Brasília — Com apenas três anos de funcionamento e eleita a melhor cozinha da capital federal pela revista Encontro, uma das premiações mais tradicionais da cidade, o Marie Cuisine vem se consolidando como o “novo Piantella”, em referência ao lendário restaurante que, durante quatro décadas, serviu de cenário para os bastidores da política brasileira.

Símbolo da gastronomia brasiliense, o Piantella funcionava como uma espécie de extensão dos Três Poderes, principalmente depois da redemocratização. Um lugar onde deputados, senadores, ministros, assessores e empresários costuravam articulações, fechavam acordos e trocavam informações. Mas, afogado em dívidas, o restaurante faliu há dez anos, após uma última tentativa de recuperação liderada pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.

“O Piantella era 100% político”, diz ao NeoFeed o empresário paulistano Carlos Rodrigues, sócio do grupo Famiglia Papà, dono do Marie Cuisine. “Aqui é meio a meio”, completa Carlão, como é conhecido — frisando não ser politicamente nem de direita nem de esquerda.

Às terças e quartas-feiras, quando os trabalhos no Congresso atingem seu ápice, parlamentares, autoridades e lobistas dominam o salão do Marie, especialmente no almoço. Por lá circulam integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), do Superior Tribunal de Justiça (STJ), da Câmara dos Deputados, do Senado, governadores e, em menor número, ministros de Estado.

O ex-presidente do STF, Luís Roberto Barroso, por exemplo, era presença assídua no local. O restaurante já recebeu outros ministros da Corte, como Alexandre de Moraes, André Mendonça, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Cármen Lúcia. Entre os políticos, passaram pelo local nomes como Fernando Haddad e Helder Barbalho.

O NeoFeed também encontrou no restaurante Celso Amorim, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, o prefeito de Recife e pré-candidato a governador de Pernambuco, João Campos, além de deputados federais de diferentes Estados do Nordeste.

Entre meio-dia e uma hora da tarde, é comum ver várias pessoas em pé, com dificuldade de se sentar à sua mesa, dada a quantidade de políticos para cumprimentar e dar o popular “tapinha nas costas”.

Os políticos costumam ocupar a área principal do restaurante, um ambiente amplo, aberto e iluminado por janelões que permitem a visão de todo o salão. No Piantella, a lógica era inversa: a fachada fechada impedia que se visse, do lado de fora, o que acontecia lá dentro.

Além do salão principal, as grandes autoridades também batem ponto na Salle des Chefs — a “Sala dos Chefes”, uma área reservada no andar de cima, com entrada exclusiva, capacidade para 30 pessoas e uma bela vista para a arborizada quadra residencial da 103 Sul, na Asa Sul, bairro nobre de Brasília.

Entre o passado e o presente

“No começo, o Marie atraía pelos pratos e o serviço”, lembra Carlão. “Hoje virou ponto de encontro. As pessoas não vêm só para comer — quer ver gente, vem para cá.” À noite, o público é bem variado, atraído especialmente pelos jantares ao som de jazz. O nome da casa é uma homenagem à filha do empresário.

E essa é outra diferença em relação ao Piantella. Quando o restaurante, fundado em 1974 pelo mineiro Marco Aurélio Costa, viveu seu auge, o cenário gastronômico brasiliense era outro — muito mais limitado.

Carlos Rodrigues, mais conhecido como Carlão, é um empresário paulistano sócio do grupo Famiglia Papà, dono do Marie Cuisine (Foto: Raimundo Sampaio)

Os políticos costumam frequentar o restaurante franco-italiano na área comum, ampla e cercada por janelões, onde pode-se ver e ser visto (Foto: Raimundo Sampaio)

O chef responsável pela gastronomia do Marie é Manuel Mendonça e, por lá, os pratos variam de R$ 109 a R$ 329 (Foto: Raimundo Sampaio)

A partir dos anos 2000 e, sobretudo, da década de 2010, a cidade passou a reunir uma oferta mais ampla e sofisticada de casas. Em um mercado mais competitivo, o Marie divide espaço com outros endereços disputados pela elite política e empresarial da capital, como o Lake's Francisco e o Trattoria do Rosário.

O contexto político que ajudou a transformar o Piantella em um "anexo" do Congresso Nacional também era outro. Nas décadas de 1980 e 1990, quando celulares, aplicativos de mensagens e videoconferências ainda não faziam parte da rotina, boa parte das negociações, alinhamentos e trocas de informações dependia quase exclusivamente de encontros presenciais.

Ainda assim, mesmo com todas as mudanças das últimas décadas, o Marie conserva parte desse legado ao reunir, sob o mesmo teto, alguns dos protagonistas da vida pública brasileira.

Muito além da comida

Antes de empreender, Carlão foi garçom da rede de hotéis Sofitel, em São Paulo, e de um navio de cruzeiro na Itália, além de ter trabalhado como maître nos restaurantes Fasano e Gero. Hoje, ele divide o comando do grupo Famiglia Papà com o pai e com os chefs confeiteiros Lily Araújo e Théo Marques.

O grupo opera seis marcas em três cidades e prepara novas expansões. Em agosto, inaugura uma unidade em Teresina e, para novembro, planeja lançar um novo restaurante italiano em Brasília. No ano passado, a empresa inaugurou em São Paulo o Marie Bistrô. Mas o empresário quer mais: “Meu sonho é entrar no Rio, no Leblon ou em Ipanema”.

A estrela do portfólio, no entanto, é o Marie da capital federal.  No cardápio da casa brasiliense, sob o comando do chef Manuel Mendonça, encontram-se risotos, frutos do mar e massas tradicionais italianas, bem como clássicos da culinária francesa. O nhoque trufado é de autoria do próprio Carlão. Os preços dos pratos principais variam de R$ 109 a R$ 329.

Embora o restaurateur destaque a cozinha e o serviço como os pilares do sucesso do restaurante, a movimentação entre as mesas também ajuda a explicar o sucesso do Marie de Brasília.

Dez anos depois do fim do Piantella, a cidade parece ter encontrado um novo endereço para seus encontros, conversas e articulações. Ainda que em um ambiente mais aberto, mais moderno e menos exclusivo, o Marie começa a desempenhar um papel que vai além da gastronomia. Afinal, na capital do poder, alguns restaurantes servem mais do que comida.