Insiders

A nova filosofia do fundador do Kickstarter: o bentoísmo

Yancey Strickler criou uma das maiores plataformas de financiamento coletivo do mundo. Agora, ele quer evangelizar o mundo com o bentoísmo, uma filosofia que ajuda pessoas e empresas a tomarem decisões coerentes com seus interesses. Nesta entrevista exclusiva ao NeoFeed, ele explica os princípios

 

Yancey Strickler, cofundador do Kickstarter

Dez anos depois de colocar no ar o Kickstarter, a plataforma de financiamento coletivo que captou mais de US$ 4 bilhões para tirar do papel 165 mil projetos, Yancey Strickler apresenta outra ideia que pode mudar o mundo.

Defensor do “pós-capitalismo”, modelo de sociedade que olha para além do lucro, o empresário de 41 anos desenvolveu uma técnica, batizada de bentoísmo, que ajuda pessoas e empresas a tomarem decisões coerentes com seus interesses, pensando em curto e em longo prazo, tanto do ponto de vista individual, quanto do coletivo.

“Bentoísmo é um modelo que ajuda indivíduos e empresas a repensar seus reais interesses”, afirmou Strickler, nesta entrevista exclusiva ao NeoFeed. A origem do termo é uma brincadeira com as bento box, as “lancheiras” japonesas que vem com compartimentos para cada alimento.

Nomeado como um Jovem Líder Global pelo Fórum Econômico Mundial e apontado como uma das pessoas mais criativas pela revista americana Fast Company, Strickler já apresentou suas ideias no MOMA, em Nova York, no festival de cinema de Tribeca e no Web Summit, em Portugal.

Suas palestras e teorias foram consolidadas no livro This Can Be Our Future: A Manifesto for a More Generous World (em uma tradução livre “Este poderia ser o nosso futuro: um manifesto por um mundo mais generoso”),  lançado em outubro nos Estados Unidos pela editora WH Allen.

Nesta entrevista exclusiva ao NeoFeed, Strickler revela os bastidores e as aplicações do bentoísmo para pessoas e empresas. Confira os principais trechos:

Todo livro começa muito antes da página um: qual foi o ponto de partida para a sua obra This Can Be Our Future?
Acho que foi um processo, não aconteceu de uma hora para outra. Costumo andar bastante pela minha vizinhança, em São Francisco, e comecei a reparar, com pesar, que muitas das lojas locais estavam fechando e, no lugar delas, novas unidades de velhas redes começavam a operar.

Quase uma crise de criatividade, então?
Isso, e não apenas no que diz respeito ao varejo. Olhe quantas sequências e spin-offs de filmes estão sendo lançados. As listas das músicas mais tocadas também mudam muito pouco. Estamos em um momento de pouca inovação. O mundo está estacionado.

Mas a plataforma de financiamento coletivo Kickstarter não existe justamente para combater esse mal, promovendo maneiras alternativas de viabilizar um projeto criativo?
O Kickstarter mostra que o dinheiro é como a gasolina: ele deve ser aplicado para impulsionar ideias e pessoas.

Sua relação com o dinheiro mudou, depois do sucesso do Kickstarter?Quando lancei a plataforma, eu me sentia muito seguro financeiramente falando. Não que eu fosse rico ou coisa parecida, mas conseguia pagar minhas contas com alguma facilidade. Acho que eu sempre olhei para o dinheiro como um carpinteiro olha para uma tora de madeira: ela pode ser usada de várias maneiras, para várias finalidades. No final das contas, são as suas decisões que moldam o destino final – do dinheiro, inclusive.

E você toma suas decisões a partir da sua teoria, o bentoísmo?
Faz pouco mais de três anos que “desenhei” essa filosofia e, desde então, consulto o “bento” para decidir qualquer questão importante da minha vida, porque ele me mostra as minhas prioridades. O bento não me diz o que fazer, mas me faz prestar atenção nos meus objetivos.

Poderia explicar o que é o “bentoísmo”?
Bentoísmo” é um modelo que ajuda indivíduos e empresas a repensar seus reais interesses. Ele funciona a partir de quatro compartimentos de iguais proporções: eu presente, nós presente, eu futuro e nós futuro. Ao fazer uma pergunta para a “bento”, cada espaço lhe dá uma resposta – e aí fica mais fácil a tomada de decisão.

“Bentoísmo” é um modelo que ajuda indivíduos e empresas a repensar seus reais interesses

Poderia nos dar um exemplo?
Claro. As melhores perguntas são aquelas que começam com “eu deveria…?”. Assim: eu deveria parar de fumar?. O eu presente pode responder “eu amo fumar, então não”. O eu futuro, “quero uma vida saudável, então sim”. Enquanto isso, o nós presente responde “meus amigos e familiares detestam o cheiro da fumaça, logo devo parar de fumar”. E, por fim, o nós futuro pondera “a sociedade caminha para hábitos melhores; pare de fumar”. São três respostas positivas e uma negativa.

Mas isso pode variar de acordo com situações, não?
Com certeza. Ao perguntar “eu devo ir para o trabalho hoje?”, acredito que todos os quatro elementos respondam “sim”, porque você precisa do dinheiro (eu presente); seus colegas de escritório contam com a sua presença (nós presente); você quer honrar suas promessas (eu futuro); e a sociedade precisa de pessoas responsáveis (nós futuro). Mas caso seu filho ou esposa esteja adoecido, precisando de sua assistência, as respostas dos quadrantes mudam drasticamente, porque outras prioridades entram em jogo.

E por que esse nome: “bentoísmo”?
“Bentoísmo” é uma brincadeira com as bento box, as “lancheiras” japonesas que vem com compartimentos para cada alimento. A palavra “bento” é derivado de uma palavra, também japonesa, que significa “conveniência”.  Nas minhas pesquisas, descobri que essa estrutura da bento box honra a filosofia hara hachi bu, que diz que o objetivo de uma refeição é satisfazer 80% da sua fome, para que você tenha apetite no dia seguinte. Uma bento box bem feita nunca traz muito de um único alimento, ela é muito variada: é conveniente, saudável e equilibrada. 

Quais decisões importantes você tomou a partir dessa filosofia?
Criei um ritual em que todas as manhãs de domingo eu dedico parte do meu tempo ao estudo da minha “bento” da semana. Coloco ali as minhas prioridades e vejo como quero investir minha energia naqueles próximos dias: se é passando mais tempo com amigos, família, trabalho, etc. Mais recentemente, recebi uma proposta tentadora: uma marca me ofereceu um excelente montante de dinheiro para uma palestra, mas depois de consultar minha bento, recusei.

Por quê?
Por que o “eu presente” era o único que dizia para eu aceitar – queria aquele pagamento, claro. A marca que fez o convite não está alinhada com os meus princípios, e minha única motivação era financeira. Meus outros três compartimentos, ou vozes, diziam não, daí minha escolha.

Mas o bentoísmo não se torna, então, um recurso para pessoas privilegiadas? Tem gente que não tem dinheiro para se dar ao luxo de negar certas oportunidades…
Mas aí a situação da bento é outra. Acho que o bentoísmo é para todo mundo, sim, e acho que as pessoas mais ricas têm mais dificuldade em usá-la, para ser sincero, porque elas geralmente não sabem ponderar outras facetas senão a “eu presente”. Não é curioso como quanto mais rica, menos religiosa a pessoa fica? O dinheiro, às vezes, nos desconecta de valores, crenças e comunidades.

“Bentoísmo” é uma brincadeira com as bento box, as “lancheiras” japonesas que vem com compartimentos para cada alimento

E você falou que essa filosofia pode ser aplicada também em negócios, né?Sim, nos próximos meses devo aplicar o bentoísmo em uma empresa pela primeira vez. Acho que é uma oportunidade única de passar a limpo os valores que criamos e oferecemos como pessoa física. Além de contribuir para o futuro da companhia, acho que abre caminho para um processo contínuo de aprendizado, que mede o sucesso por outras réguas, que não seja apenas o retorno financeiro do negócio. 

Então é assim, quando pessoas e empresas repensam suas bentos, que criamos um novo futuro…
Sim, não vai ser instantâneo no mundo todo, claro. Vai levar um tempo para que todos se adaptem a essa sociedade que, torço, não esteja e seja tão materialista. Mas se eu tiver que apostar, aposto sempre na humanidade.

Esse otimismo passa pelo Brasil, acha que lá o bentoísmo seria fértil?
Mal posso esperar para colocar isso na frente de uma platéia brasileira! Na verdade, gostaria de apresentar essa filosofia a todos os países e culturas. Tenho a impressão que cada cantinho do mundo tem suas qualidades e defeitos. Acho que a América do Sul, por exemplo, é regida por um “nós presente”, enquanto os EUA endeusa o “eu presente” e a Ásia mira o “nós futuro”. Falta agora o equilíbrio, ou bento, de todas essas facetas. Acho que podemos chegar lá.  

Siga o NeoFeed nas redes sociais. Estamos no Facebook, no LinkedIn, no Twitter e no Instagram. Assista aos nossos vídeos no canal do YouTube e assine a nossa newsletter para receber notícias diariamente.

Leia também

VÍDEOS

Assista aos programas CAFÉ COM INVESTIDOR e CONEXÃO CEO