Roma - Depois de um momento marcado por projeção geopolítica e por leituras políticas intensas no cenário internacional, o pontificado de Leão XIV caminha para um gesto de estabilização institucional e projeção histórica. A publicação da encíclica Magnifica Humanitas é vista como a primeira grande pedra fundamental de seu magistério.
Previsto para ser lançado na próxima segunda-feira, 25 de maio, segundo fontes vaticanas ouvidas pelo NeoFeed, o documento deve aprofundar as discussões sobre como a tecnologia, especialmente a inteligência artificial, está transformando a sociedade — sobretudo as relações de trabalho e o conceito de unidade de família.
Há mais de dez anos, durante o papado de Francisco, uma comissão do Vaticano foi até o Vale do Silício, nos Estados Unidos, para entender esse movimento, quando ele ainda era chamado de “revolução industrial cognitiva”. Especula-se que o texto de Leão XIV, com cerca de 200 páginas, pretende enfrentar as “consequências chocantes” que estão por vir.
Com esse marco, o papa, matemático de formação, coloca a dignidade humana como prioridade no universo da IA.
Se antes sua autoridade moral no cenário global era tida como menos expressiva, agora, a encíclica reforça o papel de Leão XIV como uma liderança que busca orientar os rumos éticos do desenvolvimento tecnológico.
No domingo, 17 de maio, em eventos no Vaticano, ele encorajou “formas de comunicação que respeitem sempre a verdade do ser humano” e alertou para os riscos de redução da criação diante da IA. Como frisou, o objetivo não é “frear a inovação tecnológica”, mas “guiá-la” para que respeite esse valor.
A apresentação da encíclica será feita por um colegiado multidisciplinar escolhido por Leão XIV. Em meio a religiosos e teólogos, está o empresário canadense Christopher Olah, cofundador da Anthropic. A presença de uma única companhia de tecnologia entre os consultores provoca temor entre os especialistas. O receio é de que essa visibilidade possa ser instrumentalizada para práticas de social washing.
Sediada em São Francisco, a startup dona do chatbot Claude se tornou uma das principais vozes do Vale do Silício na defesa de uma IA mais segura, transparente e alinhada a princípios éticos, o que a aproximou das preocupações da Santa Sé.
As pesquisas de Olah em interpretabilidade em IA buscam tornar os modelos mais auditáveis e compreensíveis - uma postura que colocou a companhia em rota de colisão com o governo de Donald Trump.
Influência global
Para entender o alcance da escolha do tema IA por Leão XIV, é preciso compreender o que é uma encíclica dentro da tradição católica.
Elaborada em um processo coletivo, com contribuição de especialistas, trata-se de um dos mais importantes registros papais. Embora seja dirigida aos bispos, tem alcance global e serve como orientação doutrinária, moral e social sobre temas centrais da sociedade em diferentes épocas.
“Uma encíclica não é um documento apenas para católicos; ela inspira diretrizes ao longo dos tempos, funcionando como referência ética e política em momentos de transformação histórica”, diz Lafayette Pozzoli, professor de Filosofia do Direito na PUC São Paulo e pós-graduado pela Universidade La Sapienza, de Roma, ao NeoFeed.
A primeira referência é a Rerum Novarum (Das coisas novas), publicada por Leão XIII em 1891, em plena Revolução Industrial. Ela nasce em um cenário de forte exploração do trabalho fabril, êxodo rural e ausência de proteção social, introduzindo conceitos como a dignidade do trabalhador e o “bem comum”.
Esses princípios, segundo Pozzoli, acabaram por influenciar a formação de legislações trabalhistas e a própria cultura jurídica em diferentes países.
Em seguida, surge a Pacem in Terris (Paz na Terra), publicada em 1963 pelo papa João XXIII, em meio à tensão da Guerra Fria e à crise dos mísseis de Cuba. A encíclica teria contribuído para consolidar a linguagem internacional dos direitos humanos, dialogando com a evolução dos pactos internacionais firmados no pós-guerra e com a incorporação desses princípios às constituições nacionais.
Outro exemplo é a Populorum Progressio (Do progresso dos povos), de 1967, do papa Paulo VI, na qual o desenvolvimento é definido como “o novo nome da paz”. O texto influenciou a formulação de políticas de desenvolvimento, o planejamento estatal e a criação de comissões de Justiça e Paz em diversos países — com destaque para sua atuação no Brasil durante a ditadura militar.
Mais recentemente, em 2015, Laudato Si’ (Louvado sejas), do papa Francisco, tornou-se um marco global sobre sustentabilidade ao aproximar ecologia, desigualdade e responsabilidade coletiva pelo planeta, dialogando com agendas multilaterais como o Acordo de Paris.
Proteção do futuro
Para além da dimensão doutrinária, a aproximação entre o Vaticano e sistemas algorítmicos também é vista como um movimento estratégico de presença cultural da Igreja no século XXI.
Para o publicitário e empresário Nizan Guanaes, convidado pelo Vaticano para falar sobre o tema em um evento em junho, a decisão do Santo Padre de dedicar uma encíclica à IA confirma que “a inteligência artificial deixou de ser assunto de tecnologia e virou assunto humano e, portanto, espiritual e ético”, diz ele em conversa com o NeoFeed.
Guanaes vê a nova fronteira como uma extraordinária ferramenta de aproximação. Ele relembra que Jesus disse: “Ide e anunciai”. Cristo foi um comunicador moderno. Ele se expressava por meio de parábolas de conteúdo simples, emocional e compreensível para todos.
A esfera cristã sempre foi uma enorme plataforma de expressão, diz. “Talvez seja a maior oportunidade da Igreja desde a Bíblia impressa”, afirma Guanaes.
Ele avalia que o desafio do Vaticano evitará tanto um tom catastrófico como uma postura ingênua diante da inovação. A principal questão contemporânea, argumenta, já não é mais “o que esses sistemas conseguem fazer?”, mas “o que eles farão conosco?”.
O atual pontificado, segundo o empresário, olha para frente sem abandonar tradições: “A Igreja costuma ser vista como guardiã do passado, mas essa nova fronteira digital pode dar a ela a oportunidade inédita de ser também protetora do futuro”. Salvaguarda hoje e amanhã da Magnífica Humanitas , a “magnífica humanidade”.