Veneza - Foi entre manuscritos medievais e jardins de plantas medicinais escondidos em um mosteiro suíço que o curador Hans Ulrich Obrist, diretor artístico da Serpentine Galleries em Londres e uma das figuras centrais da arte contemporânea global, começou a construir, sem perceber, sua carreira profissional.

Ainda criança, aos cinco anos, ele visitava com os pais a biblioteca da abadia de St. Gallen, na cidade de tradição monástica e dos bordados artesanais para grifes como Chanel. “Era como viajar no tempo”, relembra Obrist, em entrevista ao NeoFeed, ao descrever o contato precoce com os documentos, com o passado ainda muito vivo na memória.

Mais tarde, ele voltou ao mosteiro e encontrou a obra de Hildegarda de Bingen (1098-1179), figura do século XII cujo pensamento sobre plantas medicinais, corpo humano e visão mística dialoga e reorganiza a relação entre ciência, fé e cura.

Décadas depois, essa experiência sensorial daria forma a uma das manifestações mais relevantes da 61.ª Bienal de Arte de Veneza, La Biennale — o pavilhão da Santa Sé batizado L’orecchio è l’occhio dell’anima (“O ouvido é o olhar da alma”).

Hildegarda foi canonizada em 2012 pelo papa Bento XVI e também proclamada "doutora da Igreja", reforçando sua relevância teológica e intelectual. Sua presença, no entanto, ultrapassa o campo religioso e passa a operar como chave de leitura para o presente, inspirando o espaço do Vaticano em Veneza.

Entre política, espiritualidade e tecnologia, o pavilhão se organiza como um exercício de atenção, ecoando as palavras do papa Leão XIV, que insiste na necessidade de reaprender a escutar.

No material distribuído aos jornalistas, o Santo Padre sintetiza essa ideia ao afirmar que “a lógica do algoritmo tende a repetir o que funciona, mas a arte abre o que é possível”. Aqui, não se trata de metáfora, mas de método.

E, quando surge o convite do cardeal português José Tolentino de Mendonça, do Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé, para criar algo, Obrist novamente retorna ao tema de sua infância e tem a possibilidade de criar seu segundo projeto com o Vaticano. “Foi o encaixe perfeito. Nós acertamos em cheio”, diz. O resultado é o padiglione na Bienal veneziana.

A Santa Sé participa do evento desde 2013. É uma forma de aproximar a Igreja do debate cultural contemporâneo. Em 2025, por exemplo, sob a coordenação de Mendonça, foi inaugurado em Roma o espaço de exposições Conciliazione 5.

Iniciativas como essas mantêm viva a relação da Igreja com o universo criativo, que atravessou séculos e marcou profundamente a arte no Ocidente. De catedrais, afrescos e esculturas renascentistas às grandes encomendas dos papas a artistas como Michelangelo e Gian Lorenzo Bernini, a beleza sempre foi entendida pelo Vaticano como uma forma de expressão espiritual e de aproximação com o divino.

Do lado de fora, barulho

Na edição deste ano da Bienal, a mostra da Santa Sé acontece no Jardim Místico dos Carmelitas Descalços, um retiro espiritual histórico, localizado ao lado da maior estação de trem da cidade.

O visitante entra, coloca um fone de ouvido e faz uma caminhada contemplativa, longe da balbúrdia dos turistas, ouvindo os 24 artistas convidados para criar obras que exploram a escuta contemplativa e o silêncio. Entre eles, estão Brian Eno, Patti Smith, Suzanne Ciani, Meredith Monk, Jim Jarmusch e FKA Twigs. Um respiro necessário em meio ao caos da cidade italiana.

Segundo a organização, o conjunto dessas gravações pode, futuramente, ganhar uma edição em formato de vinil, estendendo a vida do projeto para além do tempo expositivo — a ser encerrado em 22 de novembro.

Curador do pavilhão da Santa Sé na Bienal de Veneza, Hans Ulrich Obrist é uma das figuras centrais da arte contemporânea global (Foto: Wolfgang Tillmans)

O desenho “O Redentor” faz parte de "Scivias 2.1", manuscrito da santa, baseado em visões místicas e concluído em 1151 (Foto: Divulgação)

Os trabalhos dos 24 artistas convidados pelo Vaticano estão no Jardim Místico dos Carmelitas Descalços (Foto: David Levene)

O outro espaço expositivo da Santa Sé na Bienal fica no Complexo de Santa Maria Ausiliatrice (Foto: Dicastero per la Cultura e l’Educazione)

Também como parte do pavilhão da Santa Sé, o antigo Complexo de Santa Maria Ausiliatrice é convertido em um scriptorium contemporâneo — o lugar nos mosteiros medievais destinado à produção de conhecimento.

O espaço reúne um arquivo vivo inspirado no pensamento de Hildegarda, a partir de manuscritos, livros de arte e uma biblioteca multilíngue. Há ainda uma liturgia sonora produzida pelas monjas alemãs da Abadia de Eibingen, o mosteiro beneditino fundado em 1165 pela santa.

Três ambientes do complexo abrigam a última obra do cineasta e escritor Alexander Kluge, um dos mais importantes teóricos da cultura alemã do pós-guerra e a quem se deve o título do pavilhão. A instalação de filmes e imagens dividida em doze estações foi concluída pouco antes de sua morte, em março passado.

O cenário de relativa quietude dos espaços da Santa Sé contrasta com o momento conturbado da Bienal. O júri da premiação pediu demissão poucos dias antes da abertura, em protesto contra a presença simultânea de Rússia e Israel na mostra, expondo as fissuras políticas que atravessam o mundo da arte e suas instituições.

Mais do que uma divergência pontual, o gesto evidencia a dificuldade crescente de separar produção artística e disputas geopolíticas, transformando a própria estrutura curatorial em campo de tensão simbólica.

No dia da abertura, em 6 de abril, o coletivo punk Pussy Riot realizou uma manifestação em frente ao pavilhão russo, deslocando a lógica expositiva para uma arena pública. O episódio atraiu visitantes que registravam selfies com o protesto ao fundo, enquanto outros circulavam com taças de champanhe.

Nesse contexto, o tema da Bienal, In Minor Keys, propõe uma reflexão sutil. Na música, "em tons menores"  evoca uma percepção mais intimista, introspectiva e contida do mundo. A ideia foi concebida pela camaronense Koyo Kouoh, primeira mulher africana escolhida para a direção artística do evento, que morreu em 2025, pouco antes de apresentar oficialmente seu projeto curatorial.

Assim, o evento desloca o foco do excesso visual para a dimensão da pausa e da ressonância, em diálogo com o Vaticano, que também aposta em uma experiência imersiva. Nesse cruzamento, abre-se um espaço menos estridente, em que o que importa é o que permanece em eco.