Alguém que não acompanha a história econômica, que nunca prestou atenção em como funcionam os bancos centrais, talvez nem entenda bem o tamanho do que representou Alan Greenspan, falecido na segunda-feira, 22 de junho, aos 100 anos (06/03/1926 - 22/06/2026).

Mas quem minimamente conhece a economia das últimas décadas sabe claramente que estamos falando de um dos personagens mais influentes que o mundo financeiro já teve. Foram quase 19 anos à frente do Federal Reserve, de 1987 a 2006, atravessando quatro presidentes americanos, de Reagan a George W. Bush.

Não era um burocrata qualquer. Era o homem mais observado das finanças mundiais, aquele que mexia com Wall Street que o acompanhava com lupa a ponto de tentar interpretar oque queria dizer se sua mala estivesse maior ou mais cheia que o usual.

A verdade é que o mercado analisava cada frase dele atrás de sinais. Em dezembro de 1996, com apenas duas palavras, “exuberância irracional”, ele colocou o mercado em parafuso. Esse era o poder dele, apelidado de “Maestro” e de “Oráculo”.

É difícil entender, olhando de fora, como ele podia concentrar tanta capacidade de influenciar a percepção dos agentes, sejam eles investidores, empresários ou pequenos poupadores do mundo inteiro. Mas o mérito maior de Greenspan não estava na mística. Estava em ter enxergado o que quase ninguém via.

Lá na segunda metade dos anos 90, enquanto meio mundo achava que a economia americana ia superaquecer e cobrava aumento de juros, ele apostou exatamente no contrário. Percebeu antes do mercado, antes de muito economista, que os ganhos de produtividade puxados pela evolução tecnológica estavam mudando o jogo.

O raciocínio foi simples, mas surpreendente: se as empresas produziam mais com os mesmos recursos, a economia podia crescer mais rápido sem gerar pressões inflacionárias. E sem este tipo de pressão, não havia motivo para apertar os juros.

Foi o oposto do que mandava a tradição dos banqueiros centrais, que tendem a subir os juros assim que o desemprego dá algum sinal de maior exuberância. Greenspan segurou os custos de empréstimo lá embaixo e observou o desemprego despencar sem a inflação subir junto, desafiando o que os economistas achavam que era o desemprego de equilíbrio. Era a aposta de quem entendeu a economia nova antes dela ficar óbvia para todo mundo.

Claro que nem tudo foram flores. Depois que ele saiu, a crise de 2008 manchou o seu currículo em alguma medida, ele foi um grande defensor da desregulamentação do sistema financeiro oque acabou gerando uma inimaginável alavancagem das instituições.

Muita gente o responsabilizou por ter segurado os juros baixos por tempo demais, inflando a bolha imobiliária que estourou feio, mas à desregulamentação teve um papel importante nisso. Ficou marcado tanto como gênio da política monetária quanto como o regulador que foi flexível demais, celebrado pelo boom que ajudou a criar e cobrado pela quebra que não soube evitar.

Será que essa é a contradição inevitável de quem toma decisões grandes? Será que o mesmo instinto de ler a realidade antes dos outros, que o tornou lendário nos anos 90, foi o que o levou para os riscos que se acumulavam no sistema?

O que parece, na verdade, é que a maior lição de Greenspan não está nem no acerto histórico nem no erro final. Está na coragem de olhar para os números e enfrentar o que eles dizem, mesmo quando isso contraria o consenso, mesmo quando a tradição manda o contrário. Foi exatamente isso que ele fez nos anos 90. E talvez tenha sido a ausência disso, a leitura tardia do que os dados já mostravam, que pesou contra ele em 2008.

Ativo até o fim, em janeiro deste ano ele ainda assinou uma declaração ao lado de outros ex-dirigentes em defesa da independência do banco central. Esse era o homem que, brincando com seu jeito proposital de falar enrolado, certa vez disse a um comitê do Congresso: se você entendeu o que acha que eu disse, talvez não tenha percebido que o que ouviu não foi o que eu quis dizer.

Fica a despedida e fica a pergunta que todo formulador de política econômica deveria carregar: estamos de fato lendo a realidade, ou apenas repetindo a tradição? Porque, no fim das contas, a diferença entre o “Maestro” dos anos 90 e o regulador cobrado em 2008 talvez tenha sido exatamente essa.

*Luiz Fernando Figueiredo é sócio e conselheiro da Jubarte Capital. Antes, foi chairman da Jiva Mauá. Esteve como diretor do Banco Central do Brasil entre 1999 e 2003