Ao longo dos 87 anos de capital aberto da cervejaria holandesa Heineken, a posição de CEO global nunca foi ocupada por um executivo de fora da operação, seguindo a tradição de promover e dar espaço aos funcionários mais longevos e experientes de dentro da própria companhia. Mas, na visão dos acionistas da Heineken, isso precisa mudar.
Dois dos 15 maiores acionistas da companhia disseram explicitamente ao Financial Times (FT) que esperam que a Heineken deixe de lado essa prática e contrate alguém com maior capacidade de mercado para ajudar a reverter a situação da cervejaria, que perdeu seu CEO, Dolf van den Brink, no fim do mês passado. A previsão era de que ele ocupasse o cargo por mais dois ou três anos.
Julien Albertini, gestor de portfólio da First Eagle Investments, com sede em Nova York, afirmou ao FT que a saída de Van den Brink, apesar de lamentável, é uma oportunidade para que o conselho de administração contrate alguém com “novo olhar”. “Minha preferência seria talvez trazer alguém de fora”, disse.
Daniel J. O’Keefe, da Artisan Partners, tem a mesma visão. Ele, porém, tem uma visão mais pessimista sobre o tipo de candidato que a Heineken pode atrair, temendo que não seja ninguém excepcional.
“Eles são uma empresa holandesa familiar, então terão de contratar alguém que seja holandês e... não vão pagar o que seria necessário para um executivo realmente talentoso e excepcional”, disse O’Keefe ao FT. “Estamos destinados a conseguir alguém relativamente mediano, o que tem sido a história da empresa”.
Essa batalha para mudar a tradição da companhia pode não ser simples. Atualmente, o conselho de oito cadeiras tem cinco membros da família Carvalho-Heineken, que fundou o negócio e o controla até hoje.
Dentro da companhia, os dois principais candidatos para o cargo de CEO são o holandês Jacco van der Linden, presidente das operações da Heineken na Ásia-Pacífico, e o britânico Glenn Caton, que ingressou na empresa há dois anos e lidera as operações europeias da cervejaria. Essas opções preocupam alguns membros do conselho.
Essa incerteza dentro da companhia não é positiva para as ações. Desde o começo do ano, os papéis da companhia registraram queda de cerca de 3,8% no acumulado do ano. Na semana passada, o Deutsche Bank rebaixou sua recomendação para as ações de compra para neutra, citando as incertezas na liderança como uma das razões.
No início do ano, o Citi também avaliou a situação da companhia como “delicada”. Na visão do banco, a indústria enfrenta um momento de volumes fracos, que traz ainda mais pressão para o negócio.
Além disso, o banco afirma que há uma questão de preços a ser endereçada, já que a Heineken passou a normalizar os valores somente em julho de 2025, após congelar reajustes a partir de abril de 2024.
Nos resultados financeiros, os sinais são de estagnação. No primeiro trimestre de 2026, a cervejaria registrou queda no volume, entre 1% e 3%, influenciada justamente pelo menor patamar de vendas. Ao mesmo tempo, a receita líquida registrou leve crescimento de 2,5%, atingindo € 6,7 bilhões.