Crítica de Molière resiste por quatro séculos e chega ao palanque na França

Eventos de comemoração dos 400 anos de Molière tomam a França e a importância de seu legado virou até tema na disputa pela presidência do país

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Molière também atuava e nesta tela de Nicolas Mignard (1658) ele foi retratado como César na peça “Morte em Pompéia”

Quatro séculos depois, ele continua contemporâneo. A França celebra em 2022 com uma série de eventos os 400 anos de Jean-Baptiste Poquelin, conhecido como Molière, o autor e dramaturgo francês mais lido, traduzido e interpretado no mundo.

Ele escreveu cerca de 30 comédias em verso e prosa, algumas acompanhadas de balés e música, que se tornaram referências da literatura universal. Entre suas obras mais famosas, “O Doente Imaginário”, “O Avarento”, “O Tartufo”, “A Escola de Mulheres”, “Dom Juan” ou ainda “O Burguês Fidalgo”. Não é à toa que a língua francesa é chamada de “língua de Molière.”

Suas peças do século XVII poderiam ter sido escritas atualmente. Ele criou um teatro popular que retratou com um fino sarcasmo – misturando o burlesco, o tragicômico e dramas psicológicos – temas até hoje em voga, como o machismo, dogmas da igreja, a luta de classes e a corrupção.

O dramaturgo fez uma radiografia cáustica da sociedade e ridicularizou o esnobismo e a vaidade da burguesia nascente e da aristocracia, questionando os princípios da organização social.

Seu legado é tão poderoso que chegou a ser evocado na campanha das eleições presidenciais na França, com o primeiro turno neste domingo, 10 de abril. Valérie Pécresse, candidata de Os Republicanos (partido dos ex-presidentes Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy) chegou a defender a entrada do dramaturgo, que ela chamou de “maior gênio do teatro francês”, no Panthéon.

É nesse monumento que estão enterradas personalidades que prestaram grandes serviços à França. Entre eles Victor Hugo e Pierre e Marie Curie. A última a entrar foi a cantora e atriz americana Josephine Baker.

Mas o Palácio do Eliseu, a sede da presidência francesa, se opôs a essa possibilidade, alegando que todas as pessoas que entraram no Panthéon são posteriores ao Iluminismo e à Revolução de 1789.

Quando morreu em 1673, aos 51 anos, por pouco Molière não foi enterrado, segundo hipóteses baseadas em documentos da época. Como ele não havia renunciado à sua profissão de ator e não tinha recebido o sacramento da confissão, ele não podia, segundo as regras da diocese de Paris na época, receber uma sepultura religiosa.

Caricatura que mostra a universalidade da obra de Molière feita por Plantu, para o Le Monde, em 1986

No final, com receio de chocar a opinião pública, a Igreja, que fazia censura em suas obras, permitiu que ele fosse enterrado, mas sem missa nem pompa, na calada da noite. Séculos depois, contudo, seu nascimento continua sendo celebrado.

Até o rei se rendeu

Profundo observador do comportamento humano e de suas fraquezas, ele criou personagens que, embora estereotipados, parecem reais e se tornaram eternos, com padrões que podem ser transpostos aos dias de hoje.

Molière era também ator e encenou a maior parte de suas peças. Era incomum em meados de 1600 reunir as funções de ator, diretor e autor. Ele contribuiu ainda para elevar o status da comédia e deu grande impulso ao teatro.

Apesar de não poupar a igreja, a aristocracia e nem mesmo a monarquia em suas comédias, paradoxalmente o maior admirador e patrocinador de Molière foi o rei Luís XIV. Diversas peças foram apresentadas no teatro da Ópera Real do castelo de Versalhes.

A estreia de “Tartufo” foi realizada nos jardins do palácio. É por isso que Versalhes e seu castelo fazem parte das celebrações dedicadas a Molière ao longo do ano na França.

Peças emblemáticas que foram encenadas para o rei e sua corte serão retomadas no teatro da Ópera do castelo na forma original de “comédias-balés”, com músicas criadas por Jean-Baptiste Lully, o compositor de Luís XIV. Em junho, será encenado “O Burguês Fidalgo”. A programação vai até o final de setembro e o palácio de Versalhes lançou CDs dessas peças.

Até 17 de abril, o visitante poderá conferir ainda a mostra “Molière, la fabrique d’une gloire nationale” (Molière, a construção da glória nacional, numa tradução livre) no Espace Richaud, na cidade de Versalhes.

Em Paris, um lugar de destaque nas comemorações é a célebre Comédie Française, chamada de “casa de Molière”, embora ela tenha sido fundada pelo rei Luís XIV sete anos após a morte do dramaturgo para abrigar sua companhia teatral.

Em Paris, um lugar de destaque nas comemorações é a célebre Comédie Française, chamada de “casa de Molière”

A poltrona onde Molière passou mal durante uma apresentação de “O Doente Imaginário” (ele faleceu algumas horas depois disso) é até hoje exibida em uma galeria desse teatro, que fica a poucos passos da casa onde morava Molière, na rua Richeilieu.

A Comédie Française apresentará até julho uma ampla programação com peças de Molière, boa parte delas com ingressos já esgotados. O Misantropo está em cartaz até 22 de maio e, O Avarento, até 24 de julho. Também há DVDs dessas montagens, além da exposição “Os mil rostos de Molière” nesse teatro, até julho.

Há outras mostras em Paris ligadas aos 400 anos de seu nascimento. Uma delas é a da Biblioteca Nacional da França, que analisa a simbologia que envolve a figura lendária de Molière, com edições originais, figurinos, fotografias, documentos e maquetes de cenários. A Ópera de Paris apresenta “Molière em música”. Ambas serão exibidas a partir de 27 de setembro.

O mercado editorial francês também se movimentou. Um “Atlas Molière”, da editora Les Arènes, reúne 150 documentos sobre a vida, a obra e a época em que o dramaturgo viveu. A célebre editora Gallimard lançou a Pléiade Molière com suas obras completas. A Flammariou publicou em parceria com a Comédie Française uma versão de “O Burguês Fidalgo” adaptada para um público jovem, com ilustrações.

Há ainda conferências sobre ele em universidades francesas, como a Sorbonne, e de outros países, já que as celebrações do “ano Molière” não se limitam a França. Em vários países, como Estados Unidos, Itália, Suíça, Bélgica e também o Brasil há eventos para homenagear o autor e dramaturgo francês.

A Editora Unesp, por sinal, lançou uma trilogia com três obras de destaque do autor: “O Tartufo”, “Dom Juan” e “O Doente Imaginário”. Como se vê, um criador de obras universais, um crítico que se mantém no debate, sem data de validade.

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