EXCLUSIVO: grupo hoteleiro GJP muda de nome e vai investir em 31 novos empreendimentos

Após a aquisição pelo fundo R Capital, o grupo de hotelaria de bandeiras como Wish e Prodigy passa a se chamar Leceres e planeja investir em 31 empreendimentos até o fim de 2023, em uma estratégia que inclui até parques aquáticos

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Fabio Mader, CEO do Grupo Leceres. Ao fundo, o Wish Natal (RN), um dos hotéis da rede

Na manhã desta terça-feira, 21 de junho, quando chegarem ao escritório instalado em um prédio na Rua Fidêncio Ramos, na Vila Olímpia, em São Paulo, os funcionários do grupo GJP terão uma surpresa. O ambiente sóbrio e os móveis escuros terão dado lugar a paredes desenhadas e a uma infinidade de tonalidades.

Nesse “banho de loja” dado no último feriado, entre outros detalhes, duas cores, em particular, saltarão aos olhos desses profissionais: o branco e o preto que formam a nova marca da rede de hotelaria, rebatizada, a partir de hoje, como Grupo Leceres, em informação antecipada ao NeoFeed.

O nome, plural de lazer, em latim, expressa o novo posicionamento do grupo, criado por Guilherme Paulus, em 2005, e comprado, em setembro de 2021, pelo fundo R Capital, em um acordo estimado em R$ 800 milhões. E traduz um plano agressivo de expansão, que vai muito além da sede da operação.

“Queremos nos posicionar como uma empresa especializada em lazer”, diz Fabio Mader, CEO do grupo Leceres, ao NeoFeed. “Para isso, vamos chegar a 40 empreendimentos, em 11 estados, até o fim de 2023. E não estamos falando apenas de hotéis, mas de outras opções de entretenimento.”

Mader não revela o investimento projetado no plano. Mas para se ter uma medida do tamanho dessa ambição, o portfólio atual da rede tem 9 hotéis e resorts em 7 estados, nas bandeiras Wish, Prodigy, Linx e Marupiara. A projeção é sair de 2 mil para 8 mil quartos sob gestão.

Esse novo pacote começou a ser desenhado em março deste ano, quando a R Capital assumiu, de fato, a operação. O fundo é o braço de private equity da RTSC, holding brasileira fundada em 2014 e que mantém fatias em empresas de setores como gestão de recursos, securitização e garantias imobiliárias.

Mader que, até então, comandava os negócios da CVC na Argentina, foi o nome escolhido para tocar a operação. Com uma bagagem de mais de 16 anos no mercado de turismo, ele também tem passagens por empresas como Gol e Webjet.

Na estratégia traçada, 30% dos novos projetos serão green field, ou seja, nascerão “do zero”. A Leceres já tem os terrenos mapeados e está em fase de aprovações e licenciamento. Entre esses empreendimentos estão dois resorts na Bahia, um deles em Trancoso.

O grosso do plano, ou seja, os 70% restantes, virá de aquisições, cujas negociações já estão em curso. Uma delas, inclusive, deve ser submetida nos próximos dias ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), e anunciada, oficialmente, em dois meses.

O roteiro da expansão compreende desde cidades nas quais o grupo tem presença até novas escalas. O primeiro mapa envolve Salvador (BA), Natal (RN), Rio de Janeiro (RJ), Foz do Iguaçu (PR), Gramado (RS), Confins (MG) e Ipojuca (PE). Já no segundo, um dos destinos confirmados é o estado de Alagoas.

“A tese é buscar mercados que tenham um grande fluxo e uma característica forte de viagens de lazer regional”, explica Mader. “Para fazer valer o novo posicionamento, além dos hotéis, uma das categorias incluída nas negociações são parques aquáticos e parques temáticos.”

O plano também passa por investir no conceito de multipropriedade, mais difundido em países como os Estados Unidos. O conceito envolve a venda fracionada de unidades em empreendimentos – um condomínio, por exemplo – e o compartilhamento do uso e dos custos pelos cotistas.

Além desse modelo, a Leceres seguirá apostando no formato de timeshare, por meio de um clube de sócios que tem 6 mil membros e dá acesso à sua rede no Brasil e a 4,6 mil hotéis da parceira RCI no exterior.

A nova marca e o novo posicionamento do grupo

O avanço em multipropriedade e em verticais além da hotelaria pode envolver projetos anexos aos empreendimentos da rede. Isso inclui um terreno de 500 mil metros quadrados ao lado do hotel Wish Foz do Iguaçu e possíveis expansões em Gramado e no resort de Porto de Galinhas, em Ipojuca.

“Também estamos fazendo um trabalho de arquitetura das marcas”, diz Mader. “Para entender quais iremos manter e qual o melhor caminho para aquelas que iremos adquirir.” No primeiro grupo, é certo que a marca Wish, de hotéis de luxo e lazer familiar, seguirá ativa.

Em paralelo, o apetite inclui a ideia de investir em restaurantes temáticos para atrair não apenas hóspedes, mas outros turistas e mesmo os moradores das cidades em que estão os hotéis da rede. Um desses projetos envolve o Genaro, no Wish Salvador.

O restaurante será relançado com o conceito de gastrobar para atrair, por exemplo, os frequentadores do Teatro Castro Alves, próximo ao hotel, com descontos tanto para hóspedes, nos espetáculos, quanto para quem for ao teatro e queira incluir o Genaro nesse programa.

“Turismo de revanche”

Para financiar esses investimentos, a Leceres prevê uma injeção de recursos do R Capital, além da troca de ações nos M&As. O grupo não descarta a entrada de novos sócios e conta ainda, nos projetos de multipropriedade, com a captação de recursos própria desse modelo, junto aos cotistas.

No caso dos M&A, Mader ressalta aspectos diante dos impactos da pandemia no setor. “Esse contexto ajuda a abrir as conversas, mas é preciso ter um cuidado para entender o quão fragilizados esses grupos, muitos deles familiares, estão”, diz.

Para Marta Poggi, sócia da consultoria Strategia Turismo, o saldo da Covid-19 vai gerar uma onda de consolidação do setor no País. E esse cenário também será impulsionado pela retomada que vem sendo observada nesse mercado, a reboque do turismo doméstico e das viagens de lazer.

“Muitos dos hotéis, especialmente os de gestão familiar, estão saindo da pandemia com dificuldades financeiras”, afirma. “Ao mesmo tempo, a perspectiva é muito positiva para quem tem recursos para aproveitar esse reaquecimento.”

Ela destaca, porém, um desafio dessa retomada, que vem sendo chamada de “turismo de revanche”, pelo fato de ser alimentada pela demanda reprimida desde 2020. “Há um risco de escassez de mão de obra, pois muita gente deixou o setor na pandemia”, diz.

O Wish Foz do Iguaçu é um dos hotéis da rede com projeto de expansão

À parte desse alerta, alguns dados reforçam essa recuperação. Uma pesquisa do Conselho de Turismo da Fecomercio-SP prevê que, em 2022, o setor supere o faturamento de R$ 201,2 bilhões registrado em 2019. No ano passado, o crescimento foi de 12%, para R$ 152,4 bilhões.

A Leceres também está testemunhando essa reação, em especial, em seus hotéis de lazer, cujo faturamento já é 60% maior do que no período pré-pandemia. Para 2022, a projeção é de uma receita bruta de R$ 400 milhões, ante os R$ 270 milhões reportados em 2019.

Entretanto, o grupo não está sozinho nos planos de expansão e de consolidação. No fim de 2021, por exemplo, a também brasileira Atlantica assumiu a operação de 24 hotéis da rede Transamérica.

Esse contexto também está atraindo grandes grupos do exterior. É o caso da francesa Accor, que, em 2021, anunciou o plano de dobrar sua rede na América do Sul, na época de 393 hotéis, nos próximos anos, com até 60% desse investimento destinado ao Brasil. Outro exemplo é o grupo americano Hilton, que prevê inaugurar 20 hotéis na América Latina em 2022, sendo 10 deles no País.

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