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Entre a ironia e a histeria: como o coronavírus mudou a rotina americana

A epidemia é tratada como “exagero” em conversas informais. Mas o NeoFeed mergulhou no cotidiano dos americanos e a prática é bem diferente: prateleiras de supermercado vazias, aulas suspensas, “racionamento” de máscaras cirúrgicas em hospitais, trabalho remoto e viagens canceladas

 

A rede supermercado Ralph’s estava com as prateleiras vazias na noite desta quinta-feira, 12 de março

Los Angeles – “Você sabe de um lugar onde eu possa me esconder de todos esses altos e baixos?”. A parte da letra da música I Will Find, do DJ Lukas Ruiz, mais conhecido pelo nome artístico Vintage Culture, ganhou outro significado para a estudante Kennia Sfreddo, de 21 anos.

Morando na Califórnia há quatro anos, a brasileira, natural de Porto Alegre, contrariava os apelos do avô e contava os minutos para o show de um de seus músicos prediletos. “Comprei o ingresso assim que o show foi anunciado, em janeiro. Já fui em várias apresentações dele no Brasil e estava realmente ansiosa para vê-lo em ação em Los Angeles”, contou ao NeoFeed.

Kennia, que há pouco tempo combateu uma pneumonia, sabe que o coronavírus poderia lhe colocar em risco – daí a pressão familiar para a desistência de acompanhar o show.  Mas ela se manteve irredutível. E só mudou de ideia mesmo na marra: a apresentação do DJ, que aconteceria neste sábado, foi cancelada na tarde desta quinta-feira, 12 de março. 

Kennia Sfreddo tinha ingresso para o show do Vintage Culture, cancelado por conta do coronavírus

Esse é apenas mais um na lista de eventos que sofreram baixa por conta da epidemia do coronavírus. Até os parques da Disney e da Universal devem manter os portões fechados até o final do mês, numa tentativa de conter a disseminação da doença.

Por um tempo ainda maior, algumas instituições de ensino suspenderam suas aulas presenciais. A Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA) é uma das organizações que vai adotar o ensino online até o final do semestre – o que afeta diretamente o cotidiano de seus alunos.

Beatriz Sobral, de 26 anos, vai acompanhar seus professores do curso de especialização do conforto de sua casa, mas não vê nenhum motivo para comemorar – dentro ou fora do campus. 

“Esses dias eu precisei comprar um termômetro, e em três farmácias o produto estava esgotado”, contou Beatriz ao NeoFeed. “Gastei US$ 60 para comprar o último termômetro disponível na única farmácia que dispunha de um. Jamais desembolsaria tanto dinheiro para comprar algo que, em condições normais, seria a metade do preço, mas eu realmente não tinha opção.”

Apocalipse now

Esse cenário “apocalíptico” parece ser o remake mais comum no dia-a-dia de Los Angeles. A  dinamarquesa Mayanna Widdowson, 39 anos, que há 12 anos mora em Los Angeles, revela que viveu situação semelhante.

“Minha mãe tirou sarro da minha cara quando disse que comprei o último pacote com 30 rolos de papel higiênico disponível no supermercado. Tomei essa decisão depois de visitar outras duas lojas e sair de mãos abanando”, disse Mayanna ao NeoFeed

Agora, a mãe, que está na Dinamarca, parece não apenas entender as circunstâncias, mas respirar aliviada com a decisão da filha. “Estou vendo amigos e parentes desesperados por produtos essenciais e pelo menos essa ‘compra atacada’ vai durar por três meses”, afirma Mayanna.

Mas não é só em casa que as coisas mudaram para Mayanna. Funcionária da Singapore Airlines, a especialista em vendas relatou que a empresa vai alugar um segundo escritório na cidade e dividir as equipes. “Aqueles que não podem trabalhar remoto, serão separados – a ideia é termos sempre um time de back up, caso alguém seja contaminado e coloque as operações em risco”, diz. 

Home office obrigatório

Empresas de tecnologia estão encorajando seus funcionários a trabalharem de casa. Twitter, Facebook e Google são algumas das gigantes que impuseram duras restrições às viagens de seus colaboradores e promoveram o chamado home office, que é o bom e velho trabalho remoto.

As startups seguem caminho parecido, mas, por terem um quadro menor de funcionários, conseguem ser ainda mais incisivas. A californiana GOQii, ativa no mercado de healthtech, por exemplo, vai custear todas as despesas médicas dos empregados diagnosticados com o Covid-19. Além disso, a empresa colocou à disposição de toda sua equipe produtos de limpeza das mãos e máscaras cirúrgicas – dois produtos valiosíssimos em tempos de pandemia.

Uma máscara cirúrgica avulsa, antes encontrada por cerca de US$ 1, agora é vendida por US$ 5 em sites como eBay. A escalada no preço foi tamanha que as empresas tiveram de intervir. A Amazon e a eBay anunciaram que os vendedores que aumentarem as cifras de produtos como máscara e álcool gel, terão seus anúncios banidos das plataformas. 

Captura de tela do eBay, onde máscaras cirúrgicas são vendidas por US$ 5

O preço da ansiedade

Essa exploração no preço das máscaras cirúrgicas explica as mudanças em alguns procedimentos hospitalares. “Agora, quando precisamos de máscara, recebemos poucas unidades e ainda temos que justificar o uso”, relata a enfermeira Stacey Nuñez, que trabalha no St. Johns Regional Medical Center, na cidade de Oxnard, a pouco menos de 100 quilômetros de Los Angeles.

“Outro dia, uma colega esqueceu uma caixa de máscaras num dos quartos e, ao voltar para buscar o pacote, não o encontrou mais. Até os familiares dos pacientes estão pegando o que podem”, afirmou Stacey. 

Essas atitudes desesperadas se repetem nos corredores dos principais supermercados. Na rede Ralph’s, que é considerada uma bandeira de boa qualidade e preço acessível, os corredores que antes eram coloridos pela ampla variedade de produtos, agora dão lugar a uma prateleira vazia e monocolor.

Parte de produtos de limpeza do supermercado Ralph’s, na zona oeste de Los Angeles, está defasada

A unidade do mercado no cruzamento da Wilshire Avenue e Bundy Drive, na zona oeste de Los Angeles, foi uma das últimas “vítimas” dessa histeria generalizada. São 12 corredores, além de áreas destinadas às frutas e verduras e outra a queijos e comidas prontas. Para onde se olha, há “buracos” que revelam uma reposição quase impossível. 

Os corredores mais afetados são os de produtos de higiene, de limpeza e de água. Surpreendentemente, a sessão de carnes também foi fortemente impactada. 

Cenas iguais se repetiam no Whole Foods, cerca de quatro quarteirões dali. A unidade da rede de supermercado comprada pela Amazon está posicionada para atender um público de maior poder aquisitivo. Ali também havia falta de produtos.

A prateleira de remédios tinha, curiosamente. uma grande área desfalcada na parte de Vitamina C e outras drogas antigripais.

É comum ver rostos espantados por trás dos celulares que registram o vazio dos mercados. O registro é compartilhado com um misto de humor e de histeria, sobretudo em conversas informais. 

Mudança de ideia e plano

A aposentada Kerry Karp, de 67 anos, passeava com seu cachorro, nas ruas arborizadas de Brentwood, quando parou para conversar com outros vizinhos que caminhavam ao lado de seus pets. 

O assunto do coronavírus deu lugar ao bom e velho “está calor, né?” ou ao infalível “e essa chuva inesperada?”. Ali, na conversa com os colegas de bairro, Kerry confessava que achava um exagero toda essa movimentação.

“Essa doença não é tão perigosa assim, não há necessidade para estocar alimentos”, falou Kerry. Dias depois, a aposentada cancelou a viagem que faria no começo de abril com a família – a primeira em três anos.

Outros preferem tratar do assunto com piada. “Toda vez que alguém tosse, eu já penso logo que é coronavírus. Daí eu pego o pano, o desinfetante e vou acompanhando essa pessoa, aparelho por aparelho”, disse entre risadas Arlene Tarokh, de 22 anos, que trabalha como recepcionista em uma academia em Los Angeles.

Brincadeiras à parte, a jovem confessa que viu o número de alunos diários diminuir à medida que as notícias sobre a epidemia se intensificavam. Para ela, muita gente optou por treinar em casa para evitar um possível contágio. A realidade fica evidente sobretudo no último horário, por volta das 8 horas da noite. 

Cerca de cinco ou seis alunos se revezavam nos cerca de trinta aparelhos disponíveis na pequena academia instalada no segundo andar de um prédio comercial na sempre charmosa Montana Avenue. Agora, nesse horário, são no máximo três “corajosos” que encaram a malhação no ambiente fechado.

Em férias no Peru, a esteticista Melissa de Jesus, de 38 anos, diz ter viajado sem medo do coronavírus, mas que agora teme não poder voltar ao seu país. “Sei que não há suspensão de voos da América do Sul, e que os casos por aqui são menos numerosos, mas as coisas mudam com tanta rapidez. Fico preocupada em não poder regressar, então quero abreviar a viagem”, diz. Com passagem marcada para o dia 20, a americana tenta alterar seu tíquete para regressar o quanto antes. 

Melissa de Jesus teme não conseguir voltar do Peru

Casa Branca contra-ataca

Essa corrida contra o tempo tem a ver com a paralisação dos voos que ligam Estados Unidos e Europa, anunciado pelo presidente Donald Trump na noite desta quarta-feira, 11 de março, um dia depois de a Organização Mundial da Saúde decretar o coronavírus como uma pandemia.

“Essa é a força-tarefa mais agressiva para enfrentar um vírus estrangeiro já registrada na história moderna”, disse Trump pela tevê. A medida é uma tentativa sem precedentes de tentar conter o vírus que já infectou mais de 130 mil pessoas em todo mundo. Só nos EUA, foram 1,5 mil diagnósticos positivos. 

E, mesmo sem sair de casa, os americanos são bombardeados com mensagens que pedem calma, mas espalham pavor. Empresas como o banco Wells Fargo, a farmacêutica CVS e a empresa de carona Via encaminharam e-mails sobre o tema a toda sua base de clientes. A ideia é informar sobre os procedimentos que estão fazendo para prevenir o contágio e divulgar informações úteis.

Mas não importa o que seja feito, por empresa ou por governo, parece que é impossível passar pela crise do coronavírus intacto – até do ponto de vista econômico. 

Só no ramo de turismo, os especialistas trabalham com uma perda de US$ 18 bilhões, mas a cifra pode ser maior se somarmos os serviços que giram na órbita desse ecossistema.

Para tentar evitar uma catástrofe, o governo de Trump anunciou um resgate de US$ 200 bilhões a empresas afetadas diretamente pelas últimas medidas do governo e pela pandemia. Ainda assim, o índice Dow Jones despencou 10% ontem – a maior queda desde 1987. Alguns analistas já falam sobre um cenário de crise semelhante ao de 2008, quando houve o estouro da bolha imobiliária no país.

Mas enquanto o estrago na macroeconomia vai sendo estampado nas manchetes mundo afora, tragédias menores passam quase despercebidas. Na última terça-feira, 10 de março, a jovem Brittany Guy, de 24 anos, teve de apelar às redes sociais por ajuda.

“Preciso de emprego! Trabalho em festivais e convenções, como freelancer, e todo meu orçamento depende desses eventos que agora foram cancelados. Realmente preciso encontrar um trabalho, então, se alguém souber de algo, por favor, me avise”, escreveu no Nextdoor, plataforma para a troca entre vizinhos

Nas respostas à postagem, diversos outros casos semelhantes vieram à tona. E não se sabe como e se o governo americano está preparado para socorrer os milhares de profissionais independentes que serão afetados pelas últimas notícias decorrentes da pandemia.

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