Em um momento em que todos os bancos enfrentam pressão decorrente dos juros altos, há uma cobrança maior pela qualidade dos ativos. E o Nubank passou a ser observado com lupa pelos analistas justamente quando embarca em um processo de expansão global.
O banco fundado por David Vélez ficou sob o microscópio do mercado depois de reportar, no primeiro trimestre, um aumento de 75,7% nas provisões em relação ao mesmo período do ano passado, para US$ 1,7 bilhão. No período, a inadimplência de 15 a 90 dias cresceu 0,9 ponto percentual, com o NPL alcançando 5%.
Esses avanços ocorreram em um período no qual o crédito acelerou: o portfólio, que inclui o volume de empréstimos e de cartões de crédito, cresceu 40% no trimestre, para US$ 37,2 bilhões.
Para o Citi, os resultados mostram que o Nubank está priorizando o crescimento e a expansão da receita financeira líquida de juros (NII) em detrimento da minimização do custo do risco, algo que pode prejudicar as margens. O banco cortou o preço-alvo de US$ 22 para US$ 18, reiterando a recomendação de compra.
"Em 2026, o Nubank demonstra compromisso em acelerar o crescimento da carteira de empréstimos, mesmo em um cenário macroeconômico mais desafiador. Espera-se que 2026 seja um ano exigente para a qualidade dos ativos, com o custo do risco apresentando tendência de alta em relação a 2025", diz trecho do relatório.
O Bank of America (BofA) foi mais longe e decidiu rebaixar a recomendação das ações de neutra para venda, além de cortar o preço-alvo de US$ 16 para US$ 10. Para o BTG Pactual, que manteve a recomendação de compra e o preço-alvo em US$ 21, as preocupações com a qualidade do crédito não desaparecerão tão cedo.
A avaliação é de que o Nubank pode precisar de dois ou três trimestres de boa qualidade de ativos e de margens de intermediação financeira (NIMs) ajustadas ao risco em trajetória de melhora para "convencer" os investidores.
"Por outro lado, se a qualidade dos ativos decepcionar e/ou o crescimento desacelerar — o crédito não é linear e ajustes são necessários durante o processo —, as preocupações aumentarão e haverá o risco de muitos investidores simplesmente 'jogarem a toalha'", escreveram os analistas do BTG.
Foi nesse cenário já pressionado que, na noite de segunda-feira, 1º de junho, o mercado recebeu a notícia da troca de CFO - e ela não caiu bem. As ações chegaram a recuar mais de 11% na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) nesta terça, 2 de junho, fechando o dia com queda de 8,16%, a US$ 11,93. No ano, os ativos acumulam quase 30%, levando o valor de mercado a US$ 58 bilhões.
Guilherme Lago deixará o banco e será substituído por Rob Livingston, que chega da Visa, onde ocupava o cargo de CFO para a América do Norte. Ele assume a partir de 13 de julho. A chegada de Livingston faz parte dos esforços da instituição para ganhar escala global, estratégia que também resultou na contratação de Eric Young para o cargo de CTO e de Kim Farrell como CMO.
Mas o mercado leu o movimento com desconfiança. Para o BofA, embora Livingston possua um currículo robusto, o "timing da transição aumenta a incerteza, especialmente porque o Nubank está atravessando uma fase mais desafiadora para concessão de crédito no Brasil e buscando expansão para México, Colômbia e Estados Unidos".
Os analistas do Safra foram na mesma direção. "O novo CFO global, embora traga um currículo internacional sólido, não é especialista no mercado brasileiro. Com o sucessor do CFO do Brasil ainda não nomeado, vemos o anúncio como um fator negativo, por ora, já que ocorre em um momento em que o Brasil permanece central para o investimento, principalmente porque os investidores continuam monitorando uma possível piora nas tendências de qualidade dos ativos", diz trecho do relatório. O Safra tem recomendação de compra e preço-alvo de US$ 22.
Para mitigar parte das preocupações, o Nubank anunciou a criação do cargo de CFO para a operação brasileira, e Lago permanecerá como conselheiro especial da diretoria executiva da Nu Holdings e de seu comitê de auditoria e riscos.
Ainda assim, o banco precisa demonstrar melhora no Brasil, onde se tornou a maior instituição financeira privada em número de clientes, com 112 milhões. Por ora, as dúvidas seguem maiores do que as certezas.