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Como o Kaszek construiu a maior coleção de startups bilionárias da América Latina

O maior fundo latino-americano de venture capital tem quatro unicórnios no portfólio: Nubank, Gympass, Loggi e QuintoAndar. Com US$ 600 milhões em caixa, ele começa a caça às próximas empresas que poderão valer mais de US$ 1 bilhão

 

Santiago Fossatti, um dos sócios do Kaszek

Em 2007, o site argentino Mercado Livre se preparava para abrir o seu capital na Nasdaq, a bolsa eletrônica dos Estados Unidos. O fundo americano General Atlantic seria o investidor âncora do IPO e mandou o jovem colombiano David Vélez para fazer o due dillegence da startup latino-americana.

Foi a primeira vez que os argentinos Nicolas Szekasy e Hernan Kazah, dois cofundadores do Mercado Livre ao lado de Marcos Galperin (que ainda prossegue na empresa como CEO), tiveram contato com Vélez, um jovem executivo do mercado financeiro. Desde então, a dupla nunca perdeu contato com Vélez.

Os dois deixaram o Mercado Livre e criaram o Kaszek Ventures, um fundo de venture capital para investir em startups latino-americanas em 2011. Três anos depois, Szekasy e Kazah foram os primeiros investidores do Nubank, a fintech fundada por Vélez que hoje vale US$ 10 bilhões, quando o projeto estava ainda no PowerPoint.

“Eles me conheciam há muito tempo e tínhamos um relacionamento muito rico”, disse Vélez ao NeoFeed. “Eles participaram de um dos maiores sucessos da América Latina como empreendedores. Esse é um diferencial deles.”

O Nubank é a startup mais reluzente do portfólio do Kaszek. Mas ela não é a única bilionária. Desde 2011, quando captou seu primeiro fundo de US$ 95 milhões, o Kaszek é a gestora de venture capital latino-americana que descobriu a maior quantidade de unicórnios na regão, como são chamadas as empresas de capital fechado que valem mais de US$ 1 bilhão.

David Vélez, fundador do Nubank, a startup mais valiosa do Kaszek

A América Latina conta atualmente com sete unicórnios. O Kaszek até agora encontrou quatro. Além do Nubank, o fundo investiu também nos estágios iniciais da rede de academias Gympass, do serviço de aluguel de apartamentos e casas QuintoAndar e da empresa de logística de última milha Loggi. Só 99, Rappi e iFood, entre as startups bilionárias, não têm investimentos do fundo que nasceu na Argentina.

“Não gostamos do termo unicórnio. Esse é um objetivo que não é saudável”, diz Santiago Fossatti, um dos cinco sócios do Kaszek Ventures, em entrevista exclusiva ao NeoFeed – os outros são Szekasy e Kazah (já citados) e Nicolas Berman e Andy Young. “O nosso propósito é ajudar aos empreendedores a construir empresas muitos grandes”

Nessa corrida, o Kaszek já tem outros unicórnios em gestação. Segundo fontes ouvidas pelo NeoFeed, a fintech brasileira Creditas e a chilena NotCo, que produz alimentos à base de plantas, caminham para valerem mais de US$ 1 bilhão.

O portfólio atual do fundo conta 72 empresas investidas desde 2011, uma média de nove a cada ano. Desse total, mais de 50% são de startups no Brasil. “Eles têm um dos melhores portfólios de startups do Brasil”, diz um gestor de venture capital, que não quer se identificar.

Dinheiro novo

A tarefa de criar empresas gigantes ganhou o impulso de dois novos fundos que somados captaram US$ 600 milhões, o maior já levantado por uma gestora de venture capital da região latino-americana. Desde sua origem, o Kaszek já captou US$ 1 bilhão em cinco fundos.

Da esq. à dir: Nicolas Berman, Nicolas Szekasy e Hernan Kazah, que fundaram o Mercado Livre

O primeiro fundo, de US$ 375 milhões, será usado para investir em startups em estágios iniciais nas séries A e B, bem como na fase de seed money (o dinheiro semente). Os cheques começam em US$ 500 mil e podem chegar a US$ 10 milhões. “É o que temos feito até hoje”, afirma Fossatti, o único dos sócios que reside no Brasil.

O outro fundo, chamado de Kaszek Ventures Opportunity 1, tem caráter diferente. São US$ 225 milhões para investir em empresas que já fazem parte do portfólio. “São empresas nas quais já colocamos vários cheques, mas ainda acreditamos no potencial e que há muita oportunidade em continuar aportando recursos”, diz Fossatti. Neste caso, os cheques podem chegar até US$ 50 milhões.

O NeoFeed apurou que o Softbank, que anunciou um fundo de US$ 5 bilhões para startups da América Latina neste ano, é um dos investidores do fundo para investir em startups em estágio inicial do Kaszek. Questionado sobre essa informação, Santiago disse que não poderia revelar os nomes dos investidores.

Coincidência ou não, o Softbank fez aportes em uma série de startups nas quais o Kaszek investiu. A Gympass, a Loggi e o QuintoAndar se transformaram em unicórnios graças aportes recentes do fundo do japonês Masayoshi Son.

Três outras startups também ganharam recursos do Softbank. A Creditas recebeu, em julho, US$ 231 milhões e o marketplace de produtos para casa MadeiraMadeira, US$ 110 milhões, em setembro. Em conjunto, os dois fundos colideraram aporte de R$ 70 milhões na operação de venda de carros usados Volanty, em agosto.

A equação humana

O que fazer para receber um investimento do Kaszek? Em primeiro lugar, é preciso resolver uma dor de algum setor com tecnologia. Depois, estar em um mercado grande capaz de impactar milhões de pessoas. Na sequência, a solução precisa ser escalável e original. Mas nada, nada mesmo, é mais importante do que o empreendedor.

“O nosso objetivo é apoiar empreendedores com capital, mas principalmente com o nosso tempo”, diz Fossati

“O valor é a pessoa que teve a ideia. Não somos uma firma de investimento ou que só administra recursos”, diz Fossatti. “O nosso objetivo é apoiar empreendedores com capital, mas principalmente com o nosso tempo.”

Vamos voltar ao começo dessa reportagem. Vélez não recebeu recursos do Kaszek apenas porque teve um insight genial que poderia chacoalhar o mercado financeiro brasileiro. Sim, ele teve uma ideia original. Sim, ele iria atuar em um mercado gigante. E sim, o smartphone iria se transformar em um banco digital. Mas o Kaszek investiu no Nubank porque acreditava que Vélez seria capaz de tirar aquela ideia do papel.

Apesar de o empreendedor ser o centro da estratégia de investimento do Kaszek, a empresa tem alguns mercados nos quais gosta de investir. Em primeiro lugar, o fundo aposta em plataformas, por conta da experiência dos fundadores, que criaram o Mercado Livre.

Outro setor é o de startups financeiras. O fundo investe no Konfio, no México, além das já citadas Nubank e Creditas. Saúde e de educação são também áreas de interesse do Kaszek. No primeiro caso, o Dr. Consulta e a Cuidas são algumas das startups do portfólio. No segundo, a Camino, fundada por profissionais da rede de ensino básico Somos (comprada pela Kroton), como o ex-CEO Fernando Shayer, acaba de receber aporte, em uma rodada de seed money.

Por fim, o Kaszek está investindo em um setor que Fossatti chama de direct consumer, no qual o intermediário é eliminado. A Liv Up, de comidas saudáveis, é citada como um exemplo. A empresa produz pratos prontos e os entrega diretamente na casa do consumidor.

Fundo de empreendedores

O trabalho do Kaszek não termina com o aporte. Na verdade, ele começa depois que o cheque é assinado. Os fundadores do fundo participam ativamente dos conselhos e tentam ajudar em diversas áreas. Fossatti, por exemplo, está no board da Liv Up, entre outros nos quais tem assento.

Vitor Torres, CEO e fundador da Contabilizei, que recebeu investimento do Kaszek

“Eles são vistos como uma das primeiras opções aos empreendedores quando querem captar uma série A e até mesmo B”, diz um investidor, que já fez negócios em conjunto com o Kaszek. “Além disso, eles são reconhecidos como empreendedores, por conta do histórico do Mercado Livre.”

Observe o exemplo da Contabilizei, startup de contabilidade que recebeu o primeiro aporte do Kaszek em 2014. “Eles são os fundadores do Mercado Livre e montaram um negócio do zero e foram até o IPO”, diz Vitor Torres, CEO e fundador da Contabilizei. “Poucos fundos possuem essa experiência operacional.”

De acordo com Torres, o Kaszek é muito ativo e conta com uma equipe comandada pelo americano Andy Young, que os ajuda em diversas situações, desde a operação, passando por marketing e tecnologia.

Recentemente, a Contabilizei precisava contratar um vice-presidente de tecnologia e o Kaszek não só ajudou a selecionar, como entrevistou os candidatos. O escolhido foi Giulliano Carvalho, que era da Vivo. Um novo vice-presidente de growth, Guilherme Soares, com passagens em Cielo e Latam, foi treinado pelo time de Yong.

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