Paris - De tempos em tempos, a alta moda elege um nome para capturar o zeitgeist — e ditar as regras do mercado e do desejo. Agora é a vez do artesanato complexo e do rigor técnico de Matthieu Blazy na Chanel. Em menos de dois anos à frente da maison parisiense, o estilista franco-belga já se revelou um fenômeno cultural e comercial.
Em um relatório recente a investidores, o banco alemão Berenberg sacramenta a influência do designer de 42 anos: “A ‘Blazymania’ é muito real, impulsionando vendas recordes e criando uma ameaça para outras marcas, à medida que a Chanel conquista participação em um ambiente de demanda fraca”.
Motivadas pelo sucesso das primeiras coleções do novo diretor criativo, as vendas da grife em 2026 vêm crescendo ao ritmo de dígito único alto — ou seja, entre 7% e 9%, relata a CEO Leena Nair, ao jornal Financial Times.
Se esse avanço chegar a 10% até o final de 2026, a grife pode responder por cerca de 30% de toda a expansão do mercado global de moda e artigos de couro de luxo, avalia o banco Morgan Stanley.
O diagnóstico dos analistas financeiros traduz em números o frenesi nas boutiques e nas redes sociais que fez de Blazy uma mania.
Quando, em março, sua primeira coleção — a de Primavera/Verão 2026 — chegou às lojas, a reação foi imediata. Em Paris e Nova York, formaram-se filas às portas das boutiques, peças esgotaram-se e uma avalanche de vídeos de unboxing tomou conta das plataformas digitais.
A versão maxi da clássica bolsa flap (a cerca de US$ 8,5 mil) e a releitura do scarpin bicolor agora em verde-menta e preto (por aproximadamente US$ 1,4 mil) viraram objeto de desejo e levaram a maison ao topo do Lyst Index como a marca mais cobiçada do mundo.
“Nunca vimos uma demanda tão alta”, comemora Bruno Pavlovsky, presidente da Chanel SAS, em entrevista ao jornal Le Figaro. “Os primeiros sinais são ótimos. Há muito entusiasmo entre os clientes fiéis, os novos clientes e as pessoas que estão redescobrindo seu amor pela marca”, comemora Nair ao WWD.
Silêncio estrondoso
Apesar do otimismo com a chegada de Blazy, a alta cúpula do grupo faz questão de frisar: um negócio estabelecido em 1910 do porte e da importância da Chanel não pode (e não vai) se render à efemeridade dos modismos digitais.
“Tentamos não nos deixar levar pelo hype, mantemos o foco na solidez e na atratividade da nossa marca a longo prazo”, já avisou a CEO.
As cinco coleções já apresentadas por Blazy — das dez previstas para cada ano — confirmaram um dos traços mais marcantes de seu estilo: renovar códigos tradicionais sem, no entanto, rompê-los. Como o estilista costuma dizer, sua ideia à frente da Chanel é fazer uma “revolução silenciosa, mas com estrondo”.
E ele tem conseguido manter o delicado equilíbrio entre atrair os mais jovens para a maison, sem desapontar a clientela mais tradicional. “Matthieu agrada a todos, é mágico”, diz AnneLaure Chansel, professora da École Internationale de Marketing du Luxe de Paris (EIML), em entrevista ao NeoFeed.
Essa aproximação com as novas gerações também passa pela escolha de embaixadoras com forte apelo entre a geração Z, como as estrelas pop Dua Lipa, britânica de origem albanesa, e Jennie, integrante sul-coreana do Blackpink.
Para seu primeiro desfile, em outubro do ano passado no Grand Palais, em Paris, Blazy mergulhou na história da grife e, sobretudo, na trajetória pessoal e profissional de Gabrielle “Coco” Chanel.
Na prancheta do estilista, o tweed ganhou fluidez com fios desestruturados e tecnológicos, as camélias surgiram em relevos tridimensionais e a silhueta privilegiou o movimento.
“Matthieu trouxe um frescor que há tempos não se via na Chanel” comenta Andréia Meneguete, coordenadora acadêmica do Hub de Moda e Lifestyle da ESPM Panamericana, em conversa com o NeoFeed.
A Blazymania começou a ser esboçada antes da chegada do designer ao ateliê da rue Cambon. Sua nomeação, em dezembro de 2024, colocou a Chanel no centro das conversas como há muito não acontecia.
Indiretamente, o burburinho repercutiu nos resultados financeiros — um fenômeno definido pela professora Chansel como “impacto do anúncio”. Em 2025, a receita aumentou 2% para US$ 19,3 bilhões, ante a queda de 4,3% do ano anterior.
Blazy já era um nome respeitado. À frente da Bottega Veneta, entre 2021 e 2024, ele fez dos desfiles da grife italiana “um dos destinos mais badalados das semanas de moda”, define a revista britânica Dazed. Sob sua direção, a marca foi a única do grupo Kering a registrar crescimento de receita no terceiro trimestre de 2024, com alta de 5%.
O momento favorável da Chanel, porém, não se explica apenas pelo talento de seu novo diretor criativo. A companhia também vinha se preparando para sustentar a nova fase.
O estúdio de criação passou pela maior reorganização desde 1983, quando Karl Lagerfeld assumiu o comando da marca. Em 2025, a empresa destinou mais de US$ 700 milhões ao fortalecimento de sua manufatura, dos ateliês de artesanato e de projetos de inovação. Reforçou ainda sua participação em fornecedores estratégicos, concluiu a construção de sua nova fábrica de perfumes e abriu 41 novas boutiques ao redor do mundo.
Em outra frente, a Chanel levantou € 700 milhões por meio de uma emissão privada de títulos organizada por bancos como Goldman Sachs e Société Générale. A operação reforçou a liquidez da empresa em um momento de desaceleração do mercado global de luxo.
A “arrumação da casa” acompanha também a mudança no comportamento do consumidor de alta renda. “Estamos em um período em que o luxo está sendo muito racionalizado, com as pessoas questionando os preços e as novas gerações mais conscientes”, afirma a professora da ESPM.
Enquanto isso, na Dior...
Enquanto a Chanel consolida sua aposta no estilista franco-belga, a LVMH deposita suas fichas em Jonathan Anderson, de 42 anos, para conduzir o reposicionamento da Dior — rival histórica da grife de Mademoiselle.
Pela primeira vez em sua história, um único designer comanda simultaneamente as coleções feminina, masculina e de alta-costura.
O desafio vai muito além da criação: recolocar a Dior na trajetória de crescimento após sete trimestres consecutivos de queda na divisão de moda e artigos de couro do maior conglomerado de luxo.
Os primeiros sinais são positivos. Impulsionada pelas coleções de Anderson, a grife voltou a crescer no segundo trimestre de 2026, ainda que modestos 1%, ajudando a conter a desaceleração da LVMH.
Mais do que disputar vendas, Matthieu Blazy e Jonathan Anderson têm pela frente a grande questão da alta moda: transformar desejo em valor duradouro. Para além do hype.