Após cumprir um longo e conturbado processo de reestruturação e simplificação das suas operações, e de anunciar recentemente importantes mudanças em sua governança, a Natura vinha dando sinais de que estava, enfim, no caminho para reconquistar a confiança dos investidores.
Entretanto, na manhã desta quarta-feira, 8 de julho, a empresa de cosméticos reforçou a mensagem de que ainda há turbulências a serem superadas nessa jornada, ao divulgar um fato relevante com números preliminares do segundo trimestre de 2026. O balanço consolidado será divulgado em 10 de agosto.
Uma das linhas há tempos sob os holofotes do mercado, um indicador, em especial, chamou a atenção. A Natura projetou que sua receita líquida consolidada no período fique entre R$ 5,1 bilhões e R$ 5,2 bilhões, o que vai implicar numa queda, em base anual, entre 9% e 10%.
A empresa atribuiu essa estimativa a uma conjunção de fatores, composta por um cenário de consumo desaquecido no Brasil e por ajustes operacionais internos, numa combinação que, como resultado, pressionou a receita líquida do período em uma “magnitude maior do que a inicialmente prevista”.
Se essa conta terá um peso relevante no balanço da Natura, há quem veja dois lados nessa moeda. a partir da leitura das entrelinhas do comunicado. Mesmo reconhecendo que, à parte do cenário macro e dos fatores externos que não controla, o grupo tem uma parcela de responsabilidade nessa equação.
“Muito desse impacto vem de investimentos realizados no trimestre, que não foram feitos antes ou por falta de recursos ou capacidade de gestão disponível”, diz um gestor que acompanha o papel, ao NeoFeed. “Mas eram investimentos necessários para o crescimento futuro e que cobram um pedágio no curto prazo”.
No fato relevante, a Natura elencou quais foram esses componentes, sendo que parte deles já vinha sendo comunicada ao mercado. A começar por questões de logística, produção e tecnologia, que acabaram por afetar a cadeia de abastecimento da operação.
O pacote incluiu a estabilização do novo sistema de planejamento integrado, implantado e a atualização do sistema de gestão para a plataforma da alemã SAP, além da realocação de volumes da antiga fábrica da Avon em Interlagos, em São Paulo, fechada recentemente, para a unidade de Cajamar.
“O sistema de planejamento era obsoleto e o sistema de gestão anterior já tinha 25 anos”, afirma um outro gestor. “Quando tudo isso entrou em operação, eles viram que havia parâmetros fora do ar, o que impactou no tempo de estabilização e afetou a cadeia de abastecimento”.
Essas iniciativas levaram a uma escassez de produtos que, por sua vez, somada à desaceleração no consumo de cosméticos, gerou uma queda no volume de vendas no canal de consultoras da Natura. Como uma resposta a esse cenário, o grupo implantou políticas de incentivos para essas vendedoras.
A agenda atribulada do período também passou por medidas para estabelecer uma relação mais igualitária de preços e regras comerciais entre os diferentes canais da operação – das consultoras e do e-commerce aos marketplaces e lojas físicas.
Em paralelo, a Natura promoveu no período a transição de 100% dos contratos de franquia para um modelo com base nas vendas sell-out. Até então, uma parcela relevante dessa base seguia o formato adotado para as consultoras, já que muitas delas estão por trás das cerca de mil lojas da rede.
Como um último elemento desfavorável nessa balança – e à parte das iniciativas da empresa – a Natura citou o descasamento tributário de tributos, com efeito concentrado no segundo trimestre, decorrente de mudanças no imposto sobre consumo no estado de São Paulo.
Ao destacar tais impactos, a companhia também ressaltou que vem executando uma série de medidas para contornar os desafios desse contexto, o que inclui frentes como a reconfiguração da cadeia de abastecimento.
Um outro esforço passa pela expansão nos canais digitais, cujo exemplo mais recente foi a entrada da marca Avon no marketplace da Shopee. A empresa também informou que irá retomar o ritmo acelerado de abertura de lojas – em 2025, foram 76, contra a média anterior de aproximadamente 200 unidades.
Em uma última linha, a rentabilidade, também no alvo dos investidores, o grupo não citou dados específicos, mas anunciou que espera uma expansão da margem Ebitda no segundo trimestre, em função de menores despesas associadas à sua reestruturação.
Saldo positivo?
No saldo desses dois lados da moeda, o fato de a Natura ter tomado a decisão de antecipar parte da “má notícia” ao mercado, algo que não tinha feito antes, também é visto como um sinal positivo e que reforça uma postura que passou a ser adotada há cerca de um ano pelo grupo.
O marco dessa mudança veio com o Investor Day de 2025 da companhia, realizado em sua sede em Cajamar, após um longo período sem encontros presenciais com analistas. Desde então, o grupo passou a dar mais transparência sobre seus passos, algo que vinha sendo cobrado pelo mercado.
“Eles estão dizendo, sem meias palavras, que vão decepcionar”, afirma um dos gestores ouvidos pelo NeoFeed. “E, por mais que possa parecer uma má notícia, são investimentos que, de novo, precisavam ser feitos e eles estão ressaltando o que estão fazendo para corrigir essas dificuldades”.
No caminho para recuperar a confiança do mercado, a Natura ganhou recentemente um aliado de peso, como parte de uma reestruturação que incluiu um novo acordo de acionistas e a transição dos fundadores Guilherme Leal, Pedro Passos e Luiz Seabra para um comitê consultivo.
O reforço em questão é a Advent, na esteira de um acordo firmado com esse bloco de controladores no fim de março, que previa que a gestora americana de private equity alcançasse uma participação equivalente a no mínimo 8% e, no máximo, 10% do capital da Natura, em até seis meses.
Esse acordo começou a ser cumprido na semana passada, com o anúncio de que a Advent atingiu, na prática, o piso do que foi combinado, por meio de uma fatia de 6,6% detida pelo Lotus Fundos de Investimento em Participações, gerido por ela, e uma posição adicional de 1,4% em derivativos.
Segundo os termos acordados entre as duas partes, a Advent terá o direito de indicar dois membros adicionais para o novo conselho de administração da Natura, formado e aprovado em abril desse ano. Agora, presidido por Alessandro Carlucci, que já foi CEO da empresa entre 2005 e 2014.
O próximo passo será a convocação de uma assembleia geral extraordinária para aprovar a chegada desses novos integrantes ao board. E, ao que tudo indica, o papel da Advent, conhecida por sua bagagem em reestruturações, não se limitará ao colegiado.
Conforme apurou o NeoFeed, os representantes da gestora americana deverão ter um papel relevante no recém-formado comitê de performance estratégica da companhia, como parte do processo recente de reformulação da sua governança.
Em um indício de que todo esse pacote está sendo bem recebido pelo mercado, as ações da Natura registravam alta de 5,84% por volta das 12h45, após abrirem o pregão em queda de mais de 2%. No ano, os papéis acumulam uma valorização de 14,3%, avaliando a companhia em R$ 11,7 bilhões.