A coleção de Givenchy: o leilão que está deixando o mercado de arte em ebulição

Centenas de peças, entre quadros, esculturas, móveis e objetos que pertenceram ao estilista Hubert de Givenchy, vão a leilão pela Christie’s e pode movimentar mais de 90 milhões de euros

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O jardim do castelo de Givenchy, no Vale do Loire, foi recriado em menor escala dentro da sede da Christie’s para apresentar algumas das esculturas que serão leiloadas – Foto: Divulgação/Christie’s

“Reunir objetos raros me dava não apenas felicidade, mas completava meu conhecimento sobre as belas coisas”, dizia Hubert de Givenchy, um dos maiores nomes da alta-costura francesa, que foi também um grande colecionador. Pois seu vasto acervo de quadros, esculturas, móveis franceses e europeus e objetos de arte será leiloado pela Christie’s, em Paris, a partir de terça-feira, 14.

A venda é estimada entre 50 milhões e 90 milhões de euros, mas dada a raridade de muitas peças – que decoravam sua residência parisiense na rue de Grenelle e o castelo de Jonchet, no Vale do Loire, esse valor pode ser facilmente ultrapassado. Falecido em 2018, aos 91 anos, Givenchy constituiu uma coleção considerada excepcional.

A venda reúne cerca de 200 quadros de pintores antigos e modernos, que incluem um desenho de Picasso e uma tela de Miró, uma centena de esculturas de grandes artistas, como Alberto Giacometti, Henry Moore e François Xavier Lalanne, e inúmeros objetos e móveis raros – entre eles mais de 440 poltronas, cadeiras e sofás realizados por renomados artesãos e designers dos séculos 18 ao 20.

Esse leilão tem deixado o mercado de artes em ebulição. É raro nos dias de hoje uma coleção desse porte pertencente a alguém com notoriedade internacional. A última venda desse tipo, a do costureiro Yves Saint-Laurent, também realizada pela Christie’s, ocorreu em 2009 e totalizou uma receita de 373 milhões de euros.

Na época, o vasto e prestigioso acervo de obras e objetos raros de Saint-Laurent foi exibido ao público e compradores no museu do Grand Palais, em Paris, atraindo 30 mil visitantes em apenas dois dias e meio.

A Christie’s – que pertence ao bilionário francês François Pinault, proprietário do grupo de luxo Kering (dona das marcas Yves Saint Laurent, Gucci, Balenciaga, entre várias outras) – não economizou meios para exibir a coleção de Givenchy, que representa o “luxo à francesa”.

Gravura de Pablo Picasso, de 1947, que pode chegar a 2,5 milhões de euros – Foto: Divulgação/Christie’s

A casa de leiões recriou em sua sede francesa, na avenida Matignon, em Paris, espaços do imóvel parisiense e do castelo do costureiro, situado nos arredores de Chartres. Desde o dia 8 está sendo exibida mais da metade do acervo de Givenchy que será vendido. O público pode, dessa forma, ter a sensação de entrar em uma das casas do estilista.

Jamais a Christie’s havia feito uma reconstituição da decoração de um colecionador nessas proporções em sua sede. A casa de leilões gastou algumas dezenas de milhares de euros na cenografia, menos do que o meio milhão de euros necessários para alugar o museu do Grand Palais, como foi feito na venda das peças de Saint Laurent. Givenchy também foi presidente do conselho de fiscalização da Christie’s e membro de seu board internacional.

A reprodução dos espaços das casas de Givenchy foi feita na medida do possível, já que a dimensão das salas da Christie’s não é a mesma das propriedades do costureiro, o que limita o número de objetos que podem ser expostos como também a percepção visual do espaço decorado.

Tela de Miró, de 1942, avaliada em 180 mil euros – Foto: Divulgação/Christie’s

Na residência de Givenchy na rue de Grenelle, no elegante 7º distrito de Paris, a sala no andar térreo tinha, por exemplo, sete metros de altura de pé direito. O próprio Givenchy era um homem bem alto, que media 2,03 metros.

O prédio, que havia sido a embaixada da Áustria nos séculos 18 e 19, é tombado pelo patrimônio histórico francês. Após a morte do costureiro ele foi adquirido por um empresário francês bilionário que atua no setor da internet e de telefonia celular.

Fotografias gigantes do interior das propriedades de Givenchy foram coladas nas paredes da Christie’s para compensar as diferenças entre os locais e dar mais realismo à visitação da coleção. Assim é possível realmente ter a impressão de estar em uma das salas do andar térreo do prédio na rue de Grenelle, decorado, por exemplo, com um móvel do século 18 que pertenceu à estilista Coco Chanel.

Escultura de Alberto Giacometti, uma das estrelas do leilão – Foto: Divulgação/Christie’s

Ela incentivou o interesse de Givenchy para se tornar colecionador. Ali também há cadeiras de meados do século 18 (o conjunto de seis é estimado entre 100 mil e 200 mil euros) “personalizadas” por Givenchy com o trabalho das costureiras de seu ateliê de alta-costura.

Um dos espaços mais impressionantes da visita é o salão verde, cor emblemática do costureiro em seu tom esmeralda e ligada também à sua paixão pelos jardins. Ali está exposto o quadro “Alexandre e a família de Darius” do pintor italiano Domenico Piola (1624-1703), estimado entre 80 mil e 120 mil euros.

Com cerca de três metros de altura por três de largura, a Christie’s precisou primeiro fazer uma maquete da obra para ver se ela entraria na sala. Foram necessários oito homens para carregá-la. O original, sem a moldura, precisou ser transportado por quinze homens, já que qualquer problema na instalação poderia danificar a tela de maneira irreversível.

No mesmo salão verde há cortinas italianas de seda do século 17 com fios de prata e de ouro em perfeito estado de conservação. Outro ambiente que chama a atenção é uma reprodução de parte da cozinha do castelo de Jonchet, monumento do século 16 tombado pelo patrimônio histórico, onde são exibidas inúmeras pratarias e objetos em porcelana. Também não poderia faltar uma pequena reconstituição do vasto jardim à francesa do castelo.

A Christie’s reproduziu alguns espaços da casa de Givenchy em sua sede – Foto: Divulgação/Christie’s

No total, o leilão reúne 1.229 lotes, distribuídos em seis vendas. As obras-primas serão leiloadas nos dias 14, a data considerada mais especial, e 15 no teatro Marigny, em Paris, especialmente alugado para a ocasião, já que se espera um grande número de compradores presentes. Nos dias 16 e 17 as vendas ocorrem na sede da Christie’s. Há duas outras vendas online, com cerca de 400 lotes, que vão até os dias 22 e 23.

O costureiro, com seu estilo enraizado na cultura francesa e que vestiu Jacqueline Kennedy, a princesa Grace de Mônaco e a atriz Audrey Hepburn, sua musa (que foi inclusive o rosto da campanha de seu primeiro perfume, L’Interdit, em 1958), considerava sua paixão pela arte, decoração e jardins como um prolongamento de seu trabalho de costureiro. “Eu tento realizar uma harmonia entre a arquitetura, a decoração e a cor”, dizia Givenchy.

Givenchy vestiu ícones como Jacqueline Kennedy, a princesa Grace de Mônaco e a atriz Audrey Hepburn – Foto: Divulgação/Christie’s

O leilão ocorre 70 anos após seu primeiro desfile de alta-costura, em 1952. Sua coleção de arte mistura peças dos séculos 17 e principalmente 18 com obras modernas e contemporâneas. A notoriedade de Givenchy pode atrair interessados do mundo todo, sobretudo americanos, europeus e asiáticos.

Também se estima que esse leilão poderá relançar o mercado de objetos do século 18, já que há tempos não há vendas desse porte de peças desse período. Uma outra maneira de ter algo dessa coleção considerada excepcional é o catálogo especial em edição limitada de mil exemplares, com capa em tecido verde esmeralda, que reúne cinco fascículos de toda a venda. O preço? Módicos 320 euros.

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