Dois meses de vida e um senhor seed money de R$ 45 milhões

Em operação há menos de dois meses, a TruePay criou um modelo para que varejistas usem seus recebíveis para pagar fornecedores. E, para o estágio em que se encontra, conseguiu um aporte fora dos padrões

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Pedro Oliveira (à esq.) e Luis Eduardo Cascão, os fundadores da TruePay

Em linha com os valores registrados no mercado local nos últimos anos, a média dos aportes seed, em startups brasileiras, no acumulado de janeiro a julho de 2021, está em US$ 1,25 milhão, segundo o hub de inovação Distrito.

Prestes a completar dois meses de operação, a TruePay está desafiando, porém, essa estatística. Fintech de pagamentos, a empresa anuncia hoje um aporte seed de R$ 45 milhões (US$ 8,74 milhões), liderado pela Kaszek e a Monashees, e com participação dos fundos GFC e OneVC.

Além de turbinar a média dos aportes em startups locais em estágio inicial, a rodada consolidada outro marco, ao figurar entre as maiores já captadas por uma novata do País recém-chegada ao mercado.

Levando-se em conta os valores em moeda americana, quem lidera esse ranking é a Kovi, de carros por assinatura. Em março de 2019, a startup levantou US$ 10,5 milhões (cerca de R$ 42 milhões, na cotação da época) em uma rodada que trazia, entre outros investidores, a Monashees e a OneVC.

“É uma honra levantar um montante tão elevado logo de largada”, diz Luis Eduardo Cascão, cofundador da TruePay, ao NeoFeed. Ele ressalta, porém, que os nomes por trás dessa cifra e a chancela deles ao projeto da fintech são mais importantes do que o valor envolvido.

“São fundos que investiram em empresas que revolucionaram outros mercados”, observa, citando unicórnios locais que passaram pelo crivo desses investidores, como Nubank, Creditas e QuintoAndar. “E que agora estão confiando na TruePay para revolucionar o mercado de pagamentos B2B.”

A proposta da TruePay começou a ser formatada em dezembro de 2020, quando a dupla fundadora da startup decidiu deixar os postos que ocupavam no outro lado do balcão da indústria de venture capital. Cascão, na DNA Capital, e Pedro Oliveira, na Kaszek.

O impulso definitivo para que eles decidissem deixar seus empregos para empreender veio da normativa 4734, do Banco Central, que trata do registro de recebíveis de cartões de crédito e que entrou em vigor no início de junho deste ano.

Entre outras mudanças, a norma abre caminho para a criação de um balcão virtual de recebíveis, que passa a ser disputado também pelas fintechs. Até então, eles estavam restritos, na prática, aos bancos e adquirentes. Agora, qualquer instituição pode visualizar o pacote que cada empresa tem a negociar.

A partir desse cenário, a TruePay criou um modelo no qual estabelece um limite de crédito para os varejistas com base em seu volume de recebíveis – performados e não performados. Esse saldo é usado para o pagamento de fornecedores desse lojista, que também são cadastrados na plataforma da fintech.

A startup, por sua vez, transfere os valores equivalentes a cada fatura. A receita da TruePay vem justamente das taxas cobradas – cujos índices não são revelados – dos fornecedores em questão. Para os varejistas, o serviço é gratuito.

“É um ganha ganha. De um lado, isso reduz o risco de inadimplência para o fornecedor. De outro, é uma forma de o varejista ter acesso a crédito grátis”, diz Oliveira. “Hoje, esses lojistas estão expostos a taxas abusivas de bancos e adquirentes, e o único parceiro que eles têm, de fato, são os fornecedores.”

Um dado, em particular, dá a medida do que está em disputa com a nova realidade do mercado de recebíveis. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Cartões e Serviços (Abecs), a previsão é de que os recebíveis de cartão de crédito movimentem cerca de R$ 2 trilhões no País em 2021.

“O negócio de recebíveis, como era feito até então, estava se tornando commoditizado”, afirma Fabricio Winter, sócio da consultoria Boanerges & Cia. “A partir de agora, vamos ver cada vez mais soluções mais criativas nesse espaço e que vão dar novas opções aos varejistas.”

A TruePay já definiu como irá aplicar os recursos captados nessa primeira rodada. “O aporte vai ser o combustível para executarmos o plano ambicioso que temos pela frente”, afirma Cascão. “Vamos atacar tanto pelo lado dos lojistas quanto dos fornecedores.”

Para ganhar escala em sua carteira, uma das prioridades do volume levantado será o investimento em marketing para comunicar a esses dois públicos o modelo proposto pela startup. Outro foco será ampliar a equipe, composta atualmente por 30 funcionários, para 100 profissionais, até o fim de 2021, especialmente na área de tecnologia.

“Esse aporte permite que a gente dê passos mais ousados”, diz Oliveira, que traça um objetivo ambicioso para a TruePay. “No mercado B2C, as fintechs já estão 50 anos à frente. Queremos fazer essa mesma revolução no B2B.”

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