A resiliência dos mercados globais diante da escalada das tensões no Oriente Médio no primeiro semestre surpreendeu analistas e economistas, diante dos poucos impactos sobre as atividades dos países e dos mercados.
Mas, para Marcela Rocha, CIO da Avenue Securities, à medida que a guerra entre Estados Unidos e Irã se estende, o grau de convicção em relação ao cenário global para os próximos meses diminui, forçando uma mudança de rota nos investimentos.
Após um primeiro semestre em que mantinha uma visão mais construtiva para as ações americanas, a Avenue decidiu reduzir apostas direcionais e adotar uma postura mais neutra em suas carteiras.
“Estruturalmente, a gente não tem hoje convicção tática em nenhuma classe de ativos”, disse Rocha na quarta-feira, 12 de agosto, em encontro com jornalistas. “Preferimos ficar neutros em tudo dentro da nossa carteira estrutural.”
Segundo ela, a carteira recomendada continua diversificada entre ações, renda fixa, ativos alternativos e commodities, além de manter exposição a diferentes regiões do mundo. A mudança está menos na composição e mais no nível de confiança sobre qual ativo deverá liderar os retornos nos próximos meses.
Isso porque o cenário está cada vez mais incerto. Até agora, de acordo com a CIO da Avenue, os mercados pouco sentiram os efeitos da guerra, graças a uma série de “amortecedores” que suavizaram o choque provocado pela alta do petróleo.
Entre eles estão o uso das reservas estratégicas da commodity pelos países, sobretudo a China, e medidas para limitar o repasse dos combustíveis aos consumidores. Os investimentos em inteligência artificial (IA) também têm funcionado como um importante motor de crescimento, especialmente nos Estados Unidos, compensando parte das preocupações geopolíticas.
Mas Rocha destaca que esses amortecedores, sobretudo aqueles relacionados ao petróleo, têm limites. “Quando a gente lê tudo sobre choques de oferta, se esse conflito não for resolvido e as rotas de escoamento continuarem prejudicadas, a consequência vai aparecer na economia em algum momento”, disse.
O principal fator de preocupação não é necessariamente a intensidade do choque, mas sua duração. O Brent, que em determinados momentos chegou a ser projetado acima de US$ 120 por barril em cenários mais extremos, permanece em níveis significativamente superiores aos observados, desgastando os mecanismos de proteção adotados.
“Os governos podem ajudar, as reservas podem ser usadas, mas tudo tem limite”, afirmou Rocha, destacando que estoques estratégicos e mecanismos de compensação fiscal não são infinitos.
A situação faz a Avenue ter menos convicção em relação à Ásia e à Europa, mais dependentes da importação de petróleo. Já os Estados Unidos, segundo a CIO, tendem a estar mais protegidos, tanto pela menor dependência externa de petróleo quanto pelo impulso contínuo do setor de tecnologia, que segue recebendo volumes recordes de investimento.
Ainda assim, Rocha fez algumas ponderações em relação ao mercado americano. Sobre os efeitos da IA, embora destaque que o tema não é uma bolha, pelo fato de existir demanda por esse produto, ela disse que o apetite dos investidores pode moderar, diante da forma como os investimentos estão sendo financiados.

À medida que os projetos se tornam maiores, as empresas precisam recorrer cada vez mais ao mercado de capitais para levantar recursos por meio de dívida e emissão de ações. Ao mesmo tempo, começam a surgir estruturas inéditas de financiamento ligadas diretamente à capacidade computacional e à infraestrutura de IA, com o financiamento dependendo menos do balanço das empresas.
Essa mudança tende a aumentar a seletividade do mercado. Empresas com melhor execução, geração de caixa e capacidade de monetizar os investimentos devem ser premiadas, enquanto projetos menos eficientes podem sofrer mais pressão.
O resultado é que o entusiasmo com a IA não será mais para todos. “A tese continua muito forte. O que muda é que o mercado será mais seletivo.”
Fed confuso
A esse cenário se junta a política monetária americana. No início de 2026, o consenso do mercado era de que o Federal Reserve (Fed) começaria a cortar juros. Isso mudou, com parte do mercado já discutindo a possibilidade de uma ou até duas altas adicionais dos juros nos Estados Unidos, em função da dinâmica do petróleo e da resiliência da economia.
“O mercado saiu de duas ou três quedas de juros para discutir uma ou duas altas”, afirmou Rocha, destacando que a Avenue espera duas altas, com a dúvida sendo quando elas ocorrerão.
Para piorar, o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, virou uma fonte de incerteza, após ter alterado sua forma de comunicação nos últimos meses.
Na primeira reunião, Warsh transmitiu uma mensagem relativamente clara de compromisso com o combate à inflação. O mercado interpretava que o banco central estava disposto a fazer o que fosse necessário para levar os preços de volta à meta de 2%.
Mais recentemente, porém, a comunicação ficou menos previsível, gerando dúvidas no mercado não apenas sobre o que o Fed fará, mas também sobre os fatores que orientam suas decisões.
“Uma coisa é abandonar o forward guidance. Outra é gerar dúvidas sobre qual é a função de reação do banco central”, afirmou. “Se o mercado perde clareza sobre a função de reação do banco central, a volatilidade aumenta.”
Isso não significa que o Fed está cedendo aos desejos do presidente Donald Trump, que pressionou o antecessor de Warsh, Jerome Powell, a reduzir os juros. “A discussão não é se ele vai cortar juros por pressão política. A discussão é quando virá a próxima alta e quais serão os motivos”, afirmou Rocha.