Na Antártica, uma “última chance” para ver a imensidão branca

A pandemia estimulou o “turismo de última chance” e o continente gelado registrou um aumento de visitantes em 2021. Uma nova embarcação projetada para os polos permite um cruzeiro de menor impacto

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Apenas 25 navios têm autorização para desembarcar na Antártica na temporada que vai de novembro a março

ANTÁRTICA – Há dez anos, um turista em visita à Antártica podia desembarcar na prainha de Neko Harbour, um dos “pontos turísticos” mais visitados pelos cruzeiros que exploram a região, e ficar ali mesmo, caminhando entre despreocupados pinguins da espécie gentoo e observando as belezas dos glaciares e icebergs ao redor.

Hoje, a crise climática mudou essa circulação. Assim que descem dos botes Zodiac, os turistas são imediatamente orientados a se afastar da beira d’agua e passear somente pelas partes mais altas da montanha rochosa, geralmente coberta de neve.

Os desprendimentos do glaciar logo em frente a Neko Harbour estão cada vez mais frequentes e significativos, e guias de expedição locais dizem já ter visto alguns deles causarem ondas capazes de virar os botes.

A Antártica já teria perdido algo em torno de três milhões de toneladas de gelo desde a década de 1990. Quanto mais a água do oceano aquece, mais as plataformas de gelo derretem e se desestabilizam.

Mesmo que o Acordo de Paris fosse cumprido e as nações limitassem os gases de efeito estufa contendo a elevação da temperatura em até dois graus, o continente continuaria derretendo por todo o século 21 segundo um estudo publicado na revista científica Nature.

As mudanças climáticas das últimas décadas transformaram ano a ano a forma de se fazer turismo no continente antártico – prática possível desde 1966, quando os primeiros turistas pisaram por ali, liderados por Lars-Eric Lindblad (considerado por muitos o “pai do ecoturismo e do turismo de aventura”).

Graças a modernos navios, jornadas que grandes exploradores como Shackleton levaram meses para fazer, muitas vezes sem sucesso, podem ser feitas com conforto em 10 ou 12 dias, partindo e voltando para a Terra do Fogo.

Os passeios de Zodiac e desembarques são limitados

Entre pinguins, focas, baleias, montanhas rochosas cobertas de gelo, neve e icebergs com formatos que parecem saídos de um sonho alucinante, viajar à Antártica está entrando nos planos de cada vez mais gente.

De acordo com a Associação Internacional de Operadores de Turismo Antártico (IAATO), mais de 74.000 turistas viajaram para a Antártica na temporada 2019/2020, contra os 56.168 visitantes da temporada anterior.

A pandemia estimulou ainda mais o interesse por viagens ao continente gelado, parte importante do chamado “turismo de última chance”. Mas entidades como a WWF (World Wide Fund for Nature) e guias de expedição veem esse aumento no número de navios e viajantes na Antártica com sentimentos conflitantes.

Por um lado, acreditam ser positivo o interesse em explorar esta região tão sensível e ameaçada e ver de perto suas maravilhas naturais. Por outro lado, temem que a presença humana colabore para a erosão do solo nos locais visitados ou distúrbios não intencionais no cotidiano da vida selvagem.

O turismo no continente antártico segue os princípios do Tratado da Antártica, ratificado por 54 países, que prega que atividades turísticas não tenham mais do que um impacto “pequeno e transitório” em suas visitas.

A fiscalização do turismo local fica por conta da Associação Internacional de Operadores de Turismo Antártico (IAATO), fundada em 1991 e composta por mais de 100 empresas e organizações que buscam promover e praticar o turismo seguro e ambientalmente responsável no continente.

Os turistas precisam ficar a 5 metros da fauna local

Suas regras definem anualmente exatos 160 locais para desembarque turístico possíveis no continente, dependendo de trabalhos que sejam feitos por equipes científicas ou de questões ambientais, com um máximo de 50 ou 100 turistas por vez em cada local.
Exigem também que humanos fiquem a pelo menos cinco metros de distância da vida selvagem – a menos que os próprios animais decidam se aproximar espontaneamente.

Apenas 25 navios têm autorização para desembarcar na Antártica ao longo da temporada turística, que vai anualmente de meados de novembro ao começo de março.

Os perigos da crise climática e exploração de recursos minerais

Guias de expedições dos navios de cruzeiro autorizados a explorar a região Antártica defendem maior fiscalização do turismo antártico, mas afirmam que a prática turística no continente, como é feita hoje, não oferece perigo comparável às tentativas de exploração de recursos minerais locais, como carvão, petróleo e gás por ali.

Nos últimos anos, registraram-se temperaturas recordes no continente. Correntes marítimas cada vez mais aquecidas esculpiram diversos novos icebergs. As formas são fantásticas e os turistas se deleitam com tantas maravilhas visuais, mas eles são sinal claro de que o gelo está derretendo.

Outra questão crítica é a pesca comercial, que já ameaça diversas espécies de peixes e cuja coleta de krill em larga escala pode prejudicar todo o ecossistema local. Afinal, estes pequenos crustáceos são um elo fundamental na cadeia alimentar do Oceano Antártico e base da alimentação de pinguins, por exemplo.

Aventura gelada em novo navio projetado para os polos

Os pinguins animam os visitantes em meio a paisagem inóspita

Lar quase intocado de pinguins, baleias e focas de diferentes espécies, além de orcas e uma infinidade de pássaros, a Antártica oferece ao turista surpresas infindáveis ao longo da viagem.

Com condições meteorológicas ideais, os desembarques no continente acontecem pelo menos duas vezes por dia, em localizações diferentes previamente estabelecidas e demarcadas em uma área pequena no noroeste da Península Antártica – sempre com aquela sensação de “ninguém mais à vista”.

No menu de atividades, caminhadas sobre pedras, rochas e neve, com fartura de vida selvagem ao redor. Passeios em Zodiacs, caiaque entre icebergs e visitas a antigas bases militares desativadas, hoje convertidas em interessantes mini museus, também fazem parte da viagem a um dos lugares mais remotos, intocados e inóspitos do planeta.

A temporada antártica 2021/2022 trouxe como principal novidade o navio SH Minerva, o primeiro da nova fase da armadora Swan Hellenic Cruises, desenvolvido especialmente para a navegação polar e inaugurado oficialmente no último réveillon.

O novo navio de alto padrão navegará todos os anos pela Antártica no verão do hemisfério sul e pelo Ártico no verão do hemisfério norte. Com capacidade para um máximo de 152 hóspedes, tem sistema “tudo incluído” que contempla até mesmo os voos dentro da Argentina, transfers, todos os passeios, refeições, bar aberto, minibar e até room service 24h.

As cabines são confortavéis e o atendimento gentil no novo ice breaker Minerva

Os passageiros são presenteados com mochila, jaqueta e parka polar, e têm providenciais botas emprestadas para os desembarques no continente gelado. Os itinerários antárticos tiveram nesta temporada saída e retorno na cidade de Ushuaia, na Tierra del Fuego argentina, com duração de cerca de duas semanas e valores anunciados a partir de US$7.499 por pessoa.

O design do navio, parte da mais alta classe de “ice breakers” e construído para ser mais sustentável (inclusive no consumo de combustível e no tipo de combustível utilizado ao navegar em águas antárticas), garante vistas espetaculares em todos os ambientes.

Cabines espaçosas e extremamente confortáveis (a maioria com deliciosas varandas), gastronomia correta, boas palestras, excelente equipe de expedições e staff muito simpático e eficiente. É um exemplo de como o turismo de aventura pode ser feito de forma responsável, na busca pelos mínimos impactos possíveis.

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