Como um Romanée-Conti 1985 se tornou a garrafa de vinho mais cara da história

A garrafa matusalém (6 litros) do Domaine de la Romanée-Conti (DRC) foi arrematada por 900 mil euros (aproximadamente R$ 5,4 milhões) por um comprador anônimo do Leste Europeu. O que explica esse valor astronômico?

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Rótulo do Romanée-Conti 1985

Uma garrafa matusalém (6 litros) do vinhedo mais nobre do Domaine de la Romanée-Conti (DRC), com apenas 1,81 hectare, se tornou o vinho mais caro da história.

Ela foi arrematada, em junho deste ano, por um comprador anônimo do Leste Europeu, que comprou a garrafa 00001, do mítico Romanée-Conti 1985, por cerca de 900 mil euros (aproximadamente R$ 5,4 milhões) – esse valor sem incluir os impostos.

O leilão foi realizado pelo exclusivo clube de vinho suíço Avu, especializado na venda de vinhos raros para as pessoas mais ricas do mundo, que confirmou o negócio ao NeoFeed.

Até então, a garrafa considerada a mais cara já vendida na história era do mesmo Romanée -Conti, mas da safra 1945. A garrafa de tamanho regular (750 ml) foi leiloada pela Sotheby’s, de Nova Iorque, por US$ 558 mil, em outubro de 2018.

Naquela safra, havia motivos para explicar o valor alcançado. Em primeiro lugar, a produção minúscula de 600 garrafas (frente a média atual de quatro mil a cinco mil garrafas por ano), em um ano comemorativo do fim da Segunda Guerra. E também porque a garrafa representava a última expressão de um vinhedo que foi praticamente todo replantado após a colheita e só voltou a produzir comercialmente em 1952.

A garrafa de Romanée-Conti 1985 que alcançou o valor recorde pertencia a coleção de Giorgio Pinchiorri, restaurateur do tri-estrelado Enoteca Pinchiorri, de Florença. Ela havia sido leiloada pela casa de leilão suíça Baghera, em dezembro de 2020.

O lote 14, batizado de “Kingdoms”, trazia seis garrafas em formato matusalém, todos do Domaine de la Romanée-Conti (o lote também trazia uma garrafa de La Tâche, uma de Richebourg, uma de Romanée-Saint-Vivant uma de Échézeaux e uma de Grands-Échézeaux). Esse lote foi arrematado por 823 mil euros.

Agora, apenas uma das garrafas superou o valor total daquele lote. O que justificaria esse valor astronômico? No caso atual, além do valor intrínseco do mais cultuado produtor da Borgonha, o vinho é de uma safra que, segundo Jasper Morris, Master of Wine e uma das maiores autoridades para falar da Borgonha, “inaugurou a era de ouro para os tintos da Borgonha”.

Foi nesse período que alguns produtores passaram a vinificar com os cachos inteiros da Pinot Noir, que mostravam maior frescor, casos de DRC, Leroy, Dujac e l’Arlot. As garrafas de DRC trazem a numeração de 000001 e somente transitaram da cave da vinícola para a do restaurante Enoteca Pinchiorri.

Reforça também o valor das garrafas o fato de que, a partir de 2009, o Domaine não engarrafa mais seus vinhos nestes grandes formatos e tem restringido aos seus compradores a revenda dos vinhos, uma forma de tentar evitar a especulação.

Assim como obras de artes, os vinhos atraem colecionadores e investidores. E podem ser um investimento bastante lucrativo. O relatório “TOP 10 Investment Wines of the Decade”, da londrina Cult Wines, por exemplo, mostrou que os rótulos selecionados tiveram uma valorização média de 357% em dez anos. O índice S&P 500, reúne as maiores empresas dos EUA, subiu 186% no mesmo período.

Após a venda, representantes da Avu disseram que o comprador embarcou a garrafa em seu jato particular para levar para sua adega. E que, além da garrafa matusalém de Romanée-Conti, o mesmo comprador, que não teve o nome revelado, levou uma garrafa Jeroboam (ou double-magnum, equivalente a três litros) do mesmo Romanée-Conti 1985 por 450 mil euros – a terceira mais cara da história.

O Romanée-Conti é um dos principais vinhos da França. A porção de terra onde hoje está o vinhedo, no vilarejo de Vosne-Romanée, foi doada pelo Duque da Borgonha Hughes II para o convento de Saint-Vivant em 1131.

É fato que desde a ocupação daquele pedaço de terra por parte dos monges cistersienses (da linha beneditina) no século XII com seu lema ora at labora (trabalho na terra), os vinhedos tomaram divisão e mapeamento próximo ao que existe hoje com as denominações de origem.

A dedicação ao cultivo da vinha e a pouca intervenção na transformação das uvas em vinho, filosofia desenvolvida pelos monges, resultava na expressão de cada climat (uma unidade de terroir).

Após séculos de observação empírica, os monges constataram que aquelas parcelas de vinhedo tinham as melhores condições naturais para se fazer o vinho a partir da Pinot Noir. Inclinação, luminosidade, ventilação, solo… Tudo naquele entorno impactava de alguma forma o vinho final.

Esses valores que seguiram respeitados pelo príncipe Conti, primo de Louis XV, quem concedeu domínio sobre aquelas terras até as famílias de Villaine e Roch/Leroy, proprietárias pós-Revolução Francesa até os dias atuais.

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