Com Evergrande em crise, China avisa: preparem-se para a falência

Sem disposição para socorrer a segunda maior companhia de construção civil do país, o governo chinês tem avisado as autoridades regionais para se prepararem para a quebra da Evergrande

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Sede da Evergrande, em Shenzhen, na China

A esperada falência da Evergrande – empresa chinesa de construção civil que gerou pânico nos mercados em razão do excesso de dívidas – está perto de se concretizar. Sem demonstrar disposição para socorrer a companhia, o governo da China tem alertado as autoridades locais para se prepararem para uma possível tempestade.

De acordo com o The Wall Street Journal (WSJ), os governos regionais chineses foram orientados a trabalhar para evitar protestos e tomar medidas que evitem ou minimizem um efeito cascata em compradores de imóveis e na economia em geral, com ações para limitar a perda de empregos.

A Evergrande é a segunda maior companhia de construção civil da China, um dos ícones de um setor que representa 25% da economia do país. Com dívidas de mais de US$ 300 bilhões, a companhia se caracteriza por vender imóveis antes de construí-los, o que a leva a se endividar para poder tocar os empreendimentos.

Entre as orientações dadas pelo governo chinês às autoridades regionais, estava também a de reunir especialistas para examinar as operações da companhia em suas respectivas áreas de atuação. Além disso, eles devem conversar com incorporadores locais, de obras públicas ou privadas, e se preparar para assumir projetos.

Fundada em 1996, a Evergrande tem cerca de 800 obras em andamento em mais de 200 cidades chinesas. A companhia está presente em todas as províncias da área continental do país. Segundo a empresa, vários projetos estão suspensos devido a atrasos em pagamentos para fornecedores e empreiteiros.

Os avisos reforçam que o governo chinês está relutante em ajudar a Evergrande a se recuperar. No mercado, há a avaliação de que o Partido Comunista quer dar uma lição no setor, assim como tem feito com as empresas de tecnologia, com as intervenções relacionadas à segurança de dados e a comportamentos de consumo.

A ação simboliza uma virada na forma como o governo chinês encara o setor imobiliário, que historicamente é alvo de medidas de estímulo quando a China quer acelerar o crescimento econômico ou minimizar alguma desaceleração.

Na China, os imóveis estão entre os investimentos preferidos da população local. De todas as residências vendidas, 80% são para quem está comprando, pelo menos, pela segunda vez.

O problema é que os imóveis não são alugados. Ficam fechados, enquanto se valorizam. Com os valores mais altos, a classe média não tem conseguido comprar imóveis para morar. Por isso, o governo chinês tem agido para frear os movimentos especulativos e reduzir os preços.

Quando a crise na Evergrande estourou, na segunda-feira, 20 de setembro, os mercados reagiram em queda, com receio de que a empresa se tornasse um novo “Lehman Brothers”, o banco americano que quebrou em 2008 e deu início à crise financeira internacional daquele ano.

O medo, no entanto, parece ter diminuído desde então, com os mercados mais calmos. No acumulado da semana, as perdas do papel são de 4,98% – na segunda-feira, a queda havia sido de 10%. A expectativa é que a situação da empresa seja apenas mais um fator de desaceleração da economia chinesa e não o estopim para o início de uma crise global.

Para a própria China, porém, a crise da Evergrande pode ser pior do que seria “uma nova situação de Lehman Brothers”, na visão do investidor Jim Chanos, fundador da Kynikos Associates e conhecido por ter previsto o colapso da americana Enron. “Há muitas Evergrandes na China. A Evergrande, por acaso, é uma das maiores”, disse o investidor ao jornal britânico Financial Times. “Todo o mercado imobiliário chinês anda em palafitas”.

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