Enquanto os embates entre Estados Unidos e China escalam também no plano da inteligência artificial (IA), um dos principais representantes americanos nessa corrida marcou posição ao defender uma mudança na postura que Washington tem sinalizado em relação a esses rivais.

Quem adotou esse discurso foi Mark Zuckerberg. Em entrevista concedida nesta semana ao Financial Times, o cofundador e CEO da Meta disse que o governo americano não deve bloquear o uso de modelos chineses de IA, pois essa abordagem não seria uma “solução eficaz”.

Na mesma conversa, Zuckerberg também afirmou que as empresas americanas deveriam identificar “sistematicamente” os gargalos e obstáculos para avançarem na competição com as rivais chinesas nessa arena.

As declarações acontecem em um contexto no qual Donald Trump e seus pares ameaçam banir a inteligência artificial chinesa de ponta nos EUA, a partir de uma série de acusações contra concorrentes do país da Grande Muralha.

Na semana passada, por exemplo, Scott Bessent, secretário do Tesouro americano, afirmou que sanções estavam sendo consideradas para laboratórios chineses que “ultrapassassem a linha do roubo de propriedade intelectual”.

Como parte dessa agenda, Zuckerberg e outros nomes de peso por trás das big techs americanas participaram de um grande debate público com representantes do governo americano em Washington na terça-feira, 28 de julho.

Essa discussão ganhou fôlego neste mês, quando a startup chinesa Moonshot AI liberou o download público do seu modelo de IA, batizado de Kimi K3, cujas capacidades estão se aproximando do poder de fogo da OpenAI e da Anthropic, as principais competidoras americanas nesse páreo.

De acordo com nomes do alto escalão do governo Trump, há provas de que a Moonshot AI treinou, em larga escala, o modelo em questão a partir de plataformas de rivais americanas e de um processo técnico chamado de destilação.

Em outro trecho da entrevista, Zuckerberg defendeu o que seria uma visão de “IA para todos”, ao reiterar seu apoio aos modelos abertos de inteligência artificial, que podem ser personalizados e customizados pelos usuários, um formato bastante disseminado pelos desenvolvedores chineses.

Partindo dessa premissa, ele também alertou para o risco de a IA ficar centralizada nas mãos de alguns poucos grupos poderosos. Nas entrelinhas, essas afirmações foram lidas como uma crítica justamente a nomes como OpenAI e Anthropic, que dominam o mercado com modelos proprietários e fechados.

Ao mesmo tempo, o “manda-chuva” da Meta, que tem cortejado Trump desde o início do seu segundo mandato na Casa Branca, falou sobre como os Estados Unidos poderiam regulamentar a chegada de novos modelos ao mercado.

Em sua avaliação, tanto a revisão por pares da indústria como a avaliação podem ser positivas para o setor se “realizadas de forma adequada por pessoas criteriosas”. Entretanto, ele alertou que as principais empresas de IA não devem exercer influência excessiva nesse cenário.

“Sempre existe a questão da captura regulatória quando um grupo de empresas com seus próprios interesses realiza a revisão por pares”, observou. “Será que os laboratórios de ponta vão querer um modelo de código aberto para ter sucesso? Acho que houve alguns sinais contraditórios sobre isso”.

Nessa direção, a expectativa é de que o governo Trump anuncie ainda nesta semana um plano voluntário para que os desenvolvedores de modelos de IA submetam suas plataformas para testes antes do lançamento.

A busca por um consenso em torno de um sistema de avaliação de novos modelos acontece depois de a Casa Branca ter restringido, em junho, a tecnologia mais recente da Anthropic, em função de receios de que a sua capacidade de detectar vulnerabilidades de segurança pudesse afetar o sistema financeiro.

Nesse ponto, Zuckerberg disse que impor restrições às ferramentas mais avançadas também não era a resposta certa no que diz respeito à cibersegurança, já que essas plataformas também poderiam ajudar as empresas a encontrar maneiras de identificar e corrigir eventuais brechas.

Aqui, ele colocou, de novo, a OpenAI indiretamente na conversa, ao fazer referência a um incidente registrado na semana passada, quando a empresa informou que alguns de seus modelos mais avançados de IA escaparam do controle humano e invadiram sistemas de uma startup.

“Vimos algumas violações de segurança em grandes modelos em que, basicamente, a empresa que sofreu a invasão não tinha acesso aos modelos de ponta fechados porque o acesso era restrito. Então, eles recorrem a modelos de código aberto para corrigir os problemas”, afirmou.

Em meio a essas menções a rivais, a Meta e Zuckerberg vêm investindo bilhões de dólares no desenvolvimento do que ele chama de “superinteligência pessoal” e se concentrado principalmente na construção de modelos abertos que, no entanto, têm ficado aquém dos modelos concorrentes.

Mais recentemente, no início desse mês, a companhia também lançou seu próprio modelo fechado, o Muse Spark. Embora o movimento tenha aberto uma nova fonte de receita, a empresa citou questões de segurança para justificar o investimento nesse formato.

Nesta quarta-feira, 29 de julho, a Meta divulga seu balanço do segundo trimestre após o fechamento do pregão na Nasdaq. E, dentro desse calendário, o volume de investimentos destinados à inteligência artificial é um dos principais pontos de atenção dos investidores. Bem como o retorno desses aportes.

À espera dos resultados, as ações da companhia registravam queda de 1,12% por volta das 15h40 (horário local), avaliando a empresa em US$ 1,48 trilhão. No acumulado de 2026, os papéis recuam 13,7%.