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Coronavírus azeda o mundo dos vinhos

Eventos cancelados ou adiados, além de prejuízos para países exportadores, como Chile e Austrália. Nem a bebida de Baco escapa dos efeitos do coronavírus

 

Nas últimas duas semanas, os organizadores da ProWein montaram um enorme plano de contingência para garantir a realização do evento, que é a mais importante feira de vinhos da atualidade.

Todas as taças seriam lavadas com água em temperatura a mais de 100ºC. Os visitantes receberiam cuspideiras individuais para descarte dos vinhos provados. E a equipe de limpeza trabalharia com máscaras e uniformes protetores.

Mas, mesmo com todos estes cuidados, em reunião na última sexta-feira à noite, a decisão foi adiar o evento, que aconteceria entre os dias 15 e 19 de março, na cidade de Düsseldorf.

“Com o surgimento de novos casos na Alemanha, próximos a Düsseldorf, foi decidido junto com o governo adiar a feira para minimizar o risco de novos contágios, embora o governo alemão esteja fazendo um excelente trabalho de contenção e identificação de pacientes”, afirmou para a NeoFeed Rico Azeredo, o representante no Brasil da Messe Düsseldorf, empresa que organiza a ProWein. “O risco de contágio, mesmo com todas as medidas de contingência, é grande.”

O comunicado oficial foi divulgado na tarde de sábado, 29 de fevereiro, no site do evento. A nova data será anunciada nas próximas semanas. A ProWein é o segundo evento que a Messe Düsseldorf Group decide adiar diante da propagação do coronavírus.

A terceira edição de ProWine Asia, prevista para acontecer entre 31 de março e 3 de abril, em Cingapura, foi adiada logo que as primeiras notícias do coronavírus chegaram ao continente.

Na semana passada, foi anunciada a nova data: de 13 a 16 de julho. As outras duas feiras do grupo, a ProWine Shanghai (China) e a ProWine São Paulo (Brasil) acontecem no segundo semestre quando, espera-se, a disseminação do novo coronavírus já esteja controlada.

A direção da Baron Philippe de Rothschild decidiu suspender, por tempo indeterminado, todos os compromissos internacionais de seus executivos neste sábado.

Michel Friou, principal enólogo da vinícola chilena Almaviva, foi o primeiro a sentir o impacto da medida. Ele embarcaria neste domingo para o Brasil, para uma viagem de uma semana por algumas capitais do país, apresentando a premiada safra de 2017.

Também fazem parte do grupo as vinícolas Château Clerc Milon, Château d’Armailhac, Domaine de Baronarqyes, Opus One, Escudo Rojo, Mouton Cadet e Anderra, além, claro, do próprio Château Mouton Rothschild. A decisão do board vale para todas as vinícolas.

Outros eventos de vinho na Ásia, como o China Food & Drinks Fair (CFDF), realizado na cidade de Chengdu, estão adiados indefinidamente. Focada no mercado doméstico, a CFDF atrai cerca de 3 mil expositores, 300 mil visitantes e gera, em receita, o equivalente a US$ 3 bilhões. É considerado um evento importante para incentivar o consumo local da bebida.

Mais ousados, os diretores da Veronafiere, que organizam a Vinitaly, a maior feira de vinhos italianos, decidiram manter a data original. Assim, mesmo com a chegada do coronavírus no país, os italianos estão confirmando, ao menos por enquanto, a realização da exposição na cidade de Verona, para os dias 19 a 22 de abril.

Em toda a Ásia, e principalmente na China, os efeitos do coronavírus são desastrosos também no mundo de Baco. De um lado, porque os chineses são grandes consumidores. No ranking mundial de consumo de vinho, eles ocupam o quinto lugar, atrás apenas dos Estados Unidos, da França, da Alemanha e da Itália.

Com a quarentena, os chineses reduziram drasticamente a compra de bebida, assim como o seu consumo em bares e restaurantes. Até a opção de vendas online ficou comprometida, já que não há entregadores para atender todas as encomendas. “Não temos como manejar uma empresa sem pessoas”, afirma Claudia Masueger, gerente da rede de lojas Cheers, para a publicação Meininger’s.

Esta retração de consumo terá impacto no resultado de companhias não chinesas. Segundo a revista inglesa Decanter, 30% dos negócios da gigante de produtos de luxo LVMH e 10% da Pernod Ricard são em território chinês. A multinacional Diageo, por sua vez, estimou que o vírus na região da Ásia e do Pacífico deve afetar significativamente o seu lucro em 2020.

Os vinhos de Bordeaux também sentem o efeito colateral do Covid-19, nome oficial da doença do novo coronavírus. Dados do Liv-ex, empresa que funciona como um mercado global para o comércio de vinho e reúne informações de mais de 474 empresas, registram uma queda de 38,3% na procura pelos vinhos de Bordeaux na penúltima semana de fevereiro, em comparação com a anterior. Os tintos, principalmente, desta região francesa são muito populares no mercado asiático.

As exportações chilenas já caíram entre 50% e 60%, do total de 350 contêineres que entravam por dia na China

Além da retração no consumo, as fronteiras fechadas impedem a entrada de vinhos e espumantes no país. Austrália e Chile são países que já estão sendo impactados em suas exportações. Segundo informações da revista Forbes, as exportações chilenas já caíram entre 50% e 60%, do total de 350 contêineres que entravam por dia na China.

Na Austrália, as fronteiras fechadas atrapalham ainda mais a sua viticultura. O país do canguru já sofre os efeitos da enorme queimada, que começou em setembro do ano passado e só terminou em janeiro de 2020.

O fogo destruiu mais de 10 milhões de hectares de vinhedos, de acordo com os órgãos oficiais, principalmente nas regiões de New South Wales e Victoria. A Austrália exporta mais de US$ 1,2 bilhão em vinhos para a China por ano.

Com o coronavírus, a redução de pedidos dos chineses, nos meses de janeiro e fevereiro foi de 90%, segundo a Forbes.

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