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Edson Rigonatti, da Astella Investimentos, dá sua receita para as startups enfrentarem a crise

Com 13 empresas no portfólio, como Resultados Digitais e Omie, a Astella se movimentou rápido para apoiar suas investidas. Nesta entrevista, Rigonatti conta o que está fazendo, fala do mercado de venture capital e de seu quarto fundo de R$ 400 milhões

 

Edson Rigonatti, fundador e sócio da Astella Investimentos

O investidor Edson Rigonatti, fundador e sócio da Astella Investimentos, é considerado o rei do playbook , um “documento” que padroniza os processos em diversas áreas com o passo a passo do que fazer. E ele não poderia deixar de desenvolver sua própria receita para que as startups enfrentem essa crise por conta da pandemia do coronavírus.

Nesta entrevista, Rigonatti conta o playbook que desenvolveu com as 13 empresas de seu portfólio, como a Resultados Digitais e a Omie, e faz uma avaliação dos riscos e oportunidades do mercado de venture capital.

“Não desfizemos nenhum contrato e nenhuma negociação. Só estamos pedindo para aqueles com quem estávamos no final da transação para esperar um ou dois meses para ter fluidez no desembolso do dinheiro”, afirmou Rigonatti, ao NeoFeed.

Ele diz que a crise vai trazer as avaliações das startups a patamares mais realistas e compara essa crise com a do estouro da bolha da internet, no começo dos anos 2000, dada a incerteza de curto prazo. Mas, em sua visão, as startups de hoje estão muito mais preparadas para enfrentar essa crise do que as daquela época.

“Eu acho que vai ter uma postergação do crescimento, uma postergação do famoso “triple, triple, double, double, double”. Vai ser um “triple, triple, zero, double, double”, diz Rigonatti, referindo-se à teoria conhecida com T2D3, na qual a startup triplica a receita por dois anos seguidos e depois duplica por três anos seguidos.

Rigonatti também fala de seu novo fundo de R$ 400 milhões, cuja captação acaba de ser concluída. “Vai ficar mais fácil vender serviços digitais”, diz ele. Acompanhe.

Você é considerado o rei do playbook. Qual é a sua receita para as startups enfrentarem essa crise?
Vou te contar o playbook até aqui. E, nas próximas semanas, vamos atualizar. Mas a primeira etapa foi garantir a segurança física de todo mundo e de todos os colaboradores. Preparamos todos para o isolamento social e para as práticas de higiene. A segunda etapa, há 15 dias, foi preparar todo mundo para as dinâmicas e para os rituais de home office. Na sequência, entramos com um material preparando psicologicamente, para evitar pânico e tomadas de decisões apressadas. Começamos a orientar todo mundo a procurar algum tipo de psicólogo, mentor e começar a extravasar a parte psíquica de todo o processo. A quarta etapa, que acabamos há uma semana, foi a de planejamento.

Como foi essa etapa?
Trabalhamos com todo mundo para ter três cenários. Um deles, com uma redução de 25% da demanda, outro com 50% e um com 75%. E, baseado em cada um desses cenários, estabelecemos gatilhos de ações para nos prepararmos para o cenário seguinte. E fizemos isso de acordo com a disponibilidade de caixa. Classificamos a empresa em três categorias: quem tinha mais de 12 meses de caixa; quem tinha entre seis e 12 meses; e quem tinha menos de seis meses. Mas todas as empresas, com exceção de uma delas, tinham caixa suficiente para lidar com seis meses de estresse dentro desses cenários. E para aquelas que estão em situação abaixo de 12 meses (de caixa), estamos ativamente buscando linhas de financiamento, especialmente dívida, para garantir algum tipo de colchão em caso de necessidade.

“Todas as empresas, com exceção de uma delas, tinham caixa suficiente para lidar com seis meses de estresse”

Quantas empresas no portfólio atual?
São 13 empresas. Elas estão bastante saudáveis. É uma situação razoavelmente confortável. Nesta última semana, começamos a trabalhar as oportunidades. Começamos a trabalhar em cada uma delas onde não só poderíamos ajudar a sociedade, mas também, de uma certa maneira, aproveitar o momento para tomar espaço de competidores e lançar novos tipos de produto. É a hora de buscar vender lenço. Estamos nessa fase agora.

Como a crise vai afetar o mercado de venture capital?
A primeira reação vem dos investidores (que alocam recursos nos fundos). É uma indústria que tem um colchão de longo prazo, o que traz um pouquinho de resiliência. A parte boa do Brasil é que os principais fundos já tinham fechado novas captações. Então, de uma certa maneira, tem o dinheiro garantido para esse próximo ciclo (de investimentos). Mas está todo mundo tendo o máximo de parcimônia, porque os investidores estão pedindo o mínimo de chamada de capital possível. Está todo mundo preferindo ficar com caixa em mãos.

Por quê?
Porque vão ter tantas oportunidades na Bolsa e tantas oportunidades em negócios que vão estar em distress, que acredito que vai ter um deslocamento, num primeiro momento, para esse tipo de oportunidade. O dinheiro vai primeiro para as oportunidades da bolsa e depois para as coisas que estariam quase que quebrando. E, nos próximos três, nove meses, o venture capital deve retomar a atividade com uma certa normalidade. Parta do princípio que normalidade é uma readequação de “valuation”. O principal ajuste vai ser no preço e não no nível de atividade.

O que você está me dizendo é que nos próximos meses você não deve fazer novos investimentos e nem follow ons?
Só para dar uma perspectiva nossa. Estamos chamando capital só para as coisas que já havíamos nos comprometido. Não vou dar furo em ninguém. E para os investimentos que estávamos prestes a fazer, estamos pedindo um pouquinho de tempo para entender o real fluxo do dinheiro. Não tiramos o comprometimento, não desfizemos nenhum contrato e nenhuma negociação. Só estamos pedindo para aqueles com quem estávamos no final da transação para esperar um ou dois meses para ter fluidez no desembolso do dinheiro. E acredito que é isso que deve estar acontecendo na maior parte dos fundos.

Você falou de uma readequação das “valuations”. É a crise que está forçando ou elas estavam irrealistas antes da crise?
Acredito que as “valuations” voltam para um patamar histórico. Tem essa teoria econômica que chama “reversão à mediana”. Ela diz que tudo volta para um patamar mediano histórico. Acredito que é isso que estamos vivendo. Não devemos ver uma depressão significativa de preço, mas devemos ver uma volta a um patamar de alguns anos atrás.

“Acredito que as “valuations” voltam para um patamar histórico. Não devemos ver uma depressão significativa de preço, mas devemos ver uma volta a um patamar de alguns anos atrás”

O patamar de preços, antes do coronavírus, era irreal?
Era. A gente estima que estava uns 30% a 40% acima da mediana histórica.

Você está se referindo ao Brasil ou aos casos internacionais?
Inclusive no Brasil. Acho que tem um pedacinho da cadeia aqui no Brasil que estava sendo precificada a preço de mercado americano. Os melhores empreendedores, aqueles globais, aquelas coisas que chamam mais atenção, estavam sendo precificadas a preço de “Silicon Valley”.

Você comentou que os principais fundos concluíram suas captações. A Astella concluiu a captação do seu quarto fundo?
Sim. Ele é um fundo de R$ 400 milhões. E tem a Kaszek, que captou, no fim do ano passado, quase US$ 600 milhões. A Monashees, quase US$ 300 milhões. A Canary e o Valor também captaram. Todos estão com recursos significativos para os próximos dois anos.

Você vai mudar a tese de investimento com esse novo fundo de R$ 400 milhões?
A ideia segue sendo investir em empresas no estágio inicial. Nosso sweet spot é o seed, quando a empresa tem “product market fit”. E estamos ajudando a empresa a escalar. A ideia é manter o ritmo. Temos feito cinco a sete investimentos. Não vamos acelerar o número de novos investimentos. O que queremos é prolongar o tempo que estamos dando suporte às empresas. Com um fundo maior, a gente consegue dar suporte e liderar a série A, como também apoiar a série B, que é um elemento importante para ajudar o empreendedor a dar esses saltos.

Já fez investimentos com esse fundo?
Ainda não fizemos. Esperamos começar a fazer em abril. Os comprometimentos que eu comentei contigo, estou fazendo investimentos do terceiro fundo, que ainda temos bastante dinheiro. Os novos investimentos faríamos a partir do quarto fundo. E, no caso dos follow ons, ainda estamos reavaliando para saber qual vai ser o novo patamar de mercado. Tinha uma expectativa de taxa de crescimento para poder fazer follow ons. Mas, claramente, essas metas não vão ser atingidas. Elas vão ser postergadas nos próximos seis a nove meses, senão mais. Ainda estamos tentando estimar qual vai ser esse novo patamar de tração para poder redefinir qual vai ser a nossa estratégia de follow on. O que tenho dito para os nossos investidores é que não vamos chamar capital para salvar empresas. Precisamos definir um novo patamar de taxa de crescimento, um novo patamar de valuation, para aí sim definir o que merece receber dinheiro fresco para continuar crescendo. Essa é a parte do playbook que ainda não conseguimos terminar de estruturar.

O cenário está muito incerto ainda?
Está muito incerto porque depende de toda a cadeia. O que estamos fazendo agora é estudar as crises passadas e tentando entender o que os fundos de late stage vão fazer daqui para frente. A primeira coisa que tem de fazer é fugir da zona de barganha. O primeiro ciclo vai ser as barganhas, as galinhas mortas. Vai todo mundo procurar as galinhas mortas. E só depois disso é que vamos conseguir saber, de verdade, o que é que vai ser o preço de um ativo saudável para definir e ajudar os empreendedores a uma estratégia de captação das próximas rodadas.

Você comentou sobre as galinhas mortas. Mas o fato de os preços caírem não seria uma boa hora para investir?
O que eu estava comentando é que existe perspectivas diferentes em cada estágio. Eu acho que, nos estágios iniciais, o que vai mudar é preço. Mas o volume e o desejo de investimento permanece. No meio da cadeia, você tem aquelas coisas que vão precisar de dinheiro e não têm dinheiro. Essas vão ser as galinhas mortas. É quem tem um bom ativo, mas não estava preparado para enfrentar a crise. E tem uma terceira etapa que são os reajustes de preços, ou seja, o que é preço novo ao longo da cadeia para continuar crescendo sua empresa. São esses três diferentes tipos de movimentação de preço e dinâmica de mercado.

Outro comentário seu foi sobre a incerteza. Você já viu uma crise com a atual?
Eu acho que na minha vida no setor de venture capital não. Atuamos desde 2010. Começamos depois da última crise (a de 2008). Mas, pelo que me lembro de bolha da internet, me parece aquilo que se viveu em 2001, 2002 e 2003. Cheira um pouco a ser aquilo.

Você vê semelhanças entre o estouro da bolha pontocom e esse momento? Por quê?
Bastante. Pela dificuldade de enxergar três meses, seis meses adiante. Eu acho que, de uma maneira geral, na indústria de venture capital, todo mundo enxerga isso que está acontecendo como algo benéfico para a sociedade. Respeitando quem está sofrendo com isso e vai sofrer com isso, tanto do ponto de vista de saúde, como no econômico, a humanidade tende, no agregado, a melhorar muito depois desse tipo de situação. A humanidade dá saltos quânticos depois desse tipo de coisa. A peste negra criou o saneamento básico, que permitiu a Revolução Industrial. A febre espanhola criou a penicilina, que gerou um outro boom econômico. A gente sabe que, no longo prazo, as coisas tendem a melhorar até mais do que antes. A dificuldade é saber quanto tempo vamos ficar em lockdown, quantos meses vai demorar à atividade econômica retomar a um patamar intermediário. A volatilidade é de curto e médio prazo, não de longo prazo. Tanto isso é verdade que não se vê os investidores recuando da cadeia produtiva de venture capital.

Você disse que vê semelhanças sobre esse momento e o estouro da bolha pontocom nos anos 2000. Me lembro que havia muito capital, pelo menos para aquela época, mas as startups não tinham planos de negócios tão consistentes como hoje. As startups de hoje me parecem que não são vapor. Elas estão muito mais preparadas do que as startups de 2001. Muitas daquelas empresas iam quebrar, com crise ou sem crise.
Você está coberto de razão. Eu não me referia à estrutura das empresas. E uma outra diferença significativa é que naquele momento, grande parte do dinheiro vinha do mercado público. E hoje o dinheiro vem do mercado privado. O que restringe a crise dentro do mundo de tecnologia. O que eu estava querendo comparar era o quão difícil era planejar próximas etapas, dada a incerteza do cenário de curto prazo.

“O segmento de tecnologia vai ser o que mais vai se beneficiar disso tudo. O comportamento humano mudou. Vai ficar mais fácil vender serviços digitais”

Você acredita que as startups hoje estão preparadas para enfrentar essa crise?
Do nosso portfólio, acredito que tivemos bastante sorte e um pouco de tese. A gente está com empresas no fundo com bastante caixa. Me parece que vamos continuar tendo uma certa saudabilidade no mercado brasileiro de uma maneira sistêmica.

Você não acredita que possa ter uma quebradeira generalizada de empresas financiadas por fundos de venture capital?
Não. Eu acho que vai ter uma postergação do crescimento, uma postergação do famoso “triple, triple, double, double, double”. Vai ser um “triple, triple, zero, double, double”. (Essa é a teoria conhecida com T2D3, no qual a startup triplica a receita por dois anos seguidos e depois duplica por três anos seguidos)

As startups estão acostumadas a serem cobradas para ter um crescimento exponencial. Agora, elas vão ter de tirar o pé do acelerador. É uma mudança de mindset, não?
De maneira mediana, sim. Mas terão empresas de segmentos que vão bombar, como telemedicina, educação, entretenimento, ferramentas de trabalho remoto. Muda significativamente a maneira como a sociedade inteira vai usar tecnologia daqui para frente. De uma certa maneira, acredito que o segmento de tecnologia vai ser o que mais vai se beneficiar disso tudo. O comportamento humano mudou. Vai ficar mais fácil vender serviços digitais.

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