Brasília — Com o prazo se esgotando até o fim de maio para executar o plano de capitalização entregue ao Banco Central, já se discute nos corredores do BRB a possibilidade da privatização para tentar salvar o banco estatal da profunda crise em que se encontra após a revelação do caso do Banco Master.

Privatizar o banco público de Brasília seria a última solução e uma das mais drásticas no cardápio de opções para sua recuperação financeira. O presidente Nelson de Souza vinha negando totalmente essa saída nos últimos dois meses.

Diante da falta de apetite do mercado para conceder empréstimos ao BRB ou comprar suas carteiras, o BC vem cobrando medidas concretas de capitalização do banco e a privatização já surge como alternativa, ainda que amarga, na tentativa de evitar uma futura liquidação — o mesmo fim do Master —, apurou o NeoFeed.

A gestora de ativos independente Quadra Capital, que administra portos no Espírito Santo, até assinou um acordo para compra de R$ 15 bilhões em ativos do Master sob poder do BRB, com promessa de pagamento de R$ 4 bilhões à vista.

Mas enquanto o valor não é contabilizado no caixa do banco estatal, o BC segue cobrando medidas concretas de capitalização, segundo fontes a par das negociações.

Houve inclusive reuniões recentes entre o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e técnicos da autoridade monetária, com o presidente do BRB e outros representantes do banco público de Brasília. Uma delas ocorreu inclusive no feriado do Dia do Trabalhador, na sexta-feira, 1º de maio.

A janela curta (menos de um mês), num ano eleitoral, é o principal fator que vêm pressionando o BRB a trabalhar com cenários mais radicais, impensáveis há alguns meses. Internamente, a cúpula do banco da capital federal sempre tratou como proibidas palavras como “federalização”, “privatização” e “liquidação”.

Como mostrou o NeoFeed, contudo, o risco de liquidação, antes impensável, cresceu desde a última fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, apesar de ter potencial de provocar certo risco sistêmico no mercado.

Federalizar o BRB já é uma opção que já foi descartada seguidas vezes por autoridades do governo federal. Na segunda-feira, 5 de maio, em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, engrossou o coro e reforçou que o problema do BRB é do GDF (Governo do Distrito Federal), sinalizando que um aval do Tesouro estaria fora de cogitação. O GDF é controlador do BRB.

Bancos privados como o BTG Pactual, por exemplo, segundo informações obtidas pelo NeoFeed, chegaram a admitir reservadamente que sem um aval do Tesouro, não entrariam num consórcio com outros bancos privados para conceder empréstimos ao BRB.

Nas últimas semanas, esse foi o “plano A” tentado pelo presidente do banco estatal e pela governadora do DF, Celina Leão, nas insistentes investidas ao setor financeiro em viagens a São Paulo. O governo local de Brasília e o BRB apostam principalmente nas carteiras de crédito imobiliário do DF, que é a quarta maior do País, e argumentam que elas seriam saudáveis.

Uma fonte graduada do BRB analisa que no rol de possíveis compradores do banco estariam esses mesmos bancos privados. Isso pois já foi identificado que as instituições financeiras privadas teriam maior interesse de comprar o banco público do que financiá-lo (uma operação vista como de alto risco nesse momento).

"Se as medidas [de capitalizar o banco] não forem concretizadas até o fim de maio, a solução inevitável é a privatização", revela essa fonte.

Entretanto, a privatização, que normalmente é precedida de uma intervenção pelo BC, envolveria certos ônus: possibilidade de demissão ainda que voluntária de cerca de 5 mil funcionários e ainda precisaria ser aprovada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal, em pleno ano eleitoral.

A dificuldade política de o GDF privatizar seu banco público poderia esbarrar, por exemplo, na resistência de parlamentares, muitos deles pré-candidatos à reeleição ou postulantes a outros mandatos nas urnas em outubro, em votar para autorizar um projeto de privatização. Além do mais, liquidações de bancos estaduais ou regionais não são comuns no mercado.