Eureka! Pesquisador alerta para a falta de grandes ideias e discute as razões

Em entrevista ao NeoFeed, o pesquisador Michael Bhaskar, que estuda a desaceleração das grandes ideias, explica o porquê de as novidades estarem ficando tão rarefeitas. Spoiler: isso pode ser culpa sua também

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Onde nascem as grandes ideias? Foi tentando responder essa pergunta que o pesquisador e escritor inglês Michael Bhaskar se deu conta de que, na verdade, vivemos um momento de escassez de pensamentos revolucionários, que ele chama de “A Grande Estagnação”. “Uma grande ideia é aquela que nos faz questionar tudo o que sabemos, como quando Copérnico disse que era a Terra girava em torno do Sol, e não o contrário”, diz.

Formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Oxford, Bhaskar passou então a percorrer outra pergunta – quando nascem as grandes ideias? Suas pesquisas convergiram no livro “Human Frontiers: The Future of Big Ideas in an Age of Small Thinking”, (“Fronteiras Humanas: O Futuro das Grandes Ideias na Era do Pensamento Pequeno” em tradução livre), lançado em novembro de 2021 e ainda sem tradução para o português.

Em entrevista exclusiva ao NeoFeed, o pesquisador explica sua teoria dos frutos e de como ela se aplica ao momento em que vivemos. “Todas as ideias fáceis, os frutos nos galhos mais baixos, já foram colhidos, e agora nos restam apenas aqueles nos galhos mais altos e inacessíveis”, afirma Bhaskar.

Segundo ele, para voltarmos a ter projetos revolucionários, seria preciso investir uma grande quantidade de tempo, energia e dinheiro, mas que parece pouco provável que isso seja feito, por pura falta de interesse.

“Empresas e instituições investiram fortunas para ter seus modelos e suas estruturas, e os indivíduos investiram muito dinheiro para adquirir o conhecimento que têm agora, e ninguém quer que isso fique defasado”, argumenta. Acompanhe a seguir a conversa:

O título do seu livro traz uma polêmica: “grandes ideias numa era de pensamentos pequenos”. Como chegou até essa teoria, sendo que muita gente acredita que estamos vivendo um momento revolucionário?
Pois é, existe mesmo uma crença popular de que estamos vivendo uma era de enormes revoluções, e que estamos com o pé no acelerador rumo a novas coisas e ideias, mas acho que isso é errado. Quer dizer, não é 100% errado, mas na maioria dos casos acho que é necessário recalibrar essa visão de mundo. Pra entender isso, eu preciso responder a sua pergunta: cheguei até essa teoria porque queria escrever um livro sobre onde nascem as ideias. Passei a estudar o assunto, o que me levou a mergulhar no mundo das organizações, inovações, impactos tecnológicos e sociedade. Assim, tropecei neste grande debate que eu chamo de “A Grande Estagnação”.

O que seria “A Grande Estagnação”?
Percebi que muitos economistas, cientistas, filósofos e diversas pessoas ligadas à tecnologia estão usando as redes sociais, livros e outras plataformas para vocalizar o argumento de que a sociedade moderna está muito mais estagnada do que as pessoas imaginam. Quando me deparei com esse debate, pensei “wow, essa é uma discussão urgente”. É algo realmente importante, mas ninguém está discutindo o assunto. Daí passei a investigar mais a questão e percebi que esse debate está muito fragmentado e que era necessário consolidar tudo num único argumento.

O escritor inglês Michael Bhaskar, autor de “Human Frontiers: The Future of Big Ideas in an Age of Small Thinking”

Que seria?
Justamente o de que as grandes ideias estão ficando cada vez mais raras. Quando você consolida todas as evidências, fica bastante claro que aquelas propostas realmente revolucionárias estão surgindo em marcha lenta.

Não seria o caso de um ciclo?
Pode ser. É por isso que eu dedico a primeira metade do livro a explicar o que está acontecendo hoje e elencar, detalhadamente, as evidências que temos mesmo a desaceleração das grandes ideias. Já a segunda parte do livro é focada na causa desse fenômeno, e se propõe a investigar se as coisas vão continuar assim. Dito isso, é importante dizer que existem muitas evidências que sugerem que estamos prestes a ter uma ascensão. É provável que nos próximos 10 anos ou 20 anos saberemos se este é apenas um ciclo de aceleração e desaceleração, ou se é um padrão realmente arraigado, que não podemos superar.

Por que, então, estamos vivendo esse momento de estagnação?
Acho que, em partes, por conta dos sucessos passados. Na verdade, eu consigo mapear duas razões diferentes para a desaceleração das grandes ideias. Uma é chamada de “burden of knowledge effect” (algo como “o fardo do conhecimento”, em tradução livre). Isso significa que há tanto conhecimento disponível que, até chegar a ponto de você ter bagagem suficiente para ter uma nova ideia, já se passaram 20 anos e você precisaria de uma equipe na mesma frequência. Ou seja, é preciso muito tempo e esforço só para chegar na última fronteira da inovação.

E a outra razão?
A outra razão eu chamo de “frutos fáceis de colher”. Basicamente, estou tentando dizer que a humanidade já colheu todos os frutos que estavam nos galhos mais baixos da árvore da inovação e tecnologia. Todas as ideias mais fáceis, nós já tivemos, de forma que agora só nos restam as difíceis – que estão nos galhos mais altos e inalcançáveis. Ambas as razões sugerem que a oferta de ideias está diminuindo. Não é que estamos mais burros ou preguiçosos, mas porque já chegamos muito longe.

“Eu consigo mapear duas razões diferentes para a desaceleração das grandes ideias: ‘o fardo do conhecimento’ e  os ‘frutos fáceis de colher'”

E se isso for parte de uma estratégia maior? As grandes empresas de tecnologia têm vastos recursos financeiros e querem continuar explorando seu capital, de forma que é parte de seu interesse lançar pouco a pouco as inovações.
Entendo seu ponto, e acho importante analisar com uma distância ainda maior. Uma das razões pelas quais não temos mais grandes ideias é porque grandes corporações e governos estão focados em incentivos e retornos a curto prazo. Como você bem pontuou, as gigantes de tecnologia passam muito tempo garantindo a integridade e beleza de seu balanço financeiro e a felicidade de seus acionistas. Assim, você está certa: essas empresas não querem grandes disrupções, ou apenas querem aquelas disrupções que podem controlar e administrar. Sabe, duvido que o Facebook fique contente de ver uma concorrente construindo um metaverso. Da mesma forma, a academia e o governo também se preocupam com a sua própria sobrevivência, daí os investimentos em coisas que possam trazer retornos imediatos.

As empresas de tecnologia seriam as que poderiam financiar as grandes ideias?
Exatamente. Com a quantidade de dinheiro que têm, poderiam tirar do papel projetos revolucionários em larga escala, sem ser muito cobradas ou responsabilizadas por isso. Daí é frustrante ver essas estratégias conservadoras, mas o problema é muito maior. O problema é que a sociedade não recompensa quem arrisca a longo prazo, porque ninguém gosta de coisas fora do contexto.

Como assim?
A sociedade gosta do previsível. Empresas e instituições investiram fortunas para ter seus modelos e suas estruturas, e os indivíduos investiram muito dinheiro para adquirir o conhecimento que têm agora, e ninguém quer que isso fique defasado. Então realmente não há incentivos para buscar o revolucionário. As pessoas são incentivadas a buscar o retorno constante. Além disso, há uma estrutura um pouco, digamos, sufocante – mesmo que por uma boa razão.

“A sociedade não recompensa quem arrisca a longo prazo porque ninguém gosta de coisas fora do contexto”

A forma como moldamos os negócios é fértil a novas ideias? 
O conceito de copyright e propriedade intelectual foram criados para ajudar a ter mais ideias. Pense comigo: se fosse garantido que uma pessoa se beneficiaria financeiramente de uma ideia, seria lógico pensar que mais gente gostaria de ter novas ideias e compartilhar com os demais, para aumentar seu potencial financeiro, certo? No fim das contas, a patente é uma forma de exigir que você seja recompensado pelo seu trabalho, porque todo mundo pode saber do seu “segredo”, e você se daria bem com isso. Mas o sistema foi completamente distorcido e agora é um entrave. Agora temos esses trolls de patente, proibindo outras empresas e pessoas de fazer algo novo. Há um monte de patente estúpida por aí

Tem um exemplo para dar sobre isso?
Sim, a Amazon conseguiu patentear o pagamento com um clique. Essa ideia é tão óbvia que ninguém deveria poder patentear. Outro exemplo disso é uma companhia que patenteou uma forma de torrar o pão, olha que absurdo.

O que você exatamente considera uma grande ideia?
O que muitos estudiosos fazem é isolar, digamos 10%, 5% ou 1% das ideias mais impactantes. E há muitas maneiras de fazer isso. Em estudos, por exemplo, você pode optar por selecionar o top 1% das ideias mais citadas, ou das patentes mais usadas em tecnologia. Isso, teoricamente, lhe diria sobre a dimensão do impacto de uma ideia. Existe muitas maneiras de elencar boas ideias, mas eu não acho que impacto é o suficiente. Na minha opinião, é necessário ter um tipo de valor de novidade em uma grande ideia.

Poderia explicar melhor?
Por exemplo, inventar uma lâmpada é algo novo, mas mexer em um detalhe dessa tecnologia já existente não é impactante. Então, uma máquina de costura, por sua vez, pode ser muito citada em estudos de patentes, mas isso não significa que seja algo novo, mas que você adicionou alguma funcionalidade ou mudou alguns botões de uma tecnologia já criada e estabelecida. Daí a minha insistência em ponderar também o fator de novidade, de ineditismo. Dito isso, acho que não pode ser compreendida totalmente usando um tipo de método estatístico. Há algo subjetivo sobre isso, onde você apenas diz, “uau”, sabe?

O que seria um critério “uau”?
Quando Copérnico disse que a Terra girava em torno do Sol e não o contrário, isso é uma grande ideia, porque isso muda a maneira como você tem de pensar sobre o universo e o lugar da espécie humana. Ou quando Charles Darwin apresentou a seleção natural, ou quando o avião foi inventado. Portanto, há essa ideia subjetiva também. Então, para mim, uma grande ideia é algo impactante e inovador, mas há essa subjetividade, de mudar tudo.

Você acredita que, por conta do nosso contexto atual, é mais provável que as próximas grandes ideias surjam em lugares inesperados, como países em desenvolvimento?
Sim. E essa é uma das razões pelas quais sou otimista com o futuro, porque estamos construindo um toolkit incrível de tecnologia, que é diferente de tudo que já existiu. Então temos coisas como a inteligência artificial, que já está revolucionando a ciência, por exemplo. As pessoas pensam na IA como algo, “oh, bem, talvez ela automatize os call centers”, ou torne a pesquisa mais eficiente na internet. Mas, na verdade, as aplicações mais interessantes da IA são científicas. Isso tudo é muito, muito emocionante. E em segundo lugar, o que acho interessante é que, pela primeira vez na história, o mundo inteiro está convergindo para as fronteiras do conhecimento. Durante a maior parte da história, poucas nações dominavam o saber, mas a educação foi democratizada.

“Uma das razões pelas quais sou otimista com o futuro é porque estamos construindo um toolkit incrível de tecnologia que é diferente de tudo que já existiu”

Quem tem se destacada neste sentido?
Eu diria que a China está ditando o ritmo da tecnologia mundo afora, mas a Índia está fazendo coisas incríveis também e é protagonista neste cenário. A América Latina tem sido incrivelmente subjugada, o que é surpreendente, porque visitei essa parte do mundo diversas vezes e sempre saio impressionado. Há um potencial enorme ali. A maior barreira de crescimento para os países era a obtenção do conhecimento, mas com a internet, todos podem ter educação. Isso significa que, nos próximos 20 anos, o fato de todos poderem acessar as fronteiras do conhecimento é potencialmente a maior coisa que já aconteceu na história.

O dinheiro, que poderia acelerar as coisas, pode também destruir ideias revolucionárias?
Em alguns casos, essa dinâmica é verdadeira. Duas grandes invenções do século 20 precisaram de uma fortuna. Uma foi o Manhattan Project, que entregou armas nucleares. A outra foi a Missão Apollo, que levou o homem à Lua. Em ambos os casos, o governo dos Estados Unidos investiu uma quantidade obscena de dinheiro. Essas missões grandiosas não teriam acontecido se a gente não tivesse passado pela Segunda Guerra ou pela Guerra Fria, porque nenhum presidente destinaria uma parcela da economia mundial a um projeto. Então, hoje em dia, a gente não tem esses eventos grandiosos para galvanizar tamanho orçamento. Não há uma justificativa possível para os EUA alocar, digamos, 5% de sua economia num projeto maluco. Talvez seja isso que esteja faltando.

Então, dinheiro é um problema?
Acho que dinheiro pode ser um grande problema, tanto na falta, quanto no excesso. Agora, como os frutos mais fáceis foram colhidos, os desafios ficam maiores e mais caros. Não digo isso para defender um investimento enorme em uma única ideia, mas talvez financiar centenas de pequenas abordagens, numa escala nunca vista antes.

Há quem pense que chegar à fronteira do conhecimento ficou mais difícil porque a própria tecnologia nos deixa preguiçosos. Você concorda?
Sinceramente, não acho que é por aí. É importante frisar que quando eu falo de grandes ideias, também falo de arte, cultura e política, com novas ideologias. Posto isso, acho que há características da vida moderna tornando tudo muito difícil. O fato de termos governos populistas que menosprezam os especialistas e ignoram a verdade para reforçar seus interesses próprios é um grande empecilho. O fato de vivermos em um mundo onde startups e empresas correm atrás de likes, de matérias sensacionalistas e de atenção instantânea é um grande empecilho. O fato de vivermos distraídos é um empecilho. Quem sabe isso está fritando nossos cérebros de uma maneira que está bloqueando a nossa capacidade de pensar com profundidade?

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