Julia Hobsbawm, a criadora do termo “nowhere office”, e o manifesto da vida no trabalho

Em entrevista ao NeoFeed, a pensadora e autora do livro “The Nowhere Office”, Julia Hobsbawm, discute a viabilidade dos escritórios, o desafio das lideranças e a liberdade para os colaboradores

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Julia Hobsbawm é uma das principais pensadoras do trabalho contemporâneo e seu livro “The Nowhere Office” está na lista de leituras obrigatórias do Financial Times

“A centralidade do escritório acabou.” A frase, dita por Tobi Lütke, CEO da Shopify, no Twitter, abre o recém-lançado livro “The Nowhere Office”, de Julia Hobsbawm. Nele, a consultora e empreendedora faz uma espécie de manifesto sobre o que a vida no trabalho pode ser quando sai de cena a obrigatoriedade do espaço físico: “mais feliz, produtiva e funcional”, em suas palavras.

Não se trata de abolir espaços corporativos, mas do fim da ideia de um modelo único para todos. Julia propõe que, sendo o escritório uma espécie de epítome do trabalho moderno, ao questioná-lo, seja possível rever o que acontece dentro do fazer profissional, independentemente de onde ele aconteça, como o sentido que se dá, a forma como é gerenciado e como é remunerado.

A difícil notícia é para as lideranças: o “nowhere office” representa um momento em que não há mais certezas para chefes e gestores. Também por isso, o discurso da empreendedora encontrou certa resistência no mundo corporativo, até chegar aos editores ingleses que publicaram seu livro.

“Acredito que muitas pessoas, organizações e governos investiram alto no trabalho presencial. Este momento é um desafio, e tem um grande ponto de interrogação sobre se gestores vão encará-lo. Eles estão relutantes porque isso significa mais mudança, mais adaptação e menos controle”, diz Julia, em entrevista ao NeoFeed.

Julia Hobsbawm, uma das principais pensadoras do trabalho contemporâneo, lança “The Nowhere Office” na próxima semana (12/04) nos Estados Unidos. A obra não tem previsão de lançamento no Brasil, mas estará disponível em inglês pelo Kindle. O título surgiu do termo que ela cunhou para designar o novo momento da história corporativa.

Já lançado no Reino Unido, o livro chega aos EUA e já se tornou referência nas discussões sobre o mundo do trabalho

Lançado no final de 2021 na Inglaterra, o livro entrou para a lista de “Books to Read in 2022” do jornal britânico Financial Times, e faz parte das discussões mais importantes sobre o futuro do trabalho no mundo.

Uma das publicações mais conhecidas da autora (por enquanto nenhum de seus livros foi traduzido para o português) é “The Simplicity Principle”, que ganhou os prêmios de melhor livro pelo American Book Fest em 2020 (na categoria Negócios). Além de dar palestras sobre o tema, Julia tem atuado como consultora para empresas e gerenciando sua empresa de conteúdo, a Editorial Intelligence.

Julia concedeu esta entrevista ao NeoFeed por Google Meet de seu “nowhere office”, a sala de sua casa em Londres. Estava sentada em frente a uma grande fonte de inspiração para o processo de criação do novo livro, a máquina de escrever dos anos 1950 que pertenceu a seu pai, um dos maiores historiadores de todos os tempos, Eric Hobsbawm. Acompanhe:

Como você define o conceito de “nowhere office”?
O “nowhere office” que eu acredito é quase um manifesto de como a vida do trabalho pode ser. Estabelece que o que importa é o que acontece dentro do trabalho, se ele está sendo bem pago, bem gerenciado e se existe um significado para ele. Sabemos que precisamos estar cara-a-cara com bastante frequência, mas não há evidência de que seja preciso estar pessoalmente num lugar específico determinadas vezes por semana para que o trabalho seja executado. Isso é algo que nos fizeram acreditar e não é verdade. É importante dizer que o “nowhere office” não é sobre não ter escritório. É ter um pouco de escritório em alguns momentos.

“É importante dizer que o “nowhere office” não é sobre não ter escritório. É ter um pouco de escritório em alguns momentos”

Na prática, que mudanças isso traz para os próximos anos?
A principal mudança é o fim das soluções padronizadas, um modelo que funciona para todos. O modelo em que toda cidade tem seu centro corporativo com arranha-céus em que estão as pessoas que pertencem ao topo do conhecimento em suas áreas… Tudo isso está mudando. Tudo agora deve ser menor, vila por vila, comunidade por comunidade. É empolgante! É desafiador, mas eu aceito isso. E eu aceito porque nós sabemos que o mundo do trabalho não estava funcionando tão bem se você olhar para baixa produtividade, o estresse, o fato de que a Organização Mundial de Saúde (OMS) chamou o estresse pré-pandêmico de “a maior pandemia do século 21”.

Mas a pandemia deu outra perspectiva às queixas de burnout e estresse, não?
Quando a pandemia veio, muitos trabalhadores estavam se sentindo abusados pelo sistema, mas nem sabiam disso. A tendência de se sentir estafado já estava lá, mas isso não era associado ao local de trabalho. Google Meet, Teams e Zoom já existiam há anos, mas usar essas facilidades tornou o trabalho longe do escritório menos doloroso do que as pessoas imaginavam. A distância do espaço físico do trabalho também tornou mais visível o desejo que já existia nas pessoas de se conectarem mais com suas próprias vidas e com seu “eu corporativo”.

E no caso das mulheres?
As mulheres já estavam articulando isso há muito tempo, mas adivinha? Esse é um universo masculino, em que os homens, falando em termos genéricos, estão normalmente falando, no controle, no topo do mundo corporativo, e não foram eles que estiveram majoritariamente em casa cuidando das crianças. Foram as mulheres que entenderam a relação entre quem você é como ser humano e quem você é como trabalhador. O que a pandemia fez foi expor isso. E isso desfez a fantasia de que a vida de escritório era fabulosa.

“Foram as mulheres que entenderam a relação entre quem você é como ser humano e como trabalhador. A pandemia expôs isso. E isso desfez a fantasia de que a vida de escritório era fabulosa”

Nos últimos anos, as empresas investiram em escritórios superequipados, que contassem essa história de uma vida corporativa “fabulosa”.
Mas o que importa é o que acontece dentro do trabalho onde quer que o trabalho esteja. É claro que os prédios entregam experiências e nostalgia porque nossas vidas são cheias de memórias e nós passamos muito tempo trabalhando. O simbolismo, a fantasia do escritório se revelou apenas isso. Alguns escritórios são o que eu chamo de “palácios do presentismo” [“presentismo”, que é como pesquisadores têm chamado o ato de comparecer ao trabalho mas não conseguir ser produtivo, normalmente por conta de alguma doença ou questão mental].

Um símbolo de status, não?
Era um símbolo de status ter um escritório que tivesse a mobília top de linha, cadeiras ergonômicas e reclináveis, plantas hidropônicas e todas as coisas que agora os escritórios têm que ter para atrair funcionários. Porém, esses funcionários estavam passando mais e mais tempo entrando e saindo dos escritórios. Então quando a pandemia parou tudo, muitos trabalhadores pensaram “eu não gosto da estrutura rígida dessa rotina. Eu na verdade gosto da liberdade de estar fora do escritório mais do que eu imaginava”.

Isso tem tornado mais difícil o trabalho das empresas em voltar ao trabalho presencial depois da pandemia?
Eu já fui chamada para dar consultoria para empresas que estavam com essa dificuldade, e o que eu digo é: “o que você está tentando alcançar quando busca atrair os funcionários de volta para o presencial?” Filosoficamente e emocionalmente, quando você questiona a necessidade do escritório e experimenta poder fazer seu trabalho de um jeito diferente, é muito difícil insistir que seja preciso voltar para o que era antes.

“O que você está tentando alcançar quando busca atrair os funcionários de volta para o presencial?”

Você se lembra do momento em que pensou “agora é a hora de escrever sobre isso”?
Eu estava sentada aqui, no meu escritório improvisado, e pensei quanta mudança eu vi desde o meu primeiro emprego em um escritório, em 1985. Eu tinha 21 anos, e trabalhava na Penguin Books, na King’s Road, em Londres, então tinha tudo que alguém poderia desejar da vida de escritório: endereço sexy, nome de uma grande marca, ambiente enorme, pessoas jovens misturadas a pessoas mais velhas. E, naquele ano, a música do Talking Heads, “The Road to Nowhere”, tocava repetidamente, de novo, de novo e de novo. Quando sentei na minha sala, que desde a pandemia é meu escritório, aquele flashback veio a mim. “Oh meu Deus, não estamos nem perto daquele tempo”.

Um outro cenário…
Era um tempo analógico, era um tempo que havia armários-arquivo, e eu de repente entendi que valia a pena explicar essa mudança na história. E quanto mais olhava para a história dos escritórios, para 75 anos depois do Pós-Guerra, mais eu percebia que nós nunca mais vamos voltar para aquilo. Muitas pessoas me disseram que eu estava errada, mas por sorte meus editores não, e inclusive pediram que eu escrevesse o mais rápido possível! Eu sinto que esse é um momento incrível e importante.

“Quanto mais olhava para a história dos escritórios, para 75 anos depois do Pós-Guerra, mais eu percebia que nós nunca mais vamos voltar para aquilo”

Por que você acredita ter encontrado essa resistência de algumas pessoas sobre a ideia do “The Nowhere Office”?
Muitas empresas, organizações, gestores de políticas públicas e governos investiram pesado em consertar o presentismo, controlar. Este momento é um desafio para os líderes. E tem um grande ponto de interrogação sobre se eles vão encarar esse desafio. Sinto muito pelos chefes. Eles estão no meio da quarta revolução industrial, tem requalificação, algorítmos… Essas pobres pessoas nunca param e os ambientes de trabalho estão ainda mais tumultuados que nossas vidas pessoais. Então, eles estão relutantes porque isso significa mais mudança, mais adaptação e menos controle.

E há a questão dos custos.
Custa muito dinheiro ter menos pessoas dentro e ainda pagar os aluguéis dos escritórios. Portanto, o desejo econômico de manter os distritos comerciais centrais em todo o mundo operando com as receitas para manter o status quo é um grande incentivo. Mas cultura e história não acontecem para manter a ordem. Acontecem naturalmente e espontaneamente, e as coisas emergem – e é isso que tem sido, uma erupção, um sentimento, uma paixão, um desejo que as coisas sejam melhores. É uma geração de trabalhadores de agora, velhos e jovens, que querem fazer a diferença. Eles não querem que sua vida de trabalho seja sem sentido. E ter flexibilidade, escolha e agência é uma parte importante do que dá essência e significado para eles.

“A cultura e a história não acontecem para manter a ordem. As coisas emergem – e é isso que tem sido, uma erupção, um sentimento, uma paixão, um desejo que as coisas sejam melhores”

No Brasil já há algumas startups aderindo ao 4-day workweek (semana de trabalho de quatro dias). Pode ser uma solução para melhorar a qualidade de vida ou uma concentração de trabalho de cinco dias em quatro, para ter um fim de semana de três dias?
Minha recomendação é trabalhar de um jeito mais inteligente, não mais duro, o que não é uma ideia nova. Isso não é necessariamente sobre quanto você trabalha um determinado tempo. Eu sou bastante cética sobre a semana de quatro dias, precisamente pelo que você está dizendo. Eu fiz uma pausa com o meu marido entre sexta e terça, voltei dessa pausa, dei uma palestra terça à noite e desde então não parei de trabalhar e estar online no meu celular e em reuniões. Agora são 8 da noite de uma quinta-feira e estou aqui falando com você. Algumas dessas coisas foram pessoais, algumas foram sociais e pessoais. A verdade é que estar no trabalho é estar muitas vezes recebendo demandas das outras pessoas e estar ocupada. Então é sobre escolha. Mas eu amo o que eu faço e escolhi fazer o que faço. Quanto mais as pessoas puderem escolher ter agência sobre o que fazem, mais vão se comprometer com coisas que fazem bem.

O modelo híbrido deve predominar no momento?
O mundo está dividido agora entre híbridos e não-hibridos. Híbrido realmente representa liberdade. Liberdade realmente representa mais tempo para ser quem quer que você seja. Não estou defendendo que todos possam ser híbridos porque não podem, nos escritórios ou na linha de frente. O que estou dizendo é que se você não pode ser híbrido, se você não pode controlar suas horas e seu trabalho, então você realmente poderia ter um salário maior do que se tivesse escolha. Não acho que a resposta seja a semana de quatro dias. Acho que a resposta é olhar muito claramente para o que você quer e precisa.

Este é um movimento sigficativo, não é?
Muitas pessoas chamam isso de “a grande resignação”. Elas estão mudando de trabalhos em escritórios para algo que lhes dá não apenas mais tempo, mas menos pressão.
Então, por exemplo, eu tenho uma professora de pilates e ela é do Líbano. Ela trabalhava com recursos humanos. Ela leu meu livro e disse “eu odiava a política de escritório. Eu odiava o que era o trabalho. Então agora estou fazendo algo que amo”. Como ela, muitas pessoas estão escolhendo deixar os escritórios, e isso volta à sua primeira pergunta sobre a resistência de líderes e donos de empresas.

“Híbrido realmente representa liberdade. Liberdade realmente representa mais tempo para ser quem quer que você seja”

E qual tem sido a reação das empresas neste sentido?
Eles acham que no momento o que tem que fazer é dar muita flexibilidade e muitos escritórios lindos. Mas se o trabalho em si é mal gerenciado, se parece sem sentido, se os salários não estão corretos, as pessoas vão fazer coisas diferentes. “The Nowhere Office” representa esse momento em que não há certezas para chefes e gerentes mais. É a primeira vez em 50, 60, 75 anos que eles têm que pensar “nós temos que aumentar nossos ganhos para atrair e reter o tipo certo de trabalhadores”.

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