Protágoras (490 a.C. - 415 a.C.) sintetiza um dos pilares do pensamento ocidental na frase “o homem é a medida de todas as coisas”. Em sua concepção, não existe uma verdade absoluta universal. Tudo depende da forma como cada um de nós percebe a realidade.
A medida metafórica do filósofo grego serviu de ponto de partida para o novo título do cientista canadense Vaclav Smil, O tamanho das coisas — Uma explicação do mundo.
Na obra, Smil mostra como o tamanho define o funcionamento de quase todos os sistemas naturais e humanos. E como, muitas vezes sem percebermos, ele organiza como vivemos — e pensamos.
Autor de livros consagrados como Como o mundo funciona e Os números não mentem e um dos escritores favoritos de Bill Gates, Smil investiga também a obsessão humana por medir o mundo — “seja de maneira explícita usando unidades físicas reais, seja de maneira implícita, comparando alguém ou algo a um padrão ou a uma imagem mental”, diz.
De início, o cientista percorre as ordens de grandeza da vida. A comparação entre o tamanho das bactérias (0,0001 centímetro, no máximo) e o das baleias-azuis (até 30 metros) ilustra a tese central de Smil: mudanças de escalas não são apenas quantitativas, mas qualitativas.
Não é difícil imaginar o porquê. Se uma bactéria fosse 30 milhões de vezes maior, atingindo as dimensões de uma baleia, ela não sobreviveria — sua organização celular não daria conta de sustentar uma estrutura tão gigantesca. A mesma lógica se aplica à baleia: sua biologia, com trilhões de células e órgãos especializados, depende de um conjunto de mecanismos incompatível com a microescala.
Como destaca Smil, o tamanho impõe limites funcionais. Não se trata apenas de um número em uma régua, mas da condição que permite algo existir — ou não. E essa regra se estende a praticamente todos os processos que moldam a vida, a Terra, os avanços tecnológicos, as sociedades e as economias.
Arranha-céus com mais de 300 ou 800 metros, por exemplo, exigem soluções complexas para suportar peso, vento e vibração. Nesse caso, os benefícios não crescem linearmente com a altura. À medida que os edifícios ganham mais e mais andares, uma proporção crescente de seu volume precisa ser dedicada a estruturas de suporte, elevadores e sistemas técnicos. Assim, quanto mais alto for o prédio, menor será a sua área útil.
A lógica de eficiência e viabilidade se aplica às nações. Para explicar o peso do “tamanho” na economia e na infraestrutura, Smil recorre à escala.
As sociedades modernas operam fluxos massivos de matéria. A produção de aço, cimento e plásticos, que atinge a escala de bilhões de toneladas anuais, reflete como o gigantismo das operações industriais é fator determinante da nossa riqueza — e, em muitos casos, da nossa pobreza.
Na prática, porém, aumentar em tamanho não é só produzir mais: é transformar profundamente a economia, a sociedade e o meio ambiente.
A agricultura ilustra bem a questão e o estudo de Smil permite algumas observações de contexto. Para alimentar uma população em crescimento, foi preciso intensificar o uso de recursos — com mais fertilizantes, mecanização e energia.
Produziu-se mais comida, é certo, mas os danos ecológicos aumentaram, diante de limitações impostas pela própria natureza: o solo não se expande e a água não é infinita. E tudo isso envolve medida, tamanho, dimensão.
No sentido oposto, está a redução de componentes eletrônicos. A miniaturização permitiu conquistas “enormes” na computação e, paradoxalmente, viabilizou sistemas maiores e mais complexos — de redes de comunicação a data centers e infraestruturas digitais globais.
Agora, porém, os chips enfrentam limites físicos e energéticos: o calor gerado pelo processamento, o alto consumo de energia e os efeitos da física em escala nanométrica dificultam novos ganhos, mostrando que a redução de tamanho não pode se manter indefinidamente. Em algum ponto, diz Smil, o avanço desacelera e se estabiliza.
Até o tamanho é relativo
Há de se considerar ainda, como demonstra o cientista, que a própria noção de grandeza é relativa. O conhecimento humano depende da quantificação do mundo, mas não apenas dela. O que consideramos grande ou pequeno está relacionado também à nossa experiência sensorial.
Dessa forma, o tamanho não é apenas um dado objetivo, mas algo interpretado pela percepção de cada um de nós — o que retoma a tese de Protágoras.
Um apartamento de 90 metros quadrados, por exemplo, pode parecer espaçoso para quem vem de uma residência menor. Para quem está habituado a ambientes mais amplos, porém, tende a parecer apertado. A medida é a mesma — mas o modo como cada um percebe a realidade impacta diretamente a concepção de tamanho.
Apesar da aparente objetividade, medir pode ser mais complexo e menos preciso do que parece. Smil recorre ao “paradoxo do litoral”, um clássico entre geógrafos e matemáticos, para demonstrar: frequentemente, não existe um valor único e definitivo, já que o resultado depende dos critérios adotados na medição.
Se medirmos, por exemplo, a extensão da costa brasileira usando unidades de 100 quilômetros, o “tamanho” do litoral será inferior ao obtido com a mensuração baseada em unidades de 50 quilômetros. Quando a “régua” é menor, consideram-se detalhes antes ignorados, como as curvas das praias.
Não existe, portanto, um "comprimento real" absoluto: ele é apenas um reflexo da escala que escolhemos para observar o mundo.
Essa dificuldade de aferição torna-se mais crítica em contextos sociais e econômicos. Indicadores de PIB e de renda frequentemente não englobam, por exemplo, dados sobre a informalidade — cujas atividades ficam fora dos registros oficiais. A medição, diz Smil, “embora essencial, pode ser limitada e sujeita a imprecisões significativas”.
Entender o tamanho das coisas não é apenas um exercício matemático, mas também um caminho para compreendermos o mundo, como vivemos e pensamos — e, consequentemente, nossos próprios limites, como indivíduos, sociedade e nação.