Negócios

A salvação da Stone é salvar as pequenas empresas

Com quase 500 mil clientes, a maioria pequenos e médios negócios, a credenciadora de cartão de crédito passou a dar isenções e terá uma linha de microcrédito de R$ 100 milhões para comerciantes das regiões e setores mais afetados. O presidente da Stone, Augusto Lins, conta a estratégia ao NeoFeed

 

Augusto Lins, presidente da Stone

A rotina do presidente da Stone, Augusto Lins, começa às 6 horas da manhã e vai até às 9 horas da noite. Entre a ginástica para oxigenar a mente e uma série de reuniões para entender o cenário por conta da pandemia do coronavírus, Lins tem feito muitas ligações aos seus clientes.

E ele tem notado uma angústia comum em todos eles. “A principal preocupação é como eu vou pagar o aluguel e a folha. Eles se perguntam: quem é que vai nos ajudar porque estou tendo que abaixar a porta? Como eu vou fazer?”, afirmou Lins, em entrevista ao NeoFeed.

A estratégia da Stone, neste momento, é criar formas de evitar que os pequenos negócios quebrem por estarem com as portas fechadas. “O pequeno e médio é responsável por 52% dos trabalhos de carteira assinada”, diz Lins.

A credenciadora de cartões de crédito, que movimentou R$ 129 bilhões por suas maquininhas no ano passado, está dando isenção de taxas e criou uma linha de microcrédito de R$ 100 milhões para comerciantes das regiões e setores mais afetados por essa crise.

Questionado se ao tentar salvar o pequeno negócio, a Stone não está salvando a si mesma, Lins responde: “Eu estou menos preocupado comigo. Estou mais preocupado com a sociedade. Esse é um momento de solidariedade.”

Nesta entrevista ao NeoFeed, Lins detalha todas as ações da Stone, diz que a economia está em modo de contingência e acredita que o País pode sair mais forte desta crise. Acompanhe:

Como a crise está afetando a Stone?
Estamos muito preocupados com o trabalhador da micro, da pequena e da média empresa. Eles já estão com as portas fechadas e estão há semanas sem vender. Essas empresas estão sem grana para pagar o salário que começa agora no começo de abril. E, se não houvesse um apoio rápido e forte do governo, nós teríamos um impacto não só econômico, mas social enorme.

A Stone tem o pulso do varejo, porque uma parte relevante das transações passam por suas maquininhas. Você já tem ideia de quanto o varejo desacelerou?
Você não é o primeiro que me pede um número. Mas se eu te der um número, ele é muito, vamos chamar assim, misleading. Os ramos e as geografias são impactados de forma diferente. O Brasil decretou estado de calamidade e um belo dia São Paulo falou: ‘lockdown’. Mas a velocidade de fechar da Faria Lima e da Avenida Paulista é diferente de uma cidade no interior na fronteira, onde não se teve nenhum caso (de coronavírus). Você poderia me pedir dados só do Estado de São Paulo. Mas a realidade não é simples. Há setores, como o de turismo, transporte e entretenimento, que sofrem mais. Mas o comércio eletrônico, a área de delivery, games e toda a parte de internet e digital tiveram ganhos. O mundo físico teve algumas perdas, mas mesmo assim supermercados e farmácias deram uma acelerada. Fica difícil dizer um número.

Quais medidas a Stone tomou para enfrentar essa crise?
Nós dividimos em algumas iniciativas. Uma primeira é envolver quem tem poder de ajudar a resolver essa questão de evitar uma crise maior e de como viabilizar para pagar salários. Temos uma área de economistas, lideradas por um PhD, que é o Vinícius Carrasco. Fizemos estudos e compartilhamos com os técnicos do governo para dar algumas sugestões. A turma está sensível as nossas questões, que não são nossas, são de nossos clientes. Fomos lá discutir alternativas para agilizar o processo, inclusive colocando à disposição do governo a nossa rede. A Stone está conectada com quase 500 mil clientes e com todas as instituições financeiras, ao Banco Central. Eu disse que posso ajudar e estou disposto a fazer isso sem cobrar nada.

O que mais foi feito?
A segunda coisa foi: como é que eu posso ajudar imediatamente o pequeno e médio negócio. Criamos, então, a campanha “Compre local, cuide do pequeno negócio.” Montamos um site e estamos buscando a adesão de um monte de gente. O pequeno e médio é responsável por 52% dos trabalhos de carteira assinada. Neste caso, abrimos dois conjuntos de ações.

Quais?
Nos lugares onde tiveram o lockdown, vamos fazer ajustes e incentivos de isenção de mensalidade e redução de taxa. Vamos ser o mais flexível possível com as condições comerciais e com os acordos para dar um pouco de sobrevida para este estabelecimento. Ele precisa de respiro. Nessa ação, só para você ter uma ideia, estamos destinando mais de R$ 30 milhões só em incentivos. Além disso, abrimos outra frente, que é de aproximadamente R$ 100 milhões em microcrédito. Queremos liberar esses recursos para ajudar o cara a se reerguer. Em paralelo, estamos disponibilizando um site onde a gente dá treinamento, dá apoio à saúde, onde dá muita informação. As pessoas ficam olhando as redes sociais e não sabem o que é notícia e o que é fake news. Queremos emprestar a nossa credibilidade para dar conteúdo de qualidade e treinamento.

A Stone está ajudando os pequenos e médios negócios, que são seus clientes, porque senão você também terá problemas, certo?
Eu estou menos preocupado comigo. Estou mais preocupado com a sociedade. Esse é um momento de solidariedade. Esse é o momento em que nós temos de pensar no próximo. Esse é o momento em que socorrer o trabalhador, socorrer a pequena e média empresa, é uma questão humanitária. Se a turma não receber o salário, vai todo mundo para a rua. Temos que ter consciência aqui. Estou abrindo mão do meu dinheiro. Estou destinando uma verba para ajudar. Estamos oferecendo crédito, estamos colocando treinamento. Essa é a hora de pensar no próximo.

“Estou abrindo mão do meu dinheiro. Estou destinando uma verba para ajudar. Essa é a hora de pensar no próximo”

Você falou de uma linha de microcrédito de R$ 100 milhões. Como vai funcionar?
Temos os nossos clientes e conhecemos o comportamento de vendas e a situação do fluxo de caixa. Isso nos permite desenvolver uma linha de crédito para ele ter uma válvula de escape.

Quais os detalhes desse crédito?
Primeiro: ela não é uma linha de crédito para todo mundo. Ela é para quem está nas regiões de lockdown, que é quem precisa mais. Segundo: vamos montar uma linha em que ele tenha taxas de juros mais em conta e prazo suave para pagar. Será de acordo com o ramo e com o negócio. E estamos falando para ligar para nós, que passamos os detalhes.

Você também falou de isenções de taxas. Mas elas terão de ser pagas mais para frente?
Não. Essa é a hora de fazer esforço. Não vou dar uma isenção e cobrar amanhã. Vamos dar o que o pequeno negócio está precisando hoje. Quando eu falo dar, é dar. Eu não vou cobrar. A ação de microcrédito é crédito. Aí vai ter taxa. A ação direta dos R$ 30 milhões é incentivo. É dar para o cliente usar e bola pra frente. E também não vou ficar ajustando preços em outras regiões para compensar esse dinheiro. Aqui vamos meter a mão no bolso e fazer efetivamente um gesto.

E quais setores estarão aptos a receber essas isenções e podem tentar o microcrédito?
Escolhemos priorizar os segmentos de alimentação, de bares, de restaurantes, de educação, de lojas diversas e de academias. É a turma que está na zona crítica e que teve de baixar as portas.

Está claro que a sua intenção é ajudar ao pequeno negócio. Mas, em algum momento, você vai ter de fazer a conta do impacto no seu negócio. Você já fez esse cálculo?
Não temos ainda o horizonte desse impacto. Essa curva está mudando a cada dia. Tem novos Estados sendo mais impactados, novas cidades. E a gente faz alguns cenários aqui. Mas não tem um cálculo definido. Seria prematuro falar qualquer número.

Como você acha que deve ser feita retomada da economia? Dá para começar a pensar nisso?
Eu acho que ainda está cedo. Estamos no início do processo. A prioridade tem de ser cuidar da prevenção na área da saúde. E não deixar que o problema de saúde vire um problema econômico e social.

Como fazer para retomar a economia ao mesmo tempo que se cuida das pessoas?
Eu prefiro não comentar esse debate, que é uma polarização da sociedade se é a favor ou contra o confinamento social. Vou sair dessa polarização. Todos nós queremos nos proteger e estamos querendo resolver as coisas. E elas podem mudar a cada dia. Neste momento, estamos focado em resolver um problema, que é como o lojista vai pagar a sua folha de pagamento e como ele consegue sobreviver nos próximos dias. E a retomada tende a ser mais gradual. A população está assustada. Estamos ainda muito mais no modelo de operar em contingência do que no modelo de retomada.

“Estamos ainda muito mais no modelo de operar em contingência do que no modelo de retomada”

Você já enfrentou uma crise como essa?
O País já teve várias crises. Nós tivemos a crise de caminhoneiros, a do apagão elétrico e a do apagão do setor aéreo. Mas nada similar a essa aqui. O escopo e a profundidade dessa crise é maior. É um vírus que não tem uma solução. E com todo cuidado precisa ser gerida pelo lado tanto das pessoas como dos negócios.

E como tem sido sua rotina?
Eu gosto de fazer exercícios. Preciso ter a cabeça oxigenada. Eu acordo cedo, às seis horas da manhã, faço a minha ginástica até às sete. Tomo café e começo a ler jornais, o WhatsApp e boto os e-mails em dia. E depois tem a reunião das 9 horas. Na sequência, tem a reunião das 11 horas. Tenho vários calls e converso com clientes. Estou ligando muito para os clientes para entender a realidade deles. É uma dinâmica que vai até às 9 horas da noite. Os dias estão sendo longos e estamos conseguindo operar de forma nova com esse trabalho remoto.

Nas suas conversas com os clientes, qual a principal demanda deles?
A principal preocupação é como eu vou pagar o aluguel e a folha. Eles se perguntam: quem é que vai nos ajudar porque estou tendo que abaixar a porta? Como eu vou fazer?

A Stone vai demitir?
Todo mundo tem de fazer um exercício acima do normal para não fazer demissões. Eu acho que todo mundo tem que ver como faz as acomodações. Eu converso com os clientes e alguns estão botando de férias. As formas são criativas e o governo está dando flexibilidade. Mas acho que todo mundo tem de, da melhor forma possível, evitar fazer demissão. E a gente não é diferente. Entendemos que essa crise é transitória. Ela vai passar. E nós, como todo empreendedor, temos o sonho de longo prazo. Tem que dar uma respirada e segurar um pouco o fôlego. Vamos passar por essa crise juntos, como se fosse um meteoro que atingiu a Terra. Respira e vamos fazer força juntos. Vamos sair do lado de lá como uma sociedade mais forte e mais unidade.

Existe uma discussão no meio empresarial sobre uma quarentena vertical. O que você pensa sobre isso?
Eu estou me abstendo de comentar sobre se (o melhor) é uma quarentena horizontal ou vertical. Entendemos que há regiões que não têm nada ainda, não tem contaminação. Lá é de um jeito. São Paulo é de outro. Fico chateado que tem muita gente que resolveu politizar o tema. Prefiro olhar para o cliente resolver o problema dele.

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