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Liber Capital compra Adianta e esquenta a competição num mercado bilionário

Com o acordo, a plataforma de antecipação de recebíveis que conecta empresas e financiadores amplia sua base potencial para 9 mil clientes e ganha musculatura para fazer frente à onda de consolidação em um mercado que já movimentou R$ 485,1 bilhões em 2020 no País

 

Victor Stabile, fundador e CEO da Liber Capital

Um dos recursos usados com frequência pelas empresas, a antecipação de recebíveis ganhou ainda mais fôlego com a Covid-19. Segundo o Banco Central, de janeiro a maio deste ano, o segmento movimentou R$ 481,5 bilhões no País, alta de 28% sobre o mesmo período de 2019. O pico veio em março, com R$ 107,2 bilhões transacionados.

Se a busca por esse crédito está aquecida, na ponta de quem oferece esses serviços não é diferente. Marketplace de antecipação de recebíveis, a Liber Capital anuncia hoje, oficialmente, a compra da Adianta, fintech que atua nesse mesmo espaço.

O namoro entre as duas empresas foi rápido. As conversas tiveram início em meio à pandemia e o martelo foi batido há duas semanas. A aquisição acontece menos de um mês depois de a XP Inc. assumir o controle da Antecipa, outra empresa do segmento.

O valor e os termos da transação capitaneada Liber não foram revelados. Com o acordo, os sócios-fundadores da Adianta seguem na operação, assim como os fundos 42K e Chromo, investidores da fintech.

“Nós já tínhamos o plano de entrar no segmento da Adianta. Estamos ganhando pelo menos três anos com esse movimento”, diz Victor Stabile, fundador e CEO da Liber, ao NeoFeed. CEO da Adianta, Marco Camhaji acrescenta: “Os dois negócios estavam remando no mesmo mercado, por caminhos diferentes. E entendemos que fazia todo sentido juntar essas duas histórias, que são complementares.”

Fundada em 2017, em Ribeirão Preto (SP) e com investidores como e.Bricks Ventures e Spinet Bank, a Liber tem um modelo originado em companhias de maior porte. A fintech estrutura programas para que os fornecedores dessa empresa em questão possam acessar as linhas de antecipação de recebíveis. O financiamento é feito por bancos, fundos e investidores individuais.

Segundo Stabile, com o marketplace, a redução nas taxas, em comparação ao que é praticado no mercado, pode chegar a até 80%. Hoje, a startup tem programas para as cadeias de empresas como BRF e St. Marche. E já movimentou, em 2020, mais de R$ 3 bilhões, um crescimento de 1.000% sobre 2019.

Em seu modelo, a Liber Capital recebe uma comissão a cada transação que intermedia.  O percentual varia conforme a complexidade e o volume, mas, em média, a fintech fica com cerca de 15% do spread da operação.

Já a Adianta, que está no mercado desde 2016, parte de uma oferta centrada em pequenas e médias empresas, financiadas por Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). Com uma análise que pondera os riscos e o histórico tanto dos cedentes como dos sacados dessas companhias, a startup aprova e libera o crédito em minutos. E já transacionou cerca de R$ 200 milhões nesse ano.

Ao unir essas duas pontas, a Liber enxerga uma boa trilha para ampliar seu bolo a partir das vendas cruzadas. “Hoje, nós conseguimos antecipar, em média, menos de 20% do que os fornecedores que atendemos têm de contas a receber”, afirma Stabile.

Ele ressalta que já há uma grande demanda reprimida entre os clientes do marketplace. “Essa empresa não fornece, por exemplo, só para a BRF, então, hoje, eu não resolvo todo o seu problema, pois estou limitado”, explica. “Com a incorporação da Adianta, o potencial de multiplicar essa base é enorme.”

Em 2020, a Liber já movimentou mais de R$ 3 bilhões, um crescimento de 1.000% sobre o ano passado

Na Adianta, a situação é inversa. “Nós temos vários fornecedores que trabalham com grandes sacados, que eu não consigo atender”, diz Camhaji. “Então, nós estamos juntando a fome com a vontade de comer.”

Na prática, segundo Stabile e Camhaji, essa equação traz uma base potencial a ser explorada de 9 mil clientes, sendo 6 mil deles da Liber Capital e os três mil restantes da Adianta. Somadas, as duas companhias passam a ter uma operação com 70 funcionários.

Consolidação

Os modelos e ofertas complementares ajudam a explicar o acordo. Mas a rapidez na conclusão da aquisição da Adianta pela Liber tem também outro pano de fundo. “Há um início de consolidação nesse segmento e tínhamos que ficar mais robustos para fazer frente a esse movimento”, diz Camhaji.

Stabile complementa: “Existe um assédio no mercado, tanto que a própria Liber e a Adianta já receberam propostas de bancos”, afirma. “Mas nós optamos por seguir um caminho mais independente.”

As fintechs de antecipação de recebíveis parecem estar, de fato, no centro das atenções. E esse interesse não está partindo apenas dos bancos tradicionais. Além da compra da Antecipa pela XP, os últimos meses foram marcados por uma série de acordos.

Dentro da sua proposta de se consolidar seu braço de atuação de techfin, a Totvs desembolsou R$ 455,2 milhões para comprar 88,8% do capital social e assumir o controle da Supplier, em outubro de 2019. A fintech fechou o ano com uma receita próxima de R$ 220 milhões e uma originação de crédito de cerca de R$ 6,5 bilhões.

Somadas, as operações da Liber Capital e da Adianta têm uma base potencial de 9 mil clientes

Em fevereiro, o Banco BV liderou uma rodada de R$ 80 milhões na Weel. A soma veio acompanhada de um aporte de até R$ 800 milhões para financiar a oferta da startup. Já no início deste mês, foi a vez da Rapidoo, fintech do segmento que foi comprada pelo grupo de serviços financeiros One7.

“Essas plataformas estão provando as suas teses e ganhando mais visibilidade”, observa Bruno Diniz, fundador da Spiralem, consultoria especializada em inovação para o mercado financeiro, para quem esse movimento só tende a ganhar força. “E a tendência é de que esse apetite seja liderado por diversas forças, de bancos e fundos até empresas de tecnologia e mesmo fintechs.”

Enquanto esse cenário se desenvolve, Liber e Adianta começam a trabalhar nos primeiros passos da união. No curto prazo, as duas empresas seguirão operando de forma independente e com marcas distintas. “A ideia é concluir toda a integração no prazo de dois anos”, diz Stabile.

Nesse processo, as fintechs já iniciaram a integração de seus back offices, assim como a procura de um escritório para reunir seus times em São Paulo. Ao mesmo tempo, a Liber manterá sua operação em São Carlos (SP), onde fica boa parte de seu time de tecnologia.

Marco Camhaji, CEO da Adianta

Existem avanços também na ponta da oferta. A Liber integrou sua mesa comercial com a Adianta e já está originando clientes e operações para a empresa.

“Nós já estamos tirando proveito da sinergia desde o dia zero”, diz Camhagi. “Não vamos capturar tudo da noite para o dia. Mas a ideia é ir crescendo e, pouco a pouco, duplicar ou mesmo triplicar a nossa carteira”, completa Stabile.

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