Itaú, Bradesco e Santander estão afinados sobre o PIB

Os três maiores bancos privados do país elevaram as projeções para expansão do PIB neste ano, mas preveem crescimento menor em 2023 em meio a juro elevado, inflação acima do teto da meta e recessão externa. E alertam para piora fiscal

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Os três maiores bancos privados do país – Itaú, Bradesco e Santander – estão afinados nas estatísticas e no discurso. Itaú e Bradesco promoveram revisões recentes do Produto Interno Bruto (PIB) e inflação. O Santander está atualizando suas projeções, mas mantém a tendência de seus pares. As três instituições indicam que a economia crescerá um pouco mais neste ano, mas desacelera no próximo.

O Itaú elevou sua estimativa para o PIB deste ano de 1% para 1,6% e mantém expansão de 0,2% para 2023. No Bradesco, a projeção para o crescimento em 2022 avançou de 1,5% para 1,8% e, para 2023, foi mantida em 0,3%. No banco Santander, o PIB esperado para 2022 avançou de 0,7% para 1,2%. Para 2023, a expectativa de retração passou de 0,3% para 0,6%, na última revisão de cenário.

Quanto à inflação, medida pelo IPCA, o Itaú baixou sua projeção para este ano de 8,7% para 7,5% e manteve em 5,6% a de 2023. O Bradesco reduziu a estimativa para 2022 de 9% para 7,5% e, para 2023, aumentou de 4,1% para 4,9%.

O banco Santander, que está revendo seus dados, elevou anteriormente a perspectiva de inflação deste ano, de 7,9% para 9,5%, e de 4% para 5,3% em 2023. Entretanto, cálculos preliminares adiantados pelo economista Daniel Karp, responsável por análise de inflação no Santander, apontam IPCA próximo de 8% neste ano e de 5,7% em 2023.

Enquanto as projeções de indicadores elaboradas pelos grandes bancos estão sujeitas a atualizações frequentes, a partir da divulgação de novas estatísticas por institutos de pesquisa, como IBGE e FGV Ibre, os alertas sobre as condições fiscais do país persistem em relatórios distribuídos pelos departamentos econômicos nos últimos dias.

“Iniciativas de redução de receita aprovadas e em tramitação no Congresso, sem medidas correspondentes do lado dos gastos, preocupam em termos de escopo e duração e reforçam que a sustentabilidade fiscal continuará sendo um importante desafio à frente”, afirma, em relatório, Mário Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Mesquisa prevê resultado primário zero em 2022, vindo de superávit de 0,5% projetado anteriormente, e déficit primário de 0,1% em 2023. A dívida bruta, prevê o Itaú, deve ficar entre 79% e 82% do PIB neste ano e no próximo, respectivamente – patamares que a instituição considera elevados para uma economia emergente.

Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, pondera, também em relatório de revisão de cenário macroeconômico, que o quadro fiscal ficou mais incerto nas últimas semanas com o avanço de pautas que ampliam desonerações e dispêndios governamentais, o que reduz a probabilidade de um superávit primário neste ano. “Algumas medidas devem ficar restritas a 2022, outras têm caráter permanente com consequências para a trajetória da dívida pública”, destaca.

O Bradesco projetava resultado primário consolidado de R$ 40 bilhões este ano, superavitário portanto. Agora, informa que sua estimativa está próxima de zero. “Essa revisão é resultado das desonerações previstas no projeto que limita a cobrança de ICMS sobre combustíveis, energia elétrica, telecomunicações e transporte coletivo”, escreve Honorato, no relatório.

De acordo com os cálculos do Bradesco, a perda permanente pode chegar a 1% do PIB para estados e municípios, sem contar a renúncia de R$ 17 bilhões para o governo federal em 2022, devido à isenção do PIS/Cofins sobre a gasolina e o etanol.

Ana Paula Vescovi, diretora de macroeconomia do banco Santander Brasil e ex-secretária do Tesouro Nacional, chama atenção para a aprovação em dois turnos de votação pelo Senado da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) – agora em discussão na Câmara – que eleva gastos sociais do governo federal, gerando R$ 41,25 bilhões em despesas acima do teto de gastos em 2022. O relatório assinado por Vescovi foi divulgado antes da perspectiva de incorporação de mais benefícios na PEC, como a possibilidade de lançamento do ‘vale-Uber’.

A diretora de macroeconomia do Santander alerta que as medidas [o pacote de bondades em trâmite no Congresso] avançam num momento em que o relatório da dívida pública de maio mostrou que, apesar de um colchão de liquidez confortável para o Tesouro, o perfil da dívida segue piorando.

“O governo central registrou um déficit primário de R$ 39,3 bilhões em maio, um mês marcado por transferências atípicas, de R$ 8 bilhões, para entes regionais, relacionadas a concessões para exploração de campos de petróleo” informa Vescovi, que projetava déficit primário de R$ 26,5 bilhões em maio para o resultado fiscal consolidado do setor público.

A ex-titular do Tesouro Nacional também vê o Banco Central inclinado em seguir uma estratégia de suavização da taxa de juros à frente, o que significa evitar um pico mais acentuado da Selic neste ciclo, mas mantendo a taxa alta por mais tempo.

O Santander projeta Selic de 13,50% em dezembro deste ano, ligeiramente abaixo de Itaú e Bradesco. Ambos estimam taxa final para o ciclo de aperto monetário de 13,75%. Para o final de 2023, os três bancos projetam queda da taxa básica. O Itaú prevê Selic a 9,75%, o Bradesco a 11,75% e o Santander a 10,50%.

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