A maratona de Pedro Bueno para mostrar ao mercado que criou uma nova Dasa

Desde 2017, a empresa vem passando por um processo de transformação de seu modelo de negócio. Agora, o CEO, Pedro Bueno, pretende convencer o mercado de que está no caminho certo e destravar o valor da companhia

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Pedro Bueno, CEO da Dasa

Pedro Bueno, CEO do grupo Dasa, está com a agenda bem ocupada nas próximas semanas – sobretudo neste mês de setembro e em outubro. Além da gestão da companhia, uma gigante no setor de saúde com mais de 40 mil funcionários, Bueno vai trilhar uma maratona com investidores.

Ele vai fazer o que o mercado chama de non-deal roadshow, um périplo para mostrar o que a companhia tem construído nos últimos tempos. O objetivo é claro: animar os investidores para aumentar a liquidez e – obviamente – valorizar os papéis da Dasa, que estão bem distantes dos concorrentes quando se analisa os múltiplos.

Em relação a Rede D’Or, por exemplo, cujo valor de mercado está em R$ 134 bilhões e é negociada a 8,4 vezes o seu valor patrimonial, a diferença é muito grande. A Dasa vale R$ 27,5 bilhões na bolsa e é negociada a um múltiplo de 3,8 vezes o seu valor patrimonial.

“Realmente, quando você olha a comparação da Dasa com os nossos pares, o desconto de múltiplo que estamos vendo não faz sentido”, diz Bueno, em entrevista exclusiva ao NeoFeed. Embora tenha feito um re-IPO, em abril, no qual levantou R$ 3,3 bilhões, o free float da companhia ainda é baixo.

De acordo com relatório da Economatica feito a pedido do NeoFeed, 10,63% das ações da empresa são negociadas em bolsa, enquanto Mater Dei aparece com 22,82% e Rede D’Or, com 46,26%. Além disso, diz Bueno, os investidores que entraram estão comprados no longo prazo e não estão negociando os papéis.

Mas ele acredita que haverá uma correção de rota neste segundo semestre. “No primeiro semestre, focamos muito dentro de casa, nos M&As, na nova marca e na plataforma que lançamos, o Nav”, diz o executivo. E continua. “Fomos pouco ativos com o mercado e acho que foi um erro da nossa parte porque tivemos pouca oportunidade de dividir tudo o que estava acontecendo.”

De fato, a Dasa tem se movimentado de forma muito agressiva nos últimos tempos. No fim de 2019, quando fundiu suas operações com a rede de hospitais da Ímpar, também da família Bueno, o grupo contava com seis hospitais. A companhia botou sua máquina de M&As para funcionar e hoje são 16 hospitais espalhados pelo Brasil.

Um gestor que acompanha o setor de saúde de perto disse ao NeoFeed que o desafio da Dasa para destravar valor é grande. Os múltiplos de hospitais são muito maiores do que de laboratórios e, apesar de já contar com 16 hospitais, ainda está distante de uma Rede D’Or que tem 58 hospitais, 8,7 mil leitos e conta com 34 projetos em desenvolvimento.

Por isso mesmo, a Dasa tem acelerado seu processo de expansão na área. Desde dezembro do ano passado, quando anunciou a aquisição do Grupo Leforte, por R$ 1,7 bilhão, a companhia comprou a Innova Hospitais, em Diadema (SP); a empresa de corretoras Grupo Case; a de exames clínicos Clínica CT; o Hospital São Domingos, em São Luiz (MA); a Clínica AMO, com operações no Nordeste; o Hospital da Bahia, em Salvador; e o Hospital Paraná, de Maringá.

A rede de clínicas AMO foi uma das aquisições do grupo neste ano

Só em junho, desembolsou R$ 1,5 bilhão em duas aquisições. “Nossa estratégia é integrar serviços. Hoje o nosso share em hospital é menor do que o share em ambulatório. Vamos crescer em infraestrutura hospitalar para ir fazendo a integração da cadeia”, diz Bueno. O grupo conta com 3,6 mil leitos e vai continuar nesse processo de M&As.

As prioridades são as praças onde a empresa atua com o seu ecossistema. As primeiras aquisições aconteceram no Rio de Janeiro e em São Paulo. Depois, a Dasa partiu para cidades onde tinha laboratório, mas não contava com hospitais. Salvador, São Luiz do Maranhão e Maringá são esses casos.

“Temos uma escala enorme, estamos em mais de 150 cidades no Brasil. Temos proximidade com os médicos, conhecemos muitos donos de hospital e um leque muito amplo para prospectar novos M&As”, diz Bueno. Ao entrar em um novo hospital, o grupo busca trazer mais serviços complexos, emprega novas máquinas e otimiza os custos capturando sinergia.

Essa captura é baseada, sobretudo, no uso intensivo de tecnologia – uma área que tem crescido muito nos últimos anos. Em 2017, por exemplo, a empresa contava com 300 profissionais de tech. Hoje, são mais de 1 mil. É a tecnologia que, segundo Bueno, permite cada vez mais trabalhar o conceito de saúde integrada.

A ideia é trabalhar o conceito de saúde integrada para atacar o que Bueno diz ser uma fragmentação dos serviços. “Você vai no hospital e ele tem uma visão parcial de quem é você, vai no médico é outra visão, vai no laboratório e é outra visão”, diz Bueno.

“Só que, na saúde, o ótimo das partes não é necessariamente o ótimo de tudo. Se você tem uma visão mais completa do paciente, mais inteligente, mais preditiva, você consegue se antecipar às necessidades de saúde.” Para juntar tudo, o offline e o online, a empresa gastou tempo e dinheiro na plataforma Nav.

Nos últimos anos, a companhia investiu mais de R$ 2 bilhões em tecnologia e o Nav é a menina dos olhos. A plataforma concentra todo o histórico dos pacientes, de exames passando por consultas médicas. E ainda conta com telemedicina e informações sobre determinadas doenças voltadas para cada usuário.

A Dasa conta com um data lake com mais de 4 bilhões de registros de dados clínicos

São várias personas dentro de um único ambiente. Se o paciente tem diabetes, por exemplo, ele receberá conteúdo voltado para isso. A meta da Dasa é abarcar os seus 20 milhões de clientes dentro desse ambiente digital. Por enquanto, são pouco mais de 535 mil usuários cadastrados – em sua maioria, idosos.

Nos próximos meses, entretanto, a companhia vai fazer o Nav ganhar mais tração usando as marcas diagnósticas do grupo como Delboni Auriemo, Alta, Salomão Zoppi, Lavoisier, entre outras. “Temos uma capilaridade e escala incríveis nessa área. Vamos começar a entregar os laudos dos exames dentro do Nav”, diz Bueno. ‘Aí as pessoas vão começar a se engajar. Temos touchpoints de milhões de usuários todos os meses.”

Outro profissional do mercado financeiro ouvido pelo NeoFeed e que preferiu não se identificar diz que esse é mais um motivo pelo qual a Dasa ainda não viu suas ações na bolsa decolarem. “Eles têm um discurso de fazer algo que o mercado nunca fez. E, como é de difícil execução, o papel tem desconto”, diz ele.

Essa mesma fonte diz que o discurso é muito bonito, mas há desafios internos e demanda também uma mudança de cultura por parte dos pacientes. “Tem que criar o hábito de usar aquela determinada plataforma e mudar o seu comportamento em relação como trata a própria saúde”, diz. “Isso é caro para a companhia e leva muito tempo.”

A ideia de criar um ecossistema de saúde e acompanhar a jornada dos pacientes não é exclusividade da Dasa. Outros grupos têm procurado construir plataformas que integrem tudo e faça parte do dia a dia das pessoas para ter cada vez mais dados, conhecer mais a fundo os pacientes, prevenir doenças e baratear os custos na saúde. Grupos como SulAmérica e Raia Drogasil estão de olho nesse filão.

A Dasa afirma já estar adiantada no quesito tecnológico para ter os dados cada vez mais filtrados. A extração de dados preditivos é feita por meio de inteligência artificial, que analisa um data lake com mais de 4 bilhões de registros de dados clínicos.

Usando essa ferramenta, a Dasa fez uma parceria com uma operadora de saúde e começou a cuidar de 40 mil vidas dessa empresa, em sua maioria idosos. “Conseguimos fazer uma redução de custo de 30% dessa carteira”, diz Bueno.

Isso aconteceu monitorando, engajando as pessoas numa atenção primária e, quando percebiam algum sintoma, a companhia se antecipava. Com isso, o número de visitas a pronto-socorros e de internações caiu.

Agora, em meio a pandemia, a Dasa identificou que 2,8 milhões de pacientes mulheres, que têm idade e indicação clínica para fazer o exame de mamografia e que não fizeram nos últimos doze meses. Com os dados em mãos, está encabeçando uma campanha de “Outubro Rosa” e vai acionar médicos e as pacientes.

No primeiro semestre deste ano, a companhia apresentou um recorde de receita operacional bruta passando dos R$ 3,25 bilhões, em 2020, para R$ 5,39 bilhões. O Ebitda ajustado, hoje na casa de 21,9%, saltou de R$ 151 milhões para R$ 1,09 bilhão. Em relatório para investidores, o Bank of America disse que “os resultados foram mais fortes do que o esperado”.

Os analistas Fred Mendes e Pedro Mariani escreveram que “enxergam a empresa no caminho certo, melhorando suas operações, levando à expansão de margens. Além disso, à medida que a Dasa intensifica suas novas operações, as taxas de ocupação devem aumentar, o que junto com as sinergias do grupo Ímpar deve levar a uma maior expansão da margem.”

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