida bruta e o Ebitda pré-IFRS foi de aproximadamente 8 vezes em 2025 e, em 2026, ficará em torno de 7,5 vezes – indicadores que diferem dos usados no cálculo de covenants da companhia.

No balanço do ano passado, que acabou divulgado com atraso, a Kora Saúde destacou que vem apresentando “prejuízos repetitivos” – em 2025, o prejuízo ajustado somou R$ 183,5 milhões, forte aumento ante a perda de R$ 2,7 milhões de 2024.

Além disso, a companhia registrou no fim do ano passado obrigações de curto prazo, incluindo empréstimos, debêntures e parcelamentos tributários, no montante de R$ 260,5 milhões, que “resultam em pressão sobre a liquidez e elevam o risco de descasamento entre o fluxo de caixa operacional e o serviço da dívida, sendo a principal restrição relacionada à sua estrutura de capital e ao perfil de vencimento de suas obrigações financeiras”.

Ao mesmo tempo em que estudava uma recuperação extrajudicial, a companhia vinha negociando com credores para mitigar os riscos ao caixa e aos vencimentos relevantes previstos para 2026, obtendo um standstill para diferimento da parcela da remuneração da dívida referente a março deste ano e um segundo standstill temporário do pagamento da remuneração das debêntures.

A companhia vem há anos no modo de ajuste. No fim de 2023, o CEO da Kora Saúde, Antonio Benjamim, contou ao NeoFeed que a companhia estava atuando para melhorar sua situação financeira. Entre as medidas estavam a internalização de serviços de hospitais adquiridos e a venda de imóveis. A expectativa era que as medidas injetassem R$ 700 milhões no caixa.

Por conta desses problemas, a HIG Capital apresentou, no começo de 2025, uma proposta de oferta pública de aquisição de ações (OPA) para converter o registro de companhia aberta.

Com o pedido de recuperação extrajudicial, a Kora se junta a nomes como GPA e Raízen, que apelaram para o mecanismo para ganhar fôlego financeiro e renegociar seus elevados passivos, prejudicados pelo ambiente de juros elevados.

O NeoFeed procurou a Kora Saúde para comentar o pedido de recuperação extrajudicial, mas não obteve retorno.