Ladispoli - Em um setor em que o luxo costuma ser medido pelo tamanho das suítes, pela tecnologia dos spas ou pela exclusividade dos serviços, o La Posta Vecchia desloca completamente essa régua. Para cima.
Em Ladispoli, a cerca de quarenta minutos de Roma, o hotel vai além do refúgio silencioso e oferece a visão de uma espessa camada de tempo, em que o azul do mar Tirreno é apenas a superfície visível de uma narrativa mais antiga.
Basta descer alguns degraus para que os salões revestidos de tapeçarias, retratos de época e peças históricas fiquem para trás. No subsolo da propriedade, sob iluminação discreta e vitrines quase invisíveis, emergem mosaicos, colunas, ânforas, pedaços de mármores e estruturas de uma vila romana erguida há mais de 2 mil anos.
Não se trata de uma reconstituição cenográfica nem de um artifício museológico, mas de achados autênticos revelados durante uma restauração conduzida pelo magnata americano do petróleo Jean Paul Getty (1892-1976), antigo proprietário da residência.
É essa combinação muito “italiana” de arqueologia, história e hospitalidade que faz do La Posta Vecchia um dos destinos mais singulares, cobiçados e caros do país. O próprio nome, “a antiga estação de correios”, já indica uma geografia de passagem, ligada historicamente aos fluxos entre Roma e o litoral.
A construção de fachada renascentista, com amplas entradas laterais por onde um dia entraram cavalos, abriga hoje 23 quartos, com diárias entre € 740 e € 3 mil.
Alguns foram renovados recentemente, como a suíte Getty, onde uma banheira de mármore rosa remete ao período em que o industrial recebia ali as suas amantes.
Cercado por jardins mediterrâneos e pelo oceano, o edifício permanece quase invisível a quem chega pela estrada. Parece mais residência privada do que hotel. E, em muitos sentidos, já foi exatamente isso.
Da Roma antiga à aristocracia moderna
Antes de se tornar um endereço do turismo de alto padrão, a propriedade pertenceu a famílias de grande poder ligadas ao Vaticano. Os Orsini foram os primeiros a ocupá-la, uma das mais antigas e influentes dinastias da nobreza romana, com presença na vida política e eclesiástica desde a Idade Média.
Mais tarde, o imóvel passou para os Odescalchi, que alcançaram projeção ainda maior no século XVII, quando deram ao mundo o papa Inocêncio XI — Benedetto Odescalchi (1611-1689). Foram séculos de muita riqueza e ostentação até que o local entrou em decadência e enfrentou um período de abandono.
A virada ocorre nos anos 1960, quando Getty adquire a propriedade com a intenção de transformá-la em um refúgio privado dedicado à sua coleção de arte e à vida social.
Durante as obras, escavações revelaram uma extensa vila marítima romana datada entre os séculos II a.C. e I d.C., ligada ao assentamento de Alsium - uma das mais antigas cidades etruscas.
Em vez de ocultar as descobertas, Getty integrou as estruturas ao edifício, criando uma sobreposição rara entre a Roma antiga e a aristocracia moderna, dois tempos coexistindo sob o mesmo teto.
Hoje, o espaço pode ser visitado pelos hóspedes e interessados, que têm acesso direto a esse patrimônio, acompanhado por guias especializados.
O luxo silencioso do La Posta Vecchia se ancora no legado histórico. Depois da morte do milionário, o empresário italiano Roberto Sciò adquiriu a propriedade (com tudo dentro) com a intenção de transformá-la em sua casa de verão para a família, e, em 1990, transformou-a em um hotel.
Administrada por sua filha, a arquiteta Marie-Louise Sciò, a propriedade funciona sazonalmente. A temporada deste ano vai até 8 de novembro. E a de 2027, de 25 de março a 7 de novembro.
Além da biblioteca com livros que pertenceram a Getty (incluindo um majestoso móvel de sacristia de madeira), lençóis brancos e toalhas de puro algodão, duas piscinas e um spa, a cozinha do hotel brilha, liderada pelo chef Andrea Barcia.
Ele colhe seus ingredientes em uma horta que fica a poucos passos dali, sempre criando pratos que define como sendo “simples, do território”. A regra é a elegância contida. No menu do Da Aurelio, peixes frescos, pastas, risotos e saladas, sempre servidos em porcelana Ginori, e uma carta de vinhos e drinques criativos.
“Temos alcachofras, aspargos, ervilhas e agretti (uma hortaliça típica da primavera italiana, de sabor levemente salgado), além de todas as verduras que normalmente encontramos na estação”, diz ao NeoFeed o chef, nascido em Padova e criado em Trentino-Alto Adige. ”Depois de duas ou três semanas, esses ingredientes deixam de estar disponíveis e passamos para outras opções.”
A formação no norte da Itália e experiências internacionais no Reino Unido, Austrália, Dinamarca e Suíça aparecem de forma discreta, mais como repertório técnico do que como assinatura.
La Posta Vecchia integra o universo da cadeia Pellicano, ao lado do Il Pellicano, em Porto Ercole, na Toscana, e do Mezzatorre, em Ischia, na Campânia.
A propriedade de Ladispoli, porém, se destaca porque construiu sua reputação sobre a história. E aprendeu a oferecer esse legado como uma experiência completa e única para quem quer viver la dolce vita em sua mais pura essência.